sexta-feira, 29 de março de 2013

Relação Inesperada - conto gay, parte4 - 'Jaime'




Conto longo


(ver partes anteriores: início, parte2parte3)


*** Jaime ***
 
            Há pessoas que são estúpidas e eu sou uma delas. Venho para casa todo o caminho a pensar no homem, não o consigo tirar da cabeça de maneira nenhuma, viro-lhe o carro do avesso para conseguir o seu número de telefone, consigo descobrir um cartão, consigo arranjar coragem para lhe ligar, ele atende-me bruto e sinto a sua voz adoçar quando lhe digo que sou eu… e depois o que é que faço? Ele trata-me por ‘tu’ e eu fico calado… calado… é possível uma coisa destas?

            Claro que voltou ao tratamento formal, claro que pediu desculpas, claro que não me voltou a tratar… é de ser estúpido ou não? Ter dado um murro na parede aliviou-me, mas não resolveu o problema.

            E depois o que é que faço? Engasgo-me e fico sem saber o que dizer… liguei para que ficasse com o meu número? Que desculpa de merda… que conversa da treta… senti perfeitamente o desapontamento na sua voz, senti-o como senti a sua voz ficar doce quando percebeu que era eu

            Deixei-o sem fala quando me ofereci para lhe preparar o pequeno-almoço, senti que gostara da oferta, senti-o sorrir ao telefone… não lhe disse o que queria, o que tinha planeado, mas consegui emendar um pouco o erro inicial… iria mais cedo, estaria mais tempo com ele e isso era melhor que nada. Falara num contrato para cuidar dele… também não era o que queria, mas seria melhor que nada…ser pago para fazer o que mais se deseja é o melhor trabalho do mundo, não é?

 

            Levantei-me quando faltavam 10 minutos para as sete da manhã, estava acordado há imenso tempo, dormira mal, acordara montes de vezes e já estava farto de rebolar na cama… eu gosto de rebolar na cama, mas não é sozinho.

            Fui à janela e sorri aliviado. O carro estava onde o deixei, estava tudo a correr bem. Tomei um duche, barbeei-me, queria estar… queria estar perfeito.

            Cheirei o fato que costumava usar nos casamentos, já não se sentia o odor de roupeiro. Vesti-me com cuidado e achei que estava bem, achei mesmo, achei que o meu doutor Alexandre iria gostar de me ver. Tive de fazer o nó da gravata sete vezes, mas finalmente dei-me por satisfeito, estava decente. Saí de casa. 7h20. Corri para o carro com o coração a bater. Ainda se sentia o seu perfume.

            - Pão! – disse alto, arrancando para a padaria, eles abriam a porta para vender o pão quentinho aos madrugadores

            - Então o que é que vai ser – perguntou-me o homem

            «De que pão é que ele gosta?»

            Podia não saber, podia ter ficado baralhado durantes uns segundo, mas pedi três tipos diferentes de pão, algum haveria de o satisfazer e eu não estava com tempo para perder. 7h31.

            «Não vou chegar a horas… caraças»

            Três minutos para chegar à 2º circular.

            «raios partam os limites de velocidade»

            Quatro minutos para chegar ao desvio para a Vasco da Gama. Três faixas vazias a subir para a ponte. 7h37. 17 quilómetros e depois o Montijo, o Alexandre à minha espera. Finalmente.

            «agora nós dois, bicho»

            Carreguei a fundo.

            A resposta dele foi um rugido do motor, a resposta física foi colar-me a cabeça ao banco… acho que o conta-quilómetros só parou de subir quando comecei a descer para o meio da ponte e fui eu que tive de levantar o pé. 7h44 e estou dentro do Montijo… cinco minutos para atravessar a ponte e afinal estou adiantado. Calha bem porque me esqueci de tomar café.

Agora é o tempo que não passa. Quero vê-lo.

 

            Entrei pela garagem. Estacionei o carro e subi ao quarto andar. 8h03. Não aguento mais. Toco à campainha. Ele abre-me a porta.

            - Bom dia, doutor!

            O meu coração bate de alegria a ver a sua expressão espantada. Está quase de boca aberta. Olha-me da cabeça aos pés e gosto da sua expressão. Eu não devo estar muito mais descontraído, ele está em roupão. Vejo as suas pernas nuas, tenho um vislumbre do seu peito peludo.

            - Ainda não tomei banho! – é o que me diz depois de um momento em silêncio «isso é um convite?»

            - Precisa de ajuda? – por um momento tive esperança, mas gostei da sua resposta de qualquer maneira… vi-o engolir em seco antes de sorrir

            - Acho que não é preciso!

            Tentou parecer descontraído, mas já não me engana mais, ele atrofiou, é gay sim… e não só é gay, como gosta de mim… e raios me partam se não acabo o dia na cama dele.

            Ouvia o esquentador e tentava imaginar o seu corpo nu debaixo de água. Nem consigo explicar como queria estar lá com ele. Concentro-me nas sandes. Manteiga, queijo, fiambre, uma folha de alface… toda a gente gosta de folha de alface. Pratos… onde estão? Ah, aí estão.

