domingo, 23 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 2 (conto gay)

Para ver inicio - cap1

2

 
            O Chico viu-me logo e acenou-me. Estavam na esplanada. Reconheci o Paulo ao seu lado, de frente para mim. O Paulo é um enfermeiro de Lisboa que alugou casa ali. Muito giro, muito simpático e eu sei que tem tudo no sítio porque já o vi na praia em fato de banho… e sei também que tem um sexo enorme e sabe usa-lo porque o Chico já esteve na cama com ele e fizera o relatório completo… o Chico tem o grande defeito de ser desbocado e contar tudo a toda a gente. O meu amigo trata do jardim do Paulo e quando ainda estavam os dois sozinhos tinham acabado… enfim, enrolados.

            À frente deles estavam dois tipos, um devia ser o novo namorado do Paulo. Só o tinha visto uma vez e não gostara muito dele. É pouco mais velho que eu e muito giro, mas muito convencido também, nada simpático mesmo. O outro percebi que não era o Álvaro, mas não consegui ver bem, estava de cabeça baixa, concentrado numa revista que lia atentamente. Podia ser alguém interessante… visto daquele ângulo parecia ter bom aspeto.

            - Nunooo! – exclamou logo o Chico, acenando – bom dia, amigo!

            - Olá! – respondi com o coração subitamente na garganta

            Nem dei a resposta habitual que era gritar também o nome do Chico como ele fizera. Estava em choque, largara a bicicleta e vira finalmente quem estava com o meu amigo. Passei-me. Um era mesmo o namorado novo do Paulo, mas o outro era o tipo do pinhal… o tipo do pinhal, porra, o corredor podre de bom… oh, meu… ele estava ali…

            Vi-o levantar os olhos da revista para ver quem tinha chegado e percebi que me reconheceu. Ao menos isso, reconheceu-me, isso queria dizer que eu não lhe passara completamente ao lado, não me olhara e apagara-me da sua mente logo a seguir. Pareceu surpreendido por me ver.

            - Olá Nuno! – o Paulo sorriu-me como sempre, apertando-me a mão quando lha estendi – estás bom?

            - Sim. – respondi vagamente, sentindo-me um bocado constrangido

            Era para aí a quarta ou quinta vez que o via e usava sempre aquele tom para me cumprimentar, parecia que estava felicíssimo por me ver e cheio de saudades minhas. Ele é atraente, tem boa pinta mas quer dizer, não é? Há limites… eu sei que ele gosta de putos e deve gostar de mim porque é sempre muito simpático comigo; mas se já me deixava atrapalhado sempre que falava comigo quando estava sozinho, muito mais agora que tem um namorado… e ainda por cima à frente de desconhecidos. Concentrei-me a tentar decidir se devia apertar a mão ao bonzão do pinhal ou apenas acenar-lhe. Tinha de lhe apertar a mão, não era? Até porque queria mesmo tocar-lhe.

            Controla-te, meu!… gritou o meu cérebro lá do fundo… é só um gajo!

            - Já conheces o Ricardo? – apontou para o namorado à sua frente

            Fogo… este primeiro…

            Apertei também a mão ao Ricardo, que me fez um sorriso amarelo como se estivesse aborrecido por ter de falar com os saloios da terra. Aquilo irritou-me logo. O seu ar convencido, a expressão com que me olhou…

Arrogante de merda!

Ele achava-se o máximo e parecia que me estava a fazer um favor ao cumprimentar-me. Aliás, ele não me cumprimentou, deu-me a mão para apertar, só isso, fui eu que apertei uma coisa mole que… detestava gente assim, que não apertava a mão… uma pessoa já está em stress e ainda tem de levar com isto…

            - Não me lembro. – respondi encolhendo os ombros indiferente – mas acho que sim… já nos conhecemos, não já?

            Encarei-o a sorrir e os seus olhos traíram-no. Não gostou da minha indiferença, devia achar que eu tinha obrigação de me lembrar dele. É claro que me lembrava, mas não estava com paciência para aquelas merdas… agora ia ficar a pensar que não era tão inesquecível como achava…

Vai buscar, abelha!…

            Agora sim, agora era o corredor bonzão… este já custava um bocadinho mais a cumprimentar. Pelo canto do olho vira-o levantar os olhos da revista outra vez quando eu cumprimentara o Ricardo, achei que ele parecia surpreendido com a minha saída com o outro; também não devia gostar dele. Agora notei uma expressão de curiosidade nos seus olhos e corei quando o fixei…

Porra, que olhos

            - O Duarte não conheces mesmo, é o primeiro fim de semana que ele vem ao Meco. – continuou o Paulo… eu senti que a sua voz endurecera um pouco, não devia ter gostado da forma como eu falara com o seu ‘mais que tudo’

            - Mas estás enganado. – lançou o Duarte a sorrir – já nos vimos no pinhal há um bocado, não foi?

            - Sim, foi. – balbuciei sentindo a cara a ferver enquanto lhe apertava a mão… e apertou-ma com bastante força, este sim era um homem

            Foda-se, Nuno… gritou o meu cérebro, mas não havia nada a fazer. Não me consegui controlar. O tipo tinha mesmo um sorriso espantoso… era lindo, lindo… os seus olhos negros brilhavam fixos em mim e eu senti-me a ficar da cor da t-shirt que ele vestia…

            Senti-me perfeitamente a estremecer com o seu toque e só não corei mais porque era impossível, já devia estar no máximo de cor. O seu olhar faiscou de satisfação e o seu sorriso abriu-se mais…

            - Tenho muito gosto, Nuno. – a sua voz era doce e o seu sorriso de dar a volta à cabeça… aliás, foi justamente o que me fez

            - Também eu! – respondi com a maior das sinceridades

            Claro que percebeu logo que me tinha deixado com a cabeça a andar à roda, claro que eu não conseguira disfarçar bem e claro que estava habituado a isso, devia ser normal para ele. Pareceu achar piada à minha reação e eu engoli em seco, preocupado… tinha o coração entalado na garganta e até achei que me estava a asfixiar. Mas que grande merda...

            - Ah já se encontraram? – o Paulo não conseguiu disfarçar a sua surpresa e o seu desapontamento – e o que fizeram os dois sozinhos no pinhal de madrugada, pode saber-se?

            Tornei a engolir em seco com o meu cérebro a gritar… nada! Ele mal olhou para mim!

            - Cruzámo-nos a correr. – esclareceu o Duarte secamente, olhando o amigo com uma expressão dura nos olhos… achei incrível como a sua expressão mudou num segundo, muito simpático para mim num momento e um olhar ‘matador’ para o Paulo no momento seguinte

            - Ah tu gostas de correr? – o Paulo concentrou-se em mim, ignorando o amigo – não sabia…

            O tom duro que o Duarte usara acordara-me e senti-me a recuperar.

            - Precisava extravasar. – respondi vagamente…

            - Não te queres sentar, Nuno? – o Duarte sorriu-me simpaticamente e eu acho que tremi outra vez com aquele seu sorriso

            - Sim, obrigado. – acho que corei novamente, o tipo estava a mexer comigo e já o percebera bem… percebera ele, percebera eu e acho que tinha percebido toda a gente

            - Queres café?