            Quase que o larguei no chão. O esquentador parou de trabalhar. Acabara de cortar a sandes ao meio quando ele reapareceu. O cabelo molhado, os olhos fixos em mim, o meu coração disparou outra vez. Passou a mão pelo cabelo descontraidamente. Aquele homem era lindo.

            - Café simples ou com leite, doutor?

            - Café de máquina! – foi a resposta enquanto se dirigia para ela – cheio!

            Foi ele mesmo que se serviu. Uma chávena de chá cheia de café. Ficou registado, da próxima vez já estaria à sua espera. Ofereceu-me, mas não podia beber mais cafeina, já estava com o coração acelerado o suficiente.

            Sentou-se a observar-me.

            - O Jaime hoje está… impecável! – o adjetivo não foi o que mais me agradou, mas gostei do tempo que precisou para o escolher

            Acho que consegui não corar.

            - O doutor é guloso! – acusei tentando brincar com as três colheres de açúcar que lançou no café

            Ainda pensei que se pudesse aborrecer, mas riu-se, divertido.

            - Não sou, tenho bom gosto… guloso é quem gosta de tudo, que come tudo e bebe tudo… quem gosta de coisas boas simplesmente tem bom gosto!

            Tive de me rir, tinha bom humor e estava bem-disposto, era muito bonito assim… os olhos riam-se tanto como a boca.

            - Ninguém pode por em causa o seu bom gosto! – disse-lhe – o seu bom gosto é…

            - Inegável! – aquela expressão servia bem – isso quer dizer que vou receber uma multa na próxima semana?

            Fingi-me atrapalhado.

            - Espero que não!

            - Abusou dele?

            - Não, doutor! – mordi o lábio para não dizer o que me estava a passar pela cabeça – ele tinha dado mais do que eu lhe pedi!

            «a ti é que levava até não aguentares mais» pensei imediatamente

 

            O telefone tocou… ele fez uma expressão irritada. Se tivesse superpoderes tinha destruído o telefone só com o olhar. Percebi que era do trabalho.

            - Temos de sair mais cedo! – disse parecendo triste

            - Mais uma trapalhada para o doutor resolver!

            - É o que eu faço! – encolheu os ombros a rir – não me tenho dado mal nesse campo!

            Virou-me as costas e afastou-se para o quarto. Pensei oferecer-me para ajudá-lo a vestir-se, mas não achei que aceitasse. Dei uma dentada no que sobrara da sua sandes, mesmo onde tinha estado a sua boca. Queria tanto…

            Sacudi a cabeça e arrumei a loiça, tinha de me controlar, mas não sabia quanto mais tempo iria aguentar assim, iria acabar por perder a cabeça e fazer alguma coisa que não devia… ou se calhar iria fazer alguma coisa que já devia ter feito.

 

            Apareceu-me à frente com um fato castanho. A sua gravata era da cor dos seus olhos. Estava fantástico, mesmo com a muleta ridícula. Vê-lo a coxear só me fazia quere-lo mais… era capaz de o levar ao colo se ele deixasse.

            - Está muito bem, doutor!

            - Achas? – sorriu de uma forma que me fez pensar que os meus olhos tinha dito mais que as minhas palavras, sentia-me a perder o controlo sobre isso e cada vez me importava menos – o nó da gravata deu trabalho, mas não é fácil usar só uma mão!

            - Eu tive de fazer meia dúzia antes de ficar tolerável!

            Estremeci quando ele mo agarrou e o ajeitou. Foi o ato de… carinho? Não sei se foi com carinho ou o que foi, o que me fez tremer foi o olhar doce que me deitou depois do ter feito. Sei que fiz um sorriso de orelha a orelha.

            O caminho até ao trabalho foi feito rapidamente. Ele preveniu-me que iriamos apanhar trânsito, mas quando me disse onde era o escritório quase que bati palmas… betinhos aselhas, compram as bombas, mas depois não as sabem usar… eu tivera muitas obras espalhadas por toda a capital, conhecia muito bem Lisboa, não apanhámos trânsito nenhum e só parámos nos sinais vermelhos. Ele nunca abriu a boca, vi a sua expressão de surpresa pelos caminhos que escolhi, vi-o olhar para a rua sem fazer a menor ideia onde estava, vi-o reconhecer alguns sítios onde passávamos e vi a sua expressão quando parei em frente ao seu escritório. Estava impressionado.

            - Eu conduzo em Lisboa há muitos anos, doutor, um táxi não o trazia aqui mais depressa que eu! – expliquei depois de lhe abrir a porta

            Ele saiu do carro e fixou-me nos olhos.

            - E disse-me que também sabia cozinhar?

            Precisei de um segundo para perceber. Ri-me.

            - Eu sei fazer tudo em casa, doutor! Já lho tinha dito!

            - Pois já! – disse pensativo – e diz que faz tudo! – por um momento achei que aquilo tinha um significado oculto – quanto é que o Pacheco lhe pagava?

            - 800€!

            Sorriu antes de falar.