            Eu voltei a olha-lo e claro que só consegui aguentar um segundo, os seus olhos brilhavam fixos em mim… parecia divertido com o efeito que estava a ter. Por mim não estava a achar piada nenhuma àquilo, queria conseguir encará-lo, mas era impossível, aguentava apenas um momento e tinha de desviar os olhos… aquilo era horrível.

            - Esqueci-me de trazer dinheiro. – encolhi os ombros tentando agir normalmente… concentra-te, meu, ele é um tipo como os outros.

            - Não foi isso que te perguntei. – o sorriso diminuiu e a sua voz endureceu um pouco – eu perguntei-te se querias café…

            O meu coração deu um salto e desta vez encarei-o mesmo, espantado, mas o que era aquilo?

            - E eu respondi que não tinha dinheiro. – encolhi os ombros

            Tipo… Daaaa!!!

            Ele semicerrou os olhos por um momento, como se estivesse a tentar compreender o que eu tinha dito ou… não sei explicar, pareceu surpreendido com a minha resposta, mas depois cintilaram e vi a sua boca tremer, não devia ter gostado muito da resposta, embora eu não conseguisse mesmo perceber porquê, o que eu tinha dito era compreensível para qualquer um, não era? Se calhar tinha sido o meu tom.

            - Isso quer dizer que mesmo querendo café, não aceitas que um de nós te ofereça um? – perguntou calmamente…

            Parecia perplexo e portanto estava como eu… ele queria-me oferecer o café? O seu olhar era hiper perturbador, intenso, era um olhar que me deixava literalmente com a cabeça a andar à roda… que olhos, meu…

            - Se me quiseres oferecer um café, eu não vou dizer que não. – respondi sem o conseguir encarar mais, sentindo-me super atrapalhado… o que é que me estava a acontecer?

            - Ótimo! Essa é a resposta certa, Nuno, era isso que eu queria ouvir. – vi os seus lábios voltaram a tremer, agora numa amostra de sorriso – é que eu não gosto muito que me digam que não…

            Virou-se para trás com uma chávena na mão, deixando-me de boca aberta enquanto a mostrava ao empregado para pedir uma nova bica.

            - Eu depois dou-te o dinheiro.

            Ele encarou-me outra vez, inclinando um bocado a cabeça, agora parecia desapontado comigo.

            - Não aceitas que te pague um café? Como camarada das corridas?

            Engoli em seco. Aqueles olhos… o seu sorriso insinuante…

            - Aceito sim, obrigado.

            O que é que eu podia dizer a este gajo? Desviei os olhos para o Chico que me sorria. Depois vi o Paulo, que me observava atento… não consegui perceber o que estava a pensar, mas achei que tinha percebido claramente que o seu amigo me estava a perturbar… muito…

            - Mas conta lá, Nuno… precisavas extravasar o quê?

            A pergunta do Paulo e o seu olhar surpreenderam-me, tanto mais que senti o Ricardo ao meu lado a agitar-se na cadeira

            Fogo, meu, tens o teu namorado à tua frente!!

            Eu devia estar a fazer algum tipo de filme, mas achei que aquilo não estava a correr mesmo nada bem. Eu até gostava dele, mas não gostava nada daquele tipo de conversa, nem daquele tipo de olhares. Achava-o giro, mas comparado com o Duarte… é que não tinha nada a ver. Além disso…

            - A paixão do Nuno casou-se e está em lua-de-mel! – lançou o Chico

            Fiquei sem fôlego.

            Porra, Chico!... foi a minha vez de olhar o meu amigo com o olhar ‘matador’… e se fechasses a matraca, meu? Dasss!!

            - Ai sim? – o olhar do Paulo tornou-se quase tão intenso como o do Duarte tinha sido antes

            Mordi o lábio com força. Aquilo deixava-me desconfortável. Primeiro eu não queria falar do Pedro, fora ter com eles justamente para o esquecer, não para estar a contar detalhes da minha intimidade… e por outro lado o Chico tinha-me dito que o Paulo gostara de mim, que dissera uma vez que gostava de me saltar para cima… assim mesmo, portanto não achava normal aquela conversa e aqueles olhares, muito menos à frente do seu namorado…

            - Não quero falar sobre isso! – tentei dar um ar decidido e final às minhas palavras, mas sabia bem que devia estar vermelho que nem um tomate e que isso me cortava um bocado a credibilidade….

            - Porque não? – agora foi o Duarte que falou e quando o olhei vi-o à espera da minha resposta, atento às minhas palavras

            - Porque não! – encarei-o de sobrolho franzido, sabendo perfeitamente que estava com má cara… depois fulminei o Chico com o olhar novamente… Porra para isto.

            - Ok, não se fala mais no assunto! – o Paulo sorriu-me – mas só para esclarecer as coisas… agora estás livre, é isso?

            - Sim. – confirmei revirando os olhos… assim nunca mais ia parar de corar

            - Durou muito tempo? – o olhar do Duarte fixo em mim era penetrante, os seus olhos negros pareciam invadir-me o cérebro a querer adivinhar-me os pensamentos.

            Foda-se… também tu? Qual é a parte do ‘não quero falar nisso’ que ainda não percebeste?

            Olhámo-nos mutuamente por uns segundos, mas eu não aguentei. Porra!

            - Tempo demais! – respondi finalmente tentando ser brusco, mas não me saiu bem, aquele tipo intimidava-me… os seus olhos agitaram-se por um momento, parecendo divertidos e eu devo ter ficado púrpura – então e o Álvaro? – perguntei ao meu amigo… tinha de mudar de conversa

            - Não pode vir! – respondeu o Chico – acho que…

            - Está-te a por os cornos, Chico? – o tom do Ricardo era provocador

            Encarei o tipo, irritado… aquele gajo era um perfeito anormal, meu… dasss… sempre a… nem sei, podia ser muito giro e parecia ter bom corpo, mas era um perfeito anormal e cada vez que abria a boca era para o provar… era azedo, negativo e muito desagradável, muito mesmo. O Chico já me tinha dito que ele o costumava gozar por ser um saloio da terra.

            - Não está nada! – respondi imediatamente… não estava a gostar mesmo nada dele e estava demasiado stressado com o andar da conversa para ter paciência para aquele tipo de coisas

            - Como é que podes saber? – o Ricardo olhou-me diretamente

            - Não posso. – respondi logo – mas sei que ele gosta do Chico porque isso vê-se quando estão os dois…

            - Parece-me que isso não quer dizer nada…

            - Talvez para algumas pessoas… há umas que merecem confiança e outras que não.

            Olhei de relance para o Duarte porque senti que me observava. Recostara-se na cadeira a ouvir, parecendo analisar-me. Sorriu-me e eu desviei logo o olhar… o tipo mexia mesmo comigo… e era ainda pior porque eu não conseguia perceber o que ele estava a pensar… seria algum tipo de interesse? Não sei bem… o que sei é que me olhava diretamente, atento, que me olhava intensamente e isso atrapalhava-me. É claro que tornei a corar, o tipo era deslumbrante.

            - Se tu o dizes…

            Cerrei os dentes para não abrir mais a boca.

            Bebes o café e basas, manténs o bico calado e não fazes merda que isto não é nada contigo…

            Olhei ansioso para o velhote que finalmente aparecia com o raio do café.

            - Parece-me que o Nuno já está farto de estar connosco. – lançou o Duarte assustando-me

            Olhei-o estupidificado… como é que ele adivinhara o que eu estava a pensar?

            - Porque é que dizes isso? – perguntei aturdido

            - Porque se eu estivesse no teu lugar já me tinha ido embora.

            Recomeçara a sorrir e eu sorri também… pelo menos ele compreendia-me. Achei-o muito simpático, mesmo não gostando quando ele franzia o sobrolho e era um bocado bruto… parecia a minha avó.

            - Como vai a tua escolinha, Nuno? – o Paulo decidira mudar de assunto, mas só fez com que eu me sobressaltasse outra vez.

            Olhei-o surpreendido com a pergunta… como diabo é que ele sabia da escola se só estivera com ele meia dúzia de vezes e nunca tínhamos falado no assunto? Tinha de ser o Chico… raios parta o homem que é um desbocado de primeira!

            - Vai bem. – respondi vagamente, sem saber bem o que mais dizer

            - Portas-te bem nas aulas?

            Foda-se… vou fazer 18 anos, meu, não sou um garoto!

            Estava toda a gente a olhar para mim. O Chico sorria, encolhendo-me os ombros como que para se desculpar, o Ricardo estava com aquele ar de estupor que tinha sempre, tipo… “ainda andas na escolinha?”. O Paulo parecia estar divertido com aquelas perguntas, devia gostar de me deixar atrapalhado. O Duarte… esse olhava-me concentrado, continuava a fixar-me com aquele olhar que parecia entrar-me no cérebro… senti o calor na cara a aumentar… quando é que eu iria deixar de corar?

            - Tenho os meus dias… – respondi ao Paulo depois de olhar o Duarte apenas por um segundo

            - Não acredito que te portes mal. – o Paulo sorria simpaticamente, mas tinha uma expressão provocadora – não parece nada teu…

            - Porquê? – exclamei indignado… de onde é que tu me conheces?

            - Não sei. – encolheu os ombros parecendo estar a gostar da minha reação – criei a imagem que eras um doce?

            - Um quê? – abri a boca de espanto e senti que estava franzir o sobrolho outra vez… eu nem queria acreditar naquilo, aquilo não estava a correr nada bem; nada bem mesmo…

            Estás muito enganado, oh abelha… e ainda estás mais enganado se pensas que vais comer o doce!!

            - Desculpa, não te quis ofender. – o Paulo levantou logo as mãos, num gesto de desculpas, mas o seu sorriso mostrou perfeitamente que não estava minimamente arrependido – o Chico comentou que eras um bocado assim…

            - Assim como? – perguntei bruscamente lançando novo olhar ‘matador’ ao meu amigo – o Chico comenta coisas demais!

            - Desculpa Nuno, calhou em conversa…

            - Não fiques chateado, Nuno! – o Paulo sorria – mas falámos de ti no outro dia e o Chico explicou-nos que foste o primeiro homem com ele teve… depois surgiu a conversa do teu namorado… do teu ex…

            - E?... – perguntei desafiador, não estava a gostar nada daquilo

            - E foi isso…

            - Traíste o teu namorado? – o Ricardo foi acutilante – então por isso é que sabias que o Álvaro era de confiança…

            - Não traí coisa nenhuma! – respondi-lhe consciente que estava a ser agressivo – foi ele que me traiu a mim! Andava com uma namorada na altura e eu fui à minha vida como faria qualquer outra pessoa… eu não traio, mas também não papo tudo o que me fazem e não sou do tipo de aguentar calado e dizer ‘sim senhor’ a tudo… quem me sustenta são os meus avós, não era ele, portanto…

            O Ricardo sentiu a estocada… eu sabia bem que vivia à conta do namorado… ia para abrir a boca mas o Duarte falou entretanto.

            - E qual é o problema de dizer ‘sim senhor’ a tudo?

            Olhei-o, desconcertado com a pergunta… vi-o perfeitamente sério, mas os seus olhos pareciam faróis em máximos fixos em mim.

            - Nenhum! – encolhi os ombros – eu digo ‘sim senhor’ a quem quero e se quiser… digo a quem merece…

            - Rebelde… gosto disso! – a sua resposta, novamente a sorrir, fez-me descontrair um bocado apesar de não estar bem certo daquilo ser um elogio

            - Eu gostava mais da ideia de seres um docinho… tipo bombom. – o Paulo abanou a cabeça parecendo desapontado

            Abri a boca, pasmado.

            Tipo bombom? Mas que porra?... eu nem queria acreditar naquilo

            Fiz um esforço, mas consegui controlar-me sem lhe responder torto.

            - Até sou… às vezes… – admiti um bocado despeitado – outras vezes tenho um recheio amargo.

            Soltaram todos uma gargalhada… até o Ricardo sorriu, o que me deixou ainda mais aborrecido… mas que merda era esta? Estavam a rir-se às minhas custas? Senti-me outra vez a ficar irritado… era isso, estavam todos a gozar comigo como faziam com o Chico.

            - Isso quer dizer que às vezes te portas mal… sabes o que acontece aos meninos que se portam mal?

            Olha-me este… quer música.

            - Sei. – fixei o Paulo com toda a confiança – essa informação circula no Facebook há muito tempo… os meninos bons vão para o céu, os maus vão para todo o lado.

            Nova gargalhada, mas agora gostei que se tivessem rido. Gostei em particular da expressão do Duarte, parecia estar divertido, os seus olhos brilhavam de satisfação e gostei da maneira como me olhou desta vez, tive a sensação que estava a gostar de mim… senti-me super bem…

Será que ele gosta de gajos?

            - Ah, mas não é só isso, Nuno… os meninos maus também acabam por levar umas palmadas! – o Paulo não parecia disposto a desistir de me provocar… já o tinha feito mais vezes, mas não tão ostensivamente como agora, devia estar a exibir-se para o amigo

            Eh lá… já te estás a esticar, meu… franzi o sobrolho… abranda lá um bocadinho, pode ser?

            - Há uma lei qualquer que proíbe isso, sabias? – disse-lhe com o ar sério de quem estava muito bem informado – bater nos filhos, nas mulheres e isso, agora é crime público ou uma coisa parecida. Aprendi isso na escolinha…

            Ele franziu o sobrolho por um momento perante a minha resposta… o Chico olhava-me de boca aberta e o Duarte tinha realmente os olhos a cintilar de gozo.

            - Não se for de mútuo acordo e com consentimento… até há quem goste, sabias? – o Paulo conseguiu recuperar o sorriso

            Dei um último golo no café antes de responder.