            - Na próxima rua à direita há um parque de estacionamento! Ao seu lado esquerdo, na porta, tem um cartão que lhe dá acesso… mostre-o ao porteiro e depois deixe-o visível. O escritório é no nono andar.

            Tirou-me a pasta das mãos e entrou no prédio. Porque é que ele fazia aquilo? Detestava quando ele mudava assim de assunto, deixando-me com a cabeça a andar à roda.

 

            Aquilo era um escritório de nível. Tinha duas secretárias. Tive vontade de rir quando me olharam e depois olharam uma para a outra. Gostaram imediatamente de mim. Foi a mais velha que falou, mas a outra não perdeu uma palavra.

            - Posso ajudá-lo?

            O sorriso foi o de quem gosta do que vê e quer ser muito simpática.

            - Sou o motorista do Dr. Alexandre Salazar! – apresentei-me

            - Ah sim? O doutor Alexandre avisou que ia aparecer! – percebi logo que eu era bem melhor do que estavam à espera – pode esperar aí!

            Sentei-me a ler o jornal e ouvi-as bichanar uma com a outra. Não percebi o que disseram, mas o tom de voz era excitado, tanto de uma, como de outra. Acabaram por me oferecer café e eu aceitei, queria criar boas relações, a minha experiência dizia-me que as pessoas mais importantes dum escritório são as secretárias porque são elas que controlam o acesso a quem interessa, podem-nos abrir as portas, ou podem-nas fechar na nossa cara.

            Primeiro estive a conversar só com a mais velha, a Susana, que era mais descarada e depois contei que vira o acidente e fora eu a levar o advogado ao hospital. Chamou logo a outra para ouvir a história também, passados minutos tinha uma advogada também a ouvir o que acontecera. Riam-se do que eu dizia, estavam a ter a emoção do dia, se calhar da semana… melhor que ter uma história, era ter uma história contada por um tipo de quem tinham gostado. Soltavam risinhos nas partes com graça, arrepiaram-se quando falei no sangue… estavam a adorar e eu confesso que também. Adorei principalmente ver o Alexandre sair do seu gabinete e parar de boca aberta a olhar para o ajuntamento.

            Eu acabara de contar a parte em que o fora levar a casa e elas soltaram aquele ‘aahh’ de quem fica enternecido. Vi-o franzir o sobrolho, vi-o fixar os seus olhos nos meus e vi um lampejo de fúria. Ele teve ciúmes. Teve, tenho a certeza… a certeza absoluta, ele teve ciúmes de mim.

            - Ah, doutor Alexandre… estávamos a ouvir a história de ontem! Coitadinho!

            - Não foi nada de especial… e o meu contrato, já está pronto? Mandei-o imprimir, ou a impressora também estava a ouvir a história em vez de estar a trabalhar?

            - Ai doutor, não seja assim, nós não temos culpa do seu acidente! – a Susana voltou ao seu lugar a rir – se o mandou imprimir, já está pronto! Aqui está ele!

 

            Ele passou o resto da manhã a sair do escritório por tudo e por nada para me controlar. Foi maravilhoso ver as suas expressões, se me via sozinho sorria-me e os seus olhos brilhavam, doces; se me via com alguém franzia logo o sobrolho e dependendo da pessoa com quem estava, os olhos faiscavam de irritação. Tinha ciúmes sim senhor. Almoçámos com as secretárias e não podíamos falar, mas não foi preciso, quase parecia que estávamos sozinhos, ele só desviava os olhos de mim para comer e responder às mulheres.

            Foi o regresso ao escritório que me deixou mal disposto, deixou mesmo e foi culpa dele. Dele e duma bicha pirosa que me levou aos arames.

            Eu não gosto de homens que parecem mulheres, nunca gostei. Para ter uma mulher, tenho uma mulher a sério… e tive uma durante anos. Prefiro homens, é verdade, mas homens mesmo. E senti ciúmes do que aconteceu, senti, não tenho problema nenhum em admiti-lo.

            Eu acho que o tipo tinha maquilhagem e tudo, juro que acho, mas não tenho a certeza e não posso afirmar isso. O que eu posso dizer é que não gostei dele assim que o vi entrar. Primeiro olhou para mim de uma maneira que eu não gostei, isso foi logo a primeira coisa que me fez franzir o nariz à figurinha. Não gostei da camisa amarela e não gostei do lenço pescoço. Desculpem lá, mas não acho normal, com todo o respeito por quem achar… e gostar. Devia ter dinheiro, disso não tenho dúvida nenhuma, tinha os dedos cheios de anéis e deviam ser pesados porque parecia ter os pulsos partidos.

            Senti o olhar das secretárias em mim para ver a minha reação. Nem tive de fingir nada, eu estava de boca aberta a ver aquilo. Quando ele se apoiou na secretária da Susana e se curvou estendendo o traseiro na minha direcção, só me deu vontade de rir. Estava a abanar a cabeça com aquilo e com a vozinha dele a dizer ‘boa tarde’ quando o meu coração parou.

            - O Dr. Alexandre já chegou? Ele está à minha espera!

            «foda-se»

            - O doutor está só a terminar um telefonema, se quiser sentar-se uns minutos, o doutor não vai demorar!

            Já tinha percebido que ele nunca recebia ninguém imediatamente. De toda a gente que o tinha vindo ver, ninguém tinha entrado logo.

            - Quero, quero!

            Vi os olhares de gozo das secretárias fixos em mim quando ele veio ter comigo… a sala de espera tinha meia dúzia de poltronas à volta de uma mesa de café.

            Senti que ele me estava a olhar também, mas concentrei-me numa revista que tirara assim que percebera o que ia acontecer.

            Ele sentou-se com um daqueles suspiros… não sei explicar, foi mesmo um «aiii» como se estivesse estafado.

            «se me dizes alguma coisa… ai se me dizes alguma coisa»

            Outra coisa que eu percebera… o Alexandre fazia toda a gente esperar, mas nunca muito tempo, nem tinha passado um minuto quando a porta do seu gabinete se abriu e ele apareceu.

            - Ai doutor, o que é que lhe aconteceu? – guinchou a bicha

            Cruzei os braços irritado… ele olhou primeiro para a bicha e depois é que olhou para mim.

            - Não foi nada, Ernesto, um pequeno acidente!

            «pffff… Ernesto»

            - Não acredito, doutor… conte-me tudo!

            Juro que não ouvi mais nada. Ele correu para o meu homem, correu mesmo. Mas que merda é esta? Senti a garganta seca e a saliva em pasta na boca. Levantei-me para ir beber água.

            Encontrei os olhos do Alexandre fixos em mim, a sua expressão era de surpresa, de confusão e depois acho que percebeu… deve ter percebido porque os seus olhos brilharam e vi a sua boca abrir-se num sorriso de divertimento.

            «puta que pariu… era bom que percebesse… não gostei… não gostei mesmo nada»

            Sei perfeitamente que me tornei a sentar com um ar de poucos amigos, eu sei bem o estado de espírito com que estava e sei bem a má cara que faço quando me sinto assim. Se ele tinha ciúmes, eu também podia ter… pensei meter-me com as secretárias, mas achei melhor não, não conseguia, não queria fazê-lo… queria entrar pelo gabinete dentro, pegar nele, metê-lo no carro e deixar a bicha a falar sozinha… era isso que eu queria. Dei comigo a abanar a perna, aquele tique nervoso que faço quando começo a stressar. 35 minutos? Mas o que é que o raio da bicha tinha para precisar de estar 35 minutos fechada no gabinete com o meu homem… sim, o meu homem… já admito e sei bem que ele já percebeu isso… já percebeu sim, mostrou ciúmes de mim e já viu que eu tenho ciúmes dele, não é preciso dizer nada… estou passado. Isto de eu ser motorista dele não é nada boa ideia.

            Finalmente a porta abriu-se e eles saíram. A bicha a rir-se, feliz, o Alexandre a olhar-me intensamente, divertido, eu de trombas. Eu gosto do sorriso dele, os olhos iluminam-se também e ainda fica mais bonito, mas não quando está a divertir-se às minhas custas. Sei bem que gostei de o ver com ciúmes de mim, tenho de compreender que ele também tenha gostado de ver que tenho ciúmes dele, tenho perfeita consciência disso tudo.

            O meu sorriso foi amarelo, em resposta ao dele, vi o seu abrir-se mais e os seus olhos brilharem… só isso é que me acalmou um bocado. O cliente também percebeu. Viu a expressão dele e olhou-me logo a seguir, via-se que ficara surpreendido. Ele percebeu perfeitamente os nosso olhares e percebeu perfeitamente o seu significado. Vinha quase de braço dado com o Alexandre, mas afastou-se imediatamente… achei isso curioso. Apertou-lhe a mão com um ‘obrigado doutor’ e despediu-se das secretárias com um aceno super efeminado.

            É difícil explicar as sensações que tive, mas a sua maneira de olhar para o Alexandre mudara, a sua maneira de olhar para mim mudou também. Quando passou por mim fez um sorriso cúmplice e piscou-me o olho.

            «Já percebi, o homem é teu»

            Eu não sei se foi isso que ele quis dizer, foi o que eu achei. A partir desse momento passei a respeitá-lo e aprendi uma lição, o ditado que diz que as aparências iludem, aplica-se realmente a toda a gente.

            Quando voltei a encarar o Alexandre o seu sorriso era de censura, continuava divertido, os seus olhos continuavam a brilhar, mas estava-me a censurar. Tive vontade de correr para ele e pedir-lhe desculpas, mas não o fiz, as secretárias não o viam a ele, mas viam-me a mim.

            - Vou sair entretanto, Jaime… se quiser pode ir buscar o carro!

            Levantei-me num pulo e saí porta fora. Finalmente ia tê-lo só para mim.

 

            Saímos cedo, fomos para casa dele antes das 16 horas. Não abrimos a boca o caminho todo, eu não sabia o que havia de dizer e ele parecia que também não. Tanta coisa para dizer e não conseguia falar… e porque é que ele não dizia nada?