            - Que goste de levar palmadas? – fingi-me pensativo por um momento, sabia muito bem o que ele queria – Ah, tipo… quando as coisas estão animadas na cama? Sei… assim até eu gosto…

            O Chico escancarou os olhos e tanto o Paulo como o Duarte ergueram as sobrancelhas de surpresa… encolhi os ombros e foi a minha vez de sorrir.

            - Que foi? Tenho ar de menino de coro?

            - Não, Nuno, não tens! – o Duarte foi o primeiro a responder e foi categórico… adorei vê-lo a morder o lábio para não rir abertamente, ficava super sexy assim

            - Isso é mais que certo! – disse o Paulo – então tu gostas de levar umas palmadas a fazer sexo?

            - Talvez… – encolhi os ombros… se ele estava a pensar que eu lhe ia dizer o que gostava e o que não gostava, estava muito enganado

            - Mas eu não estou a falar dessas palmadas, estou a falar de um castigo a sério, quando se portam mal…

            Foi impossível evitar olhar para o Ricardo…

            - Eu não sou desses, se é isso que estás a pensar! – respondeu o outro bruscamente

            Encolhi os ombros outra vez, fazendo o meu melhor sorriso.

            - Eu não estou a pensar nada… não sei nada dessas coisas. – lancei com o ar mais inocente que consegui fazer – se calhar até és tu que perdes, não sei mesmo…

            O Ricardo cerrou os dentes, vi o Duarte atrás dele arquear as sobrancelhas outra vez, o Paulo fez justamente o oposto franzindo o sobrolho e o Chico, esse estava literalmente de boca aberta… parecia finalmente ter perdido a capacidade de falar.

            - Tens umas respostas, Nuno… quase que mereces! – disse o Duarte, fazendo-me engolir em seco com a maneira como me olhou

            - Eu? – fiz o meu ar mais inocente – já disse que não percebo nada disso.

            - Tens de arranjar um explicador!

            - Um explicador de palmadas? Isso existe? – ri nervoso – e porque é que eu havia de arranjar um desses?

            - Perguntas-me a mim porquê? – continuava a morder o lábio

            - Sei lá! Vocês é que parecem ser os especialistas nessas coisas… eu já disse que não sei nada do assunto!

            - Não? Como disseste que até gostavas…

            - Eu disse que gostava quando as coisas se animavam… pronto, na cama, só isso. – agora enfrentei-o diretamente… és muito giro e estás-me a dar a volta à cabeça, meu, mas vai lá com calma tu também

            - Portanto, gostas dumas palmadinhas de amor, não gostas de ser castigado. – o sorriso do Duarte tornou-se enigmático

            - Quem é que gosta? – encolhi os ombros

            - Até te surpreendias se eu te dissesse…

            - Tu gostas, é? – lancei imediatamente

            Ele soltou uma gargalhada. Tinha um riso muito agradável.

            - Não, Nuno, não gosto… e agora tu merecias mesmo…

            O tom de voz do Duarte era brincalhão e parecia ter uma espécie de sorriso nos lábios, mas não dava para entender bem a sua expressão.

            - O que é que eu fiz?

            O meu sorriso sumiu-se quando vi o seu desaparecer também. A sua expressão mudou completamente num segundo, o seu olhar tornou-se cortante fixo no meu e a sua voz endureceu.

            - Acho que estás a dar umas respostas demasiado duras e não estás a mostrar-te suficientemente grato pelo café que te ofereci!

            Recuei na cadeira, abismado, aquilo atingiu-me em cheio e o meu coração acabara de parar... fiquei sem fala por um momento…  foda-se, meu, porque é que estás a fazer isso?

            - Eu avisei que não tinha dinheiro… tu é que disseste que me querias oferecer o café, eu não te pedi nada! – defendi-me bruscamente, vendo que a minha reação o surpreendeu – isso é injusto!

            - Tens razão, Nuno! – ele retraiu-se imediatamente, tal como eu tinha feito – peço desculpa.

            - E lembro-me de ter agradecido, mas posso ir a casa buscar o dinheiro!

            - Eia, Nuno… estamos a brincar contigo! – o Paulo riu-se

            - Eu não gosto de certas brincadeiras! – disse-lhe azedo, antes de tornar a fixar o Duarte – eu não te pedi para me pagares o café, foste tu que mo ofereceste… – disse-lhe frontalmente

            Sei perfeitamente que fui agressivo com ele também, mas estava a ferver de nervos pelo que me tinha dito e também por perceber como ele era realmente bonito, mesmo irritando-me daquela maneira, eu continuava a acha-lo super atraente e a querer que ele gostasse de mim.

            - Eu já pedi desculpa, Nuno. – disse com a sua voz doce – não és capaz de me desculpar? – insistiu comigo, esperando a minha resposta… e como não a obteve, fez uma amostra de um sorriso – caramba que és um miúdo difícil!

            Percebi finalmente o que estava a acontecer, estavam mesmo a gozar comigo, a divertir-se às minhas custas… a gozar com os indígenas…

            - Não sou difícil, mas não gosto de ser gozado! – fui duro na resposta

            - Ninguém estava a gozar contigo, Nuno! Agora és tu que estás a ser injusto! – o seu tom mudou completamente outra vez… num segundo completamente envolvente, agora seco e cortante

- Não sei nada disso. – respondi calmamente – o que eu sei é que gostei muito de vos ver a todos, mas tenho de ir andando…

            - Oh Nuno… eles estavam a brincar! – exclamou o Chico

            - Claro que estavam. – respondi perfeitamente consciente do meu sorriso amarelo e sem me esforçar muito por disfarçar o que estava a pensar deles – são uns brincalhões… mas é que eu tenho umas coisas para fazer.

            Consegui olhar o Duarte e achei que ele não estava satisfeito comigo…

            - Eu estava a provocar-te, Nuno, não estava a gozar contigo…

            Falou calmamente salientando todas as palavras para ser perfeitamente claro. O seu olhar era impositivo, parecia exigir-me que acreditasse no que me dizia. Mas quem é que ele pensava que era?

            - Se calhar precisas de um explicador de provocação! – disse-lhe ainda abespinhado

            - Achas que sim? – os seus olhos relampearam de surpresa e depois tornaram a brilhar de gozo… ninguém lhe devia ter dito aquilo antes

            - Acho! – respondi categórico

            - Tens a certeza que não podes ficar mais um pouco? Bebe mais um café…

            Olhei-o como se ele fosse doido e vi surgir-lhe um sorriso… fogo… era um sorriso brincalhão… estonteante…

            - Tenho! – respondi ainda tentando mostrar-me decidido, mas tenho de confessar que vacilei – e tu tens a certeza que não queres o dinheiro do café?

            O seu sorriso desapareceu imediatamente e a voz gelou outra vez.

            - Tenho! – disse por seu lado voltando a olhar para a revista…

            Acenei com a cabeça, sem dizer mais nada, mas senti-me mal por ele ter deixado de me dar atenção… que coisa, meu, nunca tinha sentido aquilo.

            Que fossem para o Inferno, eu já tinha porcaria suficiente na minha vida para precisar de gajos assim e já tinha coisas suficientes para me chatearem, não precisava deles a picarem-me a cabeça para se divertirem às minhas custas… que se divertissem muito uns com os outros.

            - Vens ter com a gente à praia? – perguntou o Chico

            - Não! – respondi decidido – tenho coisas para fazer…

            - Devem ser muitas coisas. – lançou o Ricardo com o seu ar de gozo

            Burro… outra vez a mesma desculpa?

            - Sabes que há quem esteja de perna aberta e tenha as coisas a cair-lhe do céu, e há quem tenha de fazer pela vida! – respondi-lhe, novamente com o meu melhor sorriso… fiquei deliciado por ver o dele sumir-se

            O Duarte congelava-me o cérebro por ser lindo de morrer, o Paulo era simpático e agradável… agora este… um gajo que vive à conta…

            Novo momento de grande prazer quando, olhando o Duarte, o vi de boca aberta a olhar para mim. Esse momento foi quebrado quando vi o Paulo de sobrolho franzido, mas que se fornicassem os dois…

            Eu não sou um betinho da cidade, mas não se metam com os saloios… vejam lá se não se esquecem!... pensei absolutamente decidido

            - Vem lá à praia, Nuno… – foi o Chico que falou

            - Gostava muito que viesses, Nuno. – disse o Duarte surpreendendo-me completamente

            Engoli em seco. Perturbador… muito perturbador…

            - Se me despachar… e levo-te o dinheiro do café, até logo!

            - Nuno! – estanquei com o tom firme que usou para me chamar, quando o encarei os seus olhos brilhavam de uma forma que parecia que parecia que me estava a fuzilar – se me tentares pagar esse café… gostes ou não gostes, queiras ou não queiras, crime público ou não, vais levar um palmadão de que não te vais esquecer o resto da tua vida!

            - Ah preferes dar, é? – lancei tentando disfarçar o facto de estar com o coração aos saltos com a sua expressão

            - Ele é dos que gosta que lhe digam ‘sim senhor’. – provocou o Paulo

            - O que interessa é que entendas o que te disse! – o Duarte ignorou o comentário do amigo, de olhos fixos nos meus – o assunto do café está arrumado.

            Porra… que homem… por um momento pensei mandá-lo à merda, mas depois tive uma ideia e respondi-lhe no tom mais doce que consegui fazer…

            - Sim senhor! – respondi-lhe, deixando-o de olhos esbugalhados

            Virei-lhe as costas e afastei-me com as pernas a tremer, mas tinha um sorriso nos lábios provocado pela sua reação… estava armado aos cucos, estava mesmo para me provocar, mas eu também sabia jogar esse jogo e deixara-o de boca aberta. Saíra a ganhar daquilo, deixara-o desorientado. Bem feito! Saloios da aldeia 1- betinhos da cidade 0.

            A minha cabeça trabalhava a toda a velocidade. Quem seria ele? O que faria? Teria namorado? Ou melhor… seria gay? Isso devia ser, para estar naquele grupo… mas não tinha tiques nenhuns, podia não ser… há muita gente que tem amigos gays e não tem nada a ver com… mas se não era… era sim, era de certeza… teria namorado? Um tipo daqueles devia ter quem quisesse, era dos que bastava estalar os dedos para terem quem quisesse aos seus pés… contra mim falo que era um deles… foda-se que ele era mesmo giro… e além de lindo de morrer, era fino e sofisticado, era sério e confiante, um homem maduro… tinha era um feitio de merda, livra… que idade teria? 30 anos, talvez nem isso… e era podre de bom, mas podre de bom mesmo… era intimidante, pelo menos para mim, mas era o que eu gostava, era ao que eu estava habituado, há anos que era controlado pelo Pedro, intimidado e usado… e a verdade é que agora me sentia desorientado sozinho, por não ter quem me… controlasse?

            Tens a cabeça toda fodida, meu… pensei pedalando furiosamente

 

            Entrei em casa a ferver, mas a ferver mesmo… uma coisa era certa, aquilo conseguiu fazer com que me esquecesse do Pedro e da mulher… livra, porque é que a minha vida era um inferno, meu? Mas eu merecia uma coisa daquelas? Se calhar sim… fogo…

            Sentei-me à porta sem saber bem o que fazer. O que é que tinha acontecido? Aquilo fora estranho, constrangedor, mas fora intenso, lá isso fora.

            Perdi apenas um minuto a pensar no estupor do Ricardo, mas o Paulo… o que fora aquilo? Estava-se a atirar a mim ou quê? E com o namorado na mesma mesa? Não era possível, não fazia sentido nenhum… ou fazia? Não me admirava nada se ele quisesse outro gajo, o namorado dele era um trambolho insuportável… podia ser giro mas era uma besta irritante como eu não me lembrava de ter conhecido ninguém. E o Duarte? O que acontecera ao Duarte? O que é que lhe dera? O que lhe passara pela cabeça? Porra… ele começara tão bem, tão simpático comigo, parecia estar a gostar de mim e a… e depois dera-lhe uma macacoa… livra. Se calhar não estava à espera que lhe respondessem, deviam estar todos habituados ao Chico que ouvia e calava-se, que aguentava tudo… só podia ser isso, deviam estar habituados a gozar sem que lhe respondessem… que fossem para o inferno todos eles… e o Chico também por lhes ter falado sobre mim… aliás, tinha de ter uma conversa muito séria com ele a propósito disso, mas por alma de quem é que ele falava sobre mim aos amigos dele? Ainda por cima gajos que eu não conhecia de lado nenhum… ao Ricardo de quem eu nem gostava?

Dasss.

            Mas o que dera ao Duarte para se atirar a mim assim? Atirar-me à cara que me pagara o café? Que porra… já nem me lembrava como é que aquilo começara… mas estava a brincar? Quem é que brinca com uma pessoa atirando-lhe à cara aquilo que lhe pagou cinco minutos antes… será que era assim que ele brincava? A provocar as pessoas daquela maneira? Pago-te uma merda qualquer e depois passo a hora seguinte a enxovalhar-te e a envergonhar-te a cara… puta que o pariu! Podia ser lindo, isso era mesmo, mas preferia morrer à sede e à fome antes de o deixar voltar a pagar-me o que quer que fosse… isso era garantido.

            Fechei os olhos a lembrar-me do seu rosto. O cabrão era mesmo bonito. Mas nem era só o ser bonito ou ter um corpo de fazer crescer água na boca, era a sua pinta… o seu estilo contido, superior, o ser simpático e delicado, o ter aquele sorriso lindo que fazia uma pessoa derreter… que me fazia derreter. E os olhos que sorriam também, às vezes… ele falava tanto com os olhos como com a boca ou com o rosto, acho que até era mais expressivo com os olhos, a brilharem sorrindo, ora divertidos, ora brincalhões, ou então… sim, a chisparem de fúria, até metia medo. E a voz, doce às vezes e depois dura como aço, fria como gelo… porra… o gajo devia era ser tarado, tipo… esquizofrénico ou isso. Ninguém era assim e mudanças repentinas de humor são um traço de esquizofrenia, eu sabia porque tinha uma tia que era assim… até tomava medicamentos para isso e tudo… era um desperdício num homem daqueles ser assim.