            Ele estendeu-se no sofá quando chegámos. A merda do telefone não parava de tocar.

            Preparei-lhe o jantar. Não sabia se queria que o cozinhasse também, ou… não sabia como lhe dizer o que queria… parecia ter adormecido no sofá. Era tão bonito de olhos fechados como de olhos abertos. Eu sabia que estava apaixonado, não tinha dúvida sobre isso, desejava-o mais do que alguma vez desejara a minha mulher… queria agarra-lo, beija-lo, fazer-lhe mimos, queria…

            Abriu os olhos. Aproximei-me mais. Acho que ele percebeu que eu estava nervoso, nunca me tinha sentido assim. Ia dizer-lhe que o amava, não sabia como, mas ia dizer…

            - Quer que eu venha amanhã, doutor?

            Eu sei, não foi o melhor começo, mas serve tão bem como outro qualquer.

            - Não! – foi a resposta

            O meu coração parou. Devo ter feito uma expressão de dor porque ele sorriu agarrando-me o pulso com toda a força.

            - Fica comigo Jaime, por favor!

            - A dormir aqui? - eu não sei como explicar o que senti, só quem já se sentiu apaixonado e passou por esta situação pode compreender... querer dizer as coisas e não ser capaz, querer ouvir algo e nunca mais sair... e depois finalmente as palavras que andamos desesperados para escutar... quem já esteve na mesma situação sabe o que senti

            - A dormir comigo! – vi o seu queixo a tremer – eu hoje… no escritório…

            O meu coração quase que rebentou de alegria.

            - Tiveste ciúmes?

            - Tive vontade de as espancar!

            Ajoelhei-me ao seu lado e colei os meus lábios aos seus num beijo doce, desesperado.

            - Eu também tive!

            - Eu sei… queres ficar?

            - Não há nada que eu queira mais!

            Estava tudo dito e afinal foi tão simples.

            Passei as mãos debaixo do seu corpo e levantei-o no ar. Levei-o para o quarto e minutos depois os nossos corpos fundiam-se num só.


 



quinta-feira, 28 de março de 2013

Alterações em 'Relação Inesperada'

A quem já leu a última parte... fiz alterações... desculpem a trapalhada, mas não estava satisfeito com o final e uma crítica acabou por me fazer decidir alterá-lo... tenho pena de ser anónima, mas não me estou a queixar, o comentário motivou-me... obrigado anónimo    ;)

Sean Harley







'all men are born equal', some say... are they, really?


quarta-feira, 27 de março de 2013

Relação Inesperada - conto gay, parte3 - 'Alexandre'

 


*** Alexandre ***

             Eu não sabia bem o que fazer, não conseguia tirar o Jaime da cabeça. Não entendia o que acontecera, mas quando nos tocamos ele se retraiu. Era estranho. Num momento parecia sentir-se bem comigo, no outro parecia atrapalhado. De certeza que a última coisa que queria era ter-se livrado da mulher para agora ter um homem atrás de si.

            Paguei a conta do restaurante e arrastei-me até ao carro. Realmente há dias que são um Inferno.

            Ele parara o carro tão próximo da porta quanto possível. Estava de porta aberta à minha espera. Os seus olhos pareciam vazios, a sua expressão era parecida com a de qualquer motorista profissional que me transportara. Fiquei confuso, senti o seu cheiro quando se curvou sobre mim para me prender o cinto de segurança. Podia-lhe ter beijado o pescoço ali mesmo… quis faze-lo, mas ainda bem que não o fiz… nem me olhou, fechou a porta, contornou o carro e sentou-se ao volante.

            - Para onde, doutor?

            Senti dor no pulso e no tornozelo em simultâneo… foi de certeza uma descarga de energia porque a sua frieza desorientou-me.

            - Preciso passar pelo banco! – consegui finalmente dizer – quero-lhe dar algum dinheiro para voltar para casa! – fiz uma pausa, mas ele nem me olhou – já foi simpático o suficiente! – terminei olhando para a rua para que não me pudesse ver a morder o lábio

            Ele arrancou sem uma resposta. Aquele homem era o diabo encarnado e estava-me a enlouquecer.

            Saído do banco, desejei ardentemente um olhar dele… tive um olhar de relance, quando se endireitava para sair e… pasme-se… fiquei satisfeito com isso. O que estava a acontecer comigo?


            Estacionou o carro com cuidado e acedeu a subir comigo. Observei-o através do espelho do elevador… olhou-me várias vezes… que olhar era aquele? Seria curiosidade? Admiração? Respeito? Seria o quê? Poderia ser interesse? Queria tanto que fosse interesse… podia ser desprezo por perceber que sou gay… não, isso não podia ser, não quero que seja!

            Depois vi a sua expressão a observar a casa, estava impressionado. Vi-o fixar-se no meu quadro na lareira. Quis dizer-lhe que fora eu o modelo.

            - Gosta do quadro?

            Vi-o corar… gostei de o ver corar.

            - Gosto! – foi a sua resposta – mas não se percebe muito bem o que é!