            Sacudi a cabeça e resolvi ir jogar computador, pelo menos isso ia-me chupar o cérebro até à noite… a jogar computador não iria pensar em nada, nem no Pedro e a mulher, nem no Paulo e o estupor do namorado, nem no Chico e a sua língua-de-trapos… nem no Duarte… depois iria tomar um copo à noite, com um bocado de sorte ia arranjar um gajo normal que se interessasse por mim... normal e são da cabeça.
 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 1 (conto gay)


1 – Sábado, 8/6


 

            Era tão bom roçar-me na cama. Adorava abraçar-me à almofada e roçar-me duro. O Fábio na escola já tinha dito que isso era normal, que quando isso acontecia significava que já eramos homens, os homens faziam isso. Eu não percebera bem quando ele o dissera, mas experimentei e agora sabia… era tão bom. Era bom sentir-me duro contra os lençóis e eram umas cócegas boas, que arrepiavam e sabiam muito bem, mas o melhor era o choque elétrico que acontecia passado um bocado. O irmão do Fábio tinha-lhe dito que isso chamava-se ‘vir-se’. Eu deitava um líquido branco e o Fábio dizia que era normal, e também era normal ficarmos a tremer, cansados, como se tivéssemos estado a jogar à bola. Eu concordava com tudo o que o meu colega dizia… era muito bom sentir as cócegas enquanto me roçava e ainda era melhor o choque elétrico quando deitava o líquido branco… fiquei quieto a respirar depressa como se tivesse estado vinte minutos a correr. Fechei os olhos a sorrir… eu adorava mesmo aquilo.

            - Tu estiveste a fazer o que eu acho que estiveste?

            Senti-me a estremecer com o susto e abri os olhos, quase em pânico. O meu primo estava a olhar para mim com um sorriso de gozo. Senti um enorme calor na cara. Vi-o curvar-se sobre a cama e agarrar-me os lençóis.

            - Não, Pedro…

            Tentei agarrar a roupa, mas não fui a tempo, ele puxou tudo para trás, destapando-me. Instintivamente encolhi-me sobre mim próprio, tentando tapar-me, mas não deu para o fazer bem… estava sem as cuecas e ele viu tudo, percebeu bem o que tinha acontecido.

            - Vieste-te! – aquilo era uma afirmação, não uma pergunta

            Queria por as mãos na cara… não sabia porque estava com vergonha, mas queria fazê-lo. Claro que não podia porque tinha de me tapar… escondi a cara na almofada para não o ver e para ele não me ver a mim.

            - Vieste-te sim! – senti-o a rir e adivinhei que ele estava a olhar para a mancha molhada nos lençóis

            - Vai-te embora, Pedro! – gritei com a cara enterrada na almofada, senti-me a morrer de vergonha

            Estava a pressionar o meu corpo com toda a força contra a cama, mas isso só me valeu uma valente palmada no traseiro que estalou pelo quarto e me fez dar um pulo na cama.

            - Não sejas parvo… deixa-me ver! – riu-se quando continuei a resistir a que ele me tirasse as mãos da frente do sexo – então, Nuno? Para já com essa merda! – a sua voz tornou-se dura – deixa-me ver!

            Eu tentei mesmo resistir, mas ele abriu-me as pernas e ficou-me a olhar. Eu com 13 anos, ele com 21, não consegui evitar. Fechei os olhos com força, não queria que aquilo estivesse a acontecer, não queria que ele me tivesse apanhado. Que vergonha... mas os segundos passaram e o seu silêncio tornou a minha curiosidade mais forte do que a minha vergonha. Olhei-o. Esse movimento fez com que ele desviasse os olhos do meio das minhas pernas para a minha cara, mas depois de sorrir voltou a fixa-los no meu…

            - Já fazes isto há muito tempo?

            - Não. – murmurei sentindo a cara a ferver

            - Agora já és um homem, primito! – ele tornou a olhar-me a sorrir

            Adorei ouvir aquilo, a minha vergonha e o meu medo do que ele poderia dizer atenuou-se, parecia orgulhoso de mim… senti o meu corpo descontrair-se, foi um alívio enorme, pensei que fosse gozar-me.

            - Estou orgulhoso de ti. – sorriu-me

            Eu comecei a sorrir também, timidamente, mas parei quando ele passou o dedo na minha barriga molhada e depois o levou à sua boca, chupando-o.

            - O que é que estás a fazer? – perguntei-lhe abrindo os olhos de espanto

            Ele sorriu ainda mais.

            - Tens de limpar isto. – disse pegando na minhas cuecas e passando-as na parte molhada dos lençóis – ninguém pode saber, ouviste? Nem a avó!

            Acenava-lhe com a cabeça quando a cama desapareceu, senti-me a cair.

 

            Abri os olhos e dei comigo sentado a respirar rapidamente… tinha sido um sonho. Sonhara com o meu primo, com a primeira vez que me tocara.

            Sacudi a cabeça… o que é que eu iria fazer agora, sozinho?

            As cenas passaram-me pela cabeça rapidamente, umas atrás das outras. A forma como eu adorara que ele tivesse começado a interessar-se mais por mim depois de me apanhar a… dando-me uma atenção e tratando-me duma maneira como nunca fizera até então; como começara a querer estar mais comigo, quando até aí não tinha paciência nenhuma para mim e se aborrecia quando eu procurava a sua companhia; como começara a levar-me com ele para jogar à bola e para andar de mota; lembrei-me de como me dissera que tudo aquilo era normal, que ele também fazia o mesmo que eu… todos os homens faziam aquilo. O meu colega Fábio nunca disse que o irmão lhe tocava, mas o Pedro dizia que era normal, os homens mais velhos ensinavam os mais novos, só que nunca se contava a ninguém; disse-me que o irmão do Fábio o devia ensinar, mas que ele não dizia essa parte porque era proibido, como era proibido eu dizer que o meu primo me tocava para me ensinar a mim… e se ele me tocou…

            Primeiro começara a aparecer lá em casa mais vezes, principalmente quando eu ainda estava a dormir, acordava-me e pedia-me para fazer… para o fazer à sua frente. Ensinou-me a usar a mão e observava-me atento enquanto o fazia, era normal os mais velhos ensinarem os mais novos, toda a gente o fazia só que nunca se falava nisso a ninguém, era proibido. Mais tarde nos passeios mostrou-me ele como se fazia, começou a masturbar-se comigo. Quando acabávamos de jogar à bola ele levava-me a ver o mar e batíamos sempre uma antes de ir para casa. Era o nosso segredo e eu gostava de ter aquele segredo com o meu primo… comecei a gostar de fazer aquilo, se calhar sempre gostei. Ele era o meu primo mais velho, fazia-me sentir igual a ele, adulto como ele, tornara-se meu amigo e fazia-me sentir bem. Gostei muito da primeira vez que foi ele a bater-me uma para me mostrar, depois eu a ele para ver se o fazia bem… a seguir veio o sexo oral e depois…

            Agora acabara tudo, o Pedro casara-se e disse-me que não me queria mais, não daquela maneira. Agora tinha uma mulher, queria ser-lhe fiel, queria dedicar-se a ela e eu estava a mais… depois de quatro anos em que me fez tudo o que quis e ficava furioso comigo se eu lhe dissesse que não, em que não me deixava sair com ninguém e andava atrás de mim a controlar-me, em que me ameaçava se eu dissesse a alguém, em que me procurava para ter prazer… e para me dar… agora não me queria mais.