            Fiquei curioso… estava a disfarçar? Via-se perfeitamente o que era, era um homem nu na praia, era eu pintado pelo Hugo.

            Expliquei-lhe que cada pessoa vê algo diferente na arte, nunca admiti que me obrigassem a ver algo que supostos especialistas decidiam que fosse.

            - O que vê, Jaime? – insisti para ver a sua reação

            - Não sei muito bem, mas gostos das cores, fica bem aqui!

            Virou-me as costas. Desviou o assunto, ou então não via mesmo nada, ou então não queria falar do que via… se calhar até estava enojado a pensar que eu podia ter dinheiro, mas não passava de um…

            Senti uma dor de cabeça a caminho. Troquei umas trivialidades com ele sobre o carro e mais não sei quê e senti sempre que preferia enfrentar um tribunal hostil do que falar com aquele tipo. Era confuso para mim, ele era um mistério.

            - Sempre posso contar consigo amanhã? – acabei por perguntar pois precisava saber isso, era o que eu mais queria saber… a sua expressão de surpresa apanhou-me desprevenido, foi como uma facada… estaria desesperado para se ver livre de mim?

            - Se mudou de ideias…

            Quis-lhe dar espaço para recusar, não queria que se sentisse obrigado ao que quer que fosse.

            - Não, não, doutor, não mudei… a que horas me quer cá?

            Sorri, deliciado, confundido com as diferentes mensagens que ele transmitia, num momento parecia querer desaparecer, depois isto… ele devia ser bipolar, ou então estava mesmo decidido a enlouquecer-me.

            Tirei o dinheiro e estendi-lhe 60€. A sua expressão foi de nervos, quase fúria…

            - Não leve a mal, Jaime, mas quero que aceite este dinheiro! – disse o mais docemente que consegui

            Vi-o a pensar algo que não disse… o que seria? Algo do tipo «deves pensar que me compras» imaginei analisando a sua expressão irada.

            - É justo, Jaime! – disse tentando manter-me calmo – perdeu o seu tempo, vai ter de comprar bilhetes de autocarro, é pelo seu incómodo! – ele preparava-se para recusar, mas não o permiti – antes de recusar! – nem o deixei falar, fui duro justamente para que não pudesse pensar que o queria comprar, nunca pagara para ter alguém e aquela ideia ofendia-me profundamente, quis ser perfeitamente claro – eu gosto de ser pago pelos meus serviços e geralmente sou bem pago, gosto de fazer o mesmo… aceite, por favor!

            Aceitou o dinheiro e aceitou também a minha mão quando lha estendi. Novamente uma expressão doce no seu rosto, novamente os olhos a brilhar.

            - Obrigado pelo que fez hoje por mim, Jaime! – disse-lhe a sorrir, feliz com a sua expressão – foi inesperado e senti-me muito bem consigo!

            O seu olhar foi intenso, pareceu gostar do cumprimento, mas não respondeu. Pareceu atrapalhado e afastou-se. Quando o vi abrir a porta da rua achei que não o veria mais.

            - Jaime!? – chamei antes de conseguir pensar

            Ele virou-se… a sua expressão era hesitante… só queria que tivesse vindo ter comigo, que…

            - Mudei de ideias! – disse-lhe

            Vi-o estremecer.

            - Já não quer que venha?

            «Quero que fiques comigo» pensei «quero tanto que fiques comigo», mas descobri que sou um cobarde…

            - Quero que leve o carro! – foi a única coisa que consegui dizer – para que há-de andar de transportes e eu ter o carro parado!

            Achei que ficou dececionado, embora não entenda bem porquê. De carro teria de voltar mesmo. Não lhe disse o que queria dizer, mas senti-me mais seguro, podia ser que no dia seguinte tivesse essa coragem.

            - Não precisa dele?

            Mostrei-lhe o pulso a rir.

            - Duvido muito!

            A sua expressão quando lhe dei a chave parecia a de uma criança quando se lhe oferece um presente, ele gostara claramente do carro, os seus olhos brilhavam. Agora, mesmo que ganhasse coragem, não era capaz de lhe pedir para ficar. Disse-lhe um «até amanhã» apressado e coxeei o mais rapidamente que pude de volta à sala. Quando ouvi a porta a bater atrás de mim atirei a muleta com toda a força para o sofá e senti as lágrimas inundarem-me os olhos. Aquele homem estava-me a dar cabo da cabeça.

            Chorei mesmo, chorei por ser um cobarde, chorei por não o entender, chorei por não me conseguir fazer compreender, chorei pela minha queda, descarreguei todas emoções e todas as frustrações do dia… todas, chorei até adormecer no sofá, exausto.

 

            Acordei perto das 21horas, mais calmo, mais descansado… cheio de sede. Triste, mas sentindo-me bem melhor… o pulso não doía muito, o tornozelo também não, o coração… esse doía-me um bocadinho. Estaria apaixonado? Não, isso não podia ser, ninguém se apaixona assim e eu não acredito no amor à primeira vista… ele tinha qualquer coisa que me deixava doido de desejo, estava a sentir-me cada vez mais atraído por ele… se calhar é isso que é a paixão inicial, provavelmente estaria realmente apaixonado.