            Ele sempre tivera namoradas, ele podia fazer o que queria, eu é que não… foi um inferno, mas ele não cedeu, ele era o mais velho, era quem mandava, eu era o puto mais novo, fazia o que ele queria e pronto… sem discussão… eu ficava a ferver de fúria, ou ficava triste, mas ele acabava sempre por voltar para mim, sempre me quisera, sempre houve momentos em que saíamos só os dois, mesmo depois de eu já ter percebido bem que aquilo não era só para me ensinar o que quer que fosse… não sou propriamente estúpido e a história do ensinar-me só funcionou durante algum tempo. As notícias na televisão falam muitas vezes de familiares ou amigos próximos que abusam de menores, a certa altura deu para perceber bem, mas eu já não me importava, já não era abuso, muitas vezes já era eu que o procurava a ele, era eu que queria… com 14 anos, com 15, com 16… íamos para a praia, andar de bicicleta, íamos passear só os dois na Arrábida… era o nosso momento, ele dizia que era para podermos brincar os dois sem que ninguém visse e soubesse… mas o brincar era foder, e foder a sério.

            Ele sempre foi bom para mim quando eu fazia o que ele queria, era protetor, preocupava-se comigo, queria manter-me debaixo de olho para que não me acontecesse nada, dizia-me que eu era especial, que gostava muito de mim e que tinha muito orgulho em mim, mas também era bruto quando eu tentava relacionar-me com outras pessoas… ficava furioso, ele não gostava mesmo de me ver com alguém, quer fossem rapazes ou raparigas, eu era dele e nem me importava demasiado com isso, sentia-me especial, gostava dele, gostava de lhe tocar, que me tocasse e gostava de… gostava também que me desse atenção, que me fizesse sentir bem… e agora acabara tudo… agora ele casara e deixara-me sozinho.

 

            Levantei-me e vesti os boxers para ir à casa de banho. Sentia-me… na merda, nem sei explicar, sentia-me doente… tinham sido quatro anos, ele era tudo o que eu conhecia, era o centro do meu mundo.

            Tão ciumento, tão possessivo, bruto comigo quando me via a falar com raparigas, mais bruto ainda quando me via a falar com rapazes, ficava furioso se me apanhasse a ser simpático com alguém… e agora dissera-me que acabara… assim, sem mais nem menos, sem mais nada, ia casar e não me queria mais, o que nós tínhamos acabara… levou-me a casa depois da sua despedida de solteiro, usou-me outra vez, fez-me alivia-lo, e depois disse-me que era a despedida, que era a última vez… que acabara tudo entre nós. No sábado anterior, no seu casamento, quase que me ignorara e depois disso… depois disso eu ficara sozinho.

            Olhei-me no espelho e vi os meus olhos ainda inchados. Fechei-os e vi logo o Pedro a abotoar-se para se ir embora. Era o pensamento recorrente, todos os dias, durante toda a semana… ele não me queria mais e eu estava sozinho…

            - Tens 17 anos, puto… já sabes bem o que tens de fazer, arranjas miúdas com facilidade, elas gostam de ti que eu sei… e os rapazes também, se preferires. – fizera um sorriso de gozo e percebi que ele já entendera que eu… já percebera bem o que eu preferia. Detestara ouvir aquilo, odiara-o nesse momento, mas não lho conseguira dizer

            - Porque é que não me queres mais? O que é que eu fiz? – lembrei-me de sentir as lágrimas nos olhos quando dissera isto

            - Esquece, puto, já te ensinei tudo o que precisavas… se gostas de homens, já sabes bem dar prazer a um, agora é contigo.

            - Já não te dou?

 

            Abri os olhos outra vez. Abri a torneira e lavei a cara com água fria, tinha de recuperar para a minha avó não perceber… não queria que ela percebesse. O Pedro fizera-me ver que me usara, mas que me dera prazer nesse processo e eu tive realmente prazer a aprender com ele, tive mesmo. Ele ensinara-me em troca de alívio e eu aprendera e ganhara experiência… era a verdade e ele estava certo, eu sabia-o… mas custava muito…

            E agora? Foda-se… estava sozinho. Passara uma semana em que ele estivera no bem bom com a sua mulherzinha, a passear pelas dunas do Brasil de mãos dadas, nas praias paradisíacas a fazer amor, fechado no quarto do hotel a… e eu ficara por aqui sem ninguém, sem saber o que fazer, sem conseguir fazer grande coisa que não fosse chorar e pensar no que seria a minha vida a seguir. Mas acho que me começava a sentir melhor, pelo menos não o via, pelo menos ele estava longe em lua-de-mel e o ditado está certo nisso… longe dos olhos…

            Sentia-me aborrecido, tipo… à beira do suicídio… só pensava no Pedro e no que ele se devia ter divertido com a mulherzinha dele. Sentia-me a enlouquecer. Horrorizava-me a ideia de o imaginar dentro dela, de o imaginar a ter prazer com… mas ela é que era gira, inteligente, carinhosa, cheia de bom humor e muito divertida, enquanto eu… e ele gostava era de mulheres, por isso eu é que era descartável… ele nem hesitara, odiava-o por isso, odiava-o por me ter usado quando não tinha mais ninguém, por ter abusado de mim para ter prazer e agora… e odiava-o ainda mais por saber que se ele entrasse ali e me mandasse despir eu iria faze-lo, feliz da vida e com um enorme sorriso… grato por ele ter voltado e por me querer novamente.

 

            Estava sozinho em casa, como de costume, os meus avós saíam cedo para as fazendas e geralmente nem voltavam para almoçar. Por um segundo ainda pensei em ir ter com a minha tia, mas nunca mais o tinha feito desde que… não queria vê-la, não a queria ouvir a falar no filho querido… porque ele tinha ido de lua-de-mel para o Brasil, porque a mulher era um anjo, porque não sei quê… eu não queria pensar no Pedro. Senti as lágrimas nos olhos outra vez, mas cerrei os dentes e consegui reprimi-las. Já estava a ficar melhor, mas passara a noite a chorar outra vez quando soube que eles iam sair no dia seguinte… era hoje que apanhavam o avião…

            Isto já chegava, porra. O que é que eu podia fazer agora, para me manter ocupado? Podia estudar…

            Pois, o que mais apetece neste momento é estudar, até estou mesmo com cabeça para isso… pensei revirando os olhos.

            Acho que deve ter sido o primeiro sorriso depois de dias consecutivos na merda… se calhar já estava mesmo a recuperar… já era bem tempo!