            O telefone tocou. Revirei os olhos. Vi-me a caminho da esquadra da polícia para tentar libertar um idiota bêbado. Desta vez não tinha sorte, eu não podia sair, fosse quem fosse. Não conhecia aquele número, mas pelo menos não era um número incógnito.

            - Boa noite, doutor, desculpe ligar-lhe a esta hora!

            Tive vontade de atirar o telefone à parede, era sempre assim que começavam os problemas.

            - Quem fala? – consegui não ser rude, mas também não fui simpático… fiz de propósito

            - É o Jaime!

            - Jaime! – senti um sorriso a abrir-se sem que o pudesse controlar, nem queria faze-lo, o meu coração disparou imediatamente – está tudo bem?

            - Desculpe ligar-lhe, mas revistei-lhe o carro à procura do seu número e encontrei um cartão pessoal!

            - Ainda bem que ligaste!

            Apercebi-me imediatamente que o tinha tratado por ‘tu’, não pensara… fez um silêncio momentâneo e senti vontade de bater com a cabeça na parede.

            - Desculpe trata-lo assim, nem pensei! – apressei-me a dizer – acordei agora e ainda não consigo pensar devidamente… está tudo bem, aconteceu alguma coisa?

            Ouvi um baque que não percebi o que era.

            - Não faz mal! – ouvi num tom que não dava para identificar – liguei para… pronto, para ficar com o meu número, no caso de ser preciso alguma coisa!

            - Ah sim, obrigado! – esperava algo mais… não sei – por acaso já tinha pensado nisso! – tentei disfarçar a deceção

            Novo baque do outro lado. Estava mesmo para lhe perguntar o que era aquele barulho quando ele tornou a falar.

            - Lembrei-me que podia querer… não sei se toma o pequeno-almoço em casa, mas posso ir mais cedo e parar para comprar pão!

            Aquilo deixou-me literalmente de boca aberta.

            - Está aí, doutor?

            - Estou sim… fiquei sem fala e olhe que não é uma coisa fácil de acontecer!

            Senti-o sorrir do outro lado.

            - Eu vou acordar às 7 de qualquer maneira… e como o doutor de certeza não consegue preparar o pequeno-almoço!

            - Juro-lhe que se me diz que sabe cozinhar eu penso muito seriamente a arranjar-lhe um contrato a sério!

            - Um contrato a sério? – foi a vez dele ficar surpreendido

            - Sim… para motorista, cozinheiro e sei lá mais o quê…

            - Eu preciso de trabalhar, doutor… e sei fazer tudo em casa!

            Engoli em seco.

            - Pelo que já vi tem muitas facetas… foi um motorista perfeito!

            - Então apareço mais cedo?

            - Bem, eu levanto-me às oito… antes disso apanha-me a dormir!

            - Vou ter cuidado, doutor! Vou ter de desligar porque vou ficar sem saldo! Até amanhã!

            Desliguei o telefone perplexo. O que fora aquilo? Ele ponderara a hipótese de trabalhar para mim? Pareceu-me disponível para isso, para me conduzir, cozinhar e essas coisas todas… eu teria percebido bem?

            Fui para a cama a pensar nisso, a pensar no Jaime e na ideia dele trabalhar para mim, teria de vir viver comigo… essa ideia agradava-me, agradava-me muito, eu gostara da sua companhia, eu gostara dele. Tornei a adormecer imaginando o seu corpo nu.

 

            O despertador tocou às 8 horas. Dei-lhe um murro e sentei-me na cama. Há muito tempo que não acordava assim, pronto para me levantar. Mas tinha boas razões para isso, dali a pouco teria o Jaime a tocar-me à campainha. Vesti o robe e abri a torneira do duche para a água aquecer. Coxeei até à cozinha para ligar a máquina do café e regressei o mais rapidamente que pude, queria-me despachar, queria estar pronto quando ele chegasse.

            A campainha da porta tocou.

            «raios partam» pensei

            Era a porta cá de cima, o toque era diferente da campainha do prédio. Se tocava já cá em cima, significava que entrara pela garagem, só podia ser ele. Olhei-me no espelho e tentei desesperadamente alisar o cabelo que estava completamente em pé.

            Espreitei pelo óculo da porta… claro que era ele.

            Abri a porta de boca aberta, nem queria acreditar. O Jaime estava de fato, de fato mesmo, um fato cinza escuro, camisa cinza claro e gravata nos dois tons de cinza. Olhei-o de cima abaixo, incrédulo… estava deslumbrante, impecavelmente vestido, com o saco de compras na mão, os olhos a brilhar e um sorriso divertido nos lábios.

            - Bom dia, doutor!

            - Ainda não tomei duche! – consegui dizer com alguma dificuldade

            - Precisa de ajuda? – o seu olhar foi intenso, pareceu provocador

            Ou então fui eu a ver coisas.

            - Acho que não! – consegui sorrir – entre, vou tentar ser rápido!