Podia fazer o almoço para os meus avós, de certeza que a minha avó ia adorar e o meu avô delirava a ver o neto aplicar aquilo que aprendera na escola, comia sempre tudo e fazia imensos elogios, ele estava a adorar ver-me na escola outra vez, mesmo que fosse num centro de formação profissional a tirar um curso de cozinha e pastelaria.

            Mas claro que não me apetecia nada disso, não me apetecia nada mesmo… mas também não podia voltar para a cama, acabaria a pensar nele e o mais certo era acabar a chorar outra vez… e ele não o merecia, estava de regresso do Brasil, da lua-de-mel, feliz com a sua nova mulherzinha…

Puta que o pariu!

            Apeteceu-me dar um chuto na sanita, mas estava descalço… se calhar a dor até me fazia bem…

            Será que o Chico já está levantado?... perguntei-me

Ao entrar no quarto olhei para o despertador… 7h12, era muito pouco provável… que já estivesse levantado ou que se levantasse entretanto, tinha um namorado novo e pelo que me disse, eles costumavam deitar-se cedo mas adormecer muito tarde… o que fazer?

            Vou correr!

            A ideia ocorreu-me de repente. Era chique correr, agora era moda em todo o lado e já tinha chegado ao Meco. Era bem melhor que dar pontapés nas sanitas ou murros nas paredes. Podia ir a correr até à praia e voltar, só esperava aguentar… ia fazer-me bem.

            Vesti uns calções e uma t-shirt, calcei uns ténis e arranquei. Era isso mesmo, sabia bem sentir o fresco da manhã, o cheiro dos pinheiros, o cheiro do mar… e os sons… claro que não consegui deixar de pensar, mas consegui concentrar os meus pensamentos no único amigo que tinha. O único amigo que o Pedro me permitira ter.

            O Chico é meu amigo desde criança. Ele é de Alfarim, enquanto eu sou do Meco, um puto da aldeia como eu… mas apesar de não termos andado na mesma escola, andámos juntos no futebol e sempre fomos amigos. É mais velho um ano e tal, já vai fazer 20, enquanto eu ainda vou fazer 18, mas é um bocadinho lerdo e eu sempre gostei dele por isso. Além do mais, o que lhe falta de inteligência tem de sobra em bom feitio, é mesmo boa pessoa, é um bom tipo e eu gosto dele. Também é gay, descobrimos isso há algum tempo e a primeira vez que esteve com um gajo foi comigo, há dois anos, quando eu fiz 15 anos.

            O meu primo ficou furioso quando descobriu… furioso mesmo, mas eu não quis saber, nem ele tinha razão nenhuma, nessa altura arranjara uma namorada e não me ligava, não me dava atenção… que culpa é que eu tinha? Eu estava a precisar de… e as coisas com o Chico proporcionaram-se… não me arrependi um minuto. Foi a única circunstância em que o enfrentei, ele proibira-me de voltar a ver o meu amigo e eu não aceitei isso, não aceitei mesmo, foi a única vez em que lhe desobedeci e em que lhe continuei a desobedecer, continuei a gostar do Chico e continuámos a ir para a praia os dois. Não voltámos a… o meu primo não deixou, mas continuámos amigos e nunca abdiquei dele, o Chico é o Chico, sempre fora meu amigo e estava acima de ciúmes, mesmo do Pedro.

            Ele agora tinha um gajo, um tipo qualquer de Santana, mas antes disso teve casos com vários tipos, geralmente betinhos de Lisboa que gostam de alugar casa de fim de semana ali no Meco. A maioria dos seus casos foi com gays, mas sei que até teve mais de uma experiência com homens casados. Isso não era para mim, eu gosto de coisas sérias e duradouras, e acho que não aguentava saber que me ia embora e o gajo com quem eu tinha estado ia para casa, para a cama com a mulher… é engraçado pensar isto quando o meu homem de quatro anos acabou de casar e está a regressar da lua-de-mel.

            Seja como for, o Chico é amigo de muitos gays que têm casa ali no Meco. Mesmo estando a sair com o Álvaro de Santana, se eu saísse com eles podia vir a conhecer alguém. A maioria tem namorado, mas de vez em quando trazem amigos que estão sozinhos, nunca se sabe quem pode aparecer e o que pode acontecer. O Pedro nunca mais me toca, isso é uma certeza absoluta.

 

            Assim que entrei na zona do pinhal o piso tornou-se menos duro e o ar mais fresco, adorava aquele lugar. Veio-me logo a imagem do Pedro… nós por ali a apanhar pinhas para a lareira, a conversar, a fazer amor… bom, eu a fazer amor, ele a usar-me para ter prazer… para se aliviar… são coisas diferentes. Mas eu não me importo, a verdade é essa. Não me importo, nem me arrependo de nada, eu gostei de ser usado por ele e tive muito prazer nisso, adorava-o e só tenho pena de não me querer usar mais

            Wow… quem é este?

            Vi um tipo a correr na minha direção. Um tipo mais velho, devia ter a idade do Pedro, vinte e muitos, a caminho dos trinta… podia já ser um bocado cota, mas era giro, muito giro mesmo… e eu até gosto de cotas, o Pedro tem quase 30 anos, também já é cota. Senti os meus olhos a subirem e descerem por ele… dasss que ele era mesmo giro… e não só era bonito, como consegui ver as suas pernas grossas… e os músculos…

            Calções de um tecido qualquer que eu não conhecia mas que lhe ficavam a matar, t-shirt de um daqueles centros de ginástica finos de Lisboa… o sacana era podre de bom… ténis de marca e os fones nos ouvidos… devia ter um ipod ou ipad, ou uma merda dessas. Era lindo… senti calor na cara e cerrei os dentes, sabia bem que estava corar… foda-se

            Quis desviar os olhos dele, mas não consegui… ele foi-se aproximando e quanto mais se aproximava, mais giro era… geralmente acontecia o contrário… muito giros ao longe e depois quando se aproximavam era o pânico absoluto. Este não. Era tão lindo que até metia nojo. O meu coração disparou, a minha cara a ferver e o meu corpo a tremer de frio… isto não é normal, porra.

            O tipo olhou-me também e sorriu-me… que sorriso lindo… e não só me sorriu, como me piscou o olho. Era um cumprimento? Que porra era aquela? Eu olhei para trás, mas ele não fez o mesmo, continuava a correr calmamente, com grande estilo, confiante, como se fosse o dono do mundo… parecia flutuar de um pé para o outro, a um ritmo constante, leve, cheio de pinta. Tornei a olhar para a frente e… foi tarde demais, tropecei numa merda qualquer que estava no caminho e espalhei-me ao comprido… duplo foda-se.

            É engraçado as coisas que passam pela cabeça das pessoas quando acontecem cenas destas, a minha preocupação foi… levantar-me? Não, não foi nada disso, a minha primeira preocupação foi olhar para trás a ver se o gajo me vira a cair. Não, ele não olhara para trás uma única vez… cabrão.

Levantei-me desconsolado. Balanço da cena: joelhos vermelhos mas sem estarem esfolados, mãos esfoladas mas sem deitarem sangue… podia ter sido pior… recomecei a correr ainda a coxear um bocadinho, mas pouco