            Pelo menos a afastar-me para a casa de banho fui bastante rápido. A minha cabeça rodava, não o esperara tão cedo. Tirei as ligaduras com um sorriso nos lábios, eu também fora analisado dos pés à cabeça, bem vira os seus olhos a percorrerem-me o corpo, vira-o sem sombra de dúvidas e vira perfeitamente que gostara.

            Deve ter sido o meu record a tomar duche, o banho mais rápido da história… a mesma coisa a cortar a barba, mas aí demorei o tempo necessário, não me queria esfaquear, já estava lesionado o suficiente. Pensei vestir-me primeiro, mas queria falar com ele, queria vê-lo bem… fui para a cozinha.

            Encontrei os seus olhos fixos em mim, brilharam como quando lhe abrira a porta.

            - Café simples ou com leite, doutor?

            - Café de máquina! – respondi, colocando uma pastilha – cheio!

            Olhei-o enquanto cortava uma sandes ao meio. Devia ser para mim.

            - Já tomou café?

            - Já, doutor, obrigado! – olhou-me a sorrir, gostara que lhe tivesse perguntado

            Sentei-me tentando não o olhar demasiadamente. Foi difícil parecer natural e descontraído.

            - O Jaime hoje está… – faltava-me a palavra, só me lembrava de ‘deslumbrante’, mas o queria usar já – impecável!

            Quase que senti vergonha de ser um homem que vive do uso das palavras e não me lembrar de um adjetivo melhor para o qualificar. Vi a sua expressão à terceira colher de açúcar.

            - O doutor é guloso! – fixou-me a sorrir

            Era mais uma afirmação que uma pergunta. Tive de me rir, toda a gente gozava com a quantidade de açúcar que sempre ponho no café. Às vezes irritava-me e perdia a paciência, mas eu estava feliz por ele estar comigo.

            - Não sou, tenho bom gosto… guloso é quem gosta de tudo, que come tudo e bebe tudo… quem gosta de coisas boas simplesmente tem bom gosto! – sorri-lhe sem dizer o que mais estava a pensar «é por ter bom gosto que estou a adorar ter-te aqui comigo»

            Ele riu-se.

            - Ninguém pode por em causa o seu bom gosto! – disse a rir – o seu bom gosto é…

            - Inegável! – tentei disfarçar o prazer que me deu a sua expressão – isso quer dizer que vou receber uma multa na próxima semana?

            - Espero que não! – fez uma expressão de garoto mal comportado, apanhado em flagrante

            - Abusou dele?

            - Não, doutor! – mordeu o lábio de uma forma extremamente sexy – ele tinha dado mais do que eu lhe pedi!

            «exatamente como eu» pensei imediatamente

 

            O telefone tocou… diabos levassem a gente do escritório. Um cliente a querer saber se o poderia receber mais cedo. Tinha de ser, aquele era dos que não gostavam de ouvir «não» e eu não me podia dar ao luxo de o fazer, a avença com aquela empresa era polémica, constantemente processada e portanto uma das minhas principais fontes de rendimento.

            - Temos de sair mais cedo! – suspirei para o Jaime

            - Mais uma trapalhada para o doutor resolver! – sorriu simpaticamente

            - É o que eu faço! – encolhi os ombros sentindo-me feliz – não me tenho dado mal nesse campo!

            A única coisa em que me dava mal era em resolver as trapalhadas da minha vida pessoal, mas isso acabaria por ter uma solução mais tarde ou mais cedo… cada vez acreditava mais que seria mais cedo.

            Sentia-me bem-disposto, sentia-me feliz… o fato azul era demasiado escuro, optei pelo castanho, queria uma cor clara, uma cor mais de acordo com o meu estado de espírito.

            Foi uma boa escolha, quando cheguei à sua frente o seu olhar mostrou-mo sem sombra para dúvidas… um olhar intenso, de análise, um olhar que demonstrava ter gostado do que viu.

            - Está muito bem, doutor!

            As palavras eram simples, mas a sua expressão dizia mais que isso.

            - Achas? O nó da gravata deu trabalho, mas não é fácil usar uma só mão!

            Percebi que o tinha tratado por ‘tu’ novamente, mas não me importei, eu não conseguia tirar os meus olhos dos dele e do que via neles. Não conseguia parar de sorrir e ele também não o fez… ou não reparou que eu o tratara por ‘tu’, ou desta vez não se importou.

            - Eu tive de fazer meia dúzia antes de ficar tolerável!

            Decidira que seria mais corajoso e fui-o… levei a mão à sua gravata e, na verdade não fiz nada, mas toquei-lhe. Ele estremeceu, não aguentou o meu olhar, acabou por me conseguir voltar a encarar e fê-lo com um enorme sorriso que teve um duplo efeito em mim. Adorei aquele olhar, adorei a sua reação e amaldiçoei o Pires de Andrade pela reunião… se o homem não fosse quem era e tivesse o impacto que tinha, juro que teria desmarcado.


(ver parte4)

 

 

Joseph Sayers - who's sexy?






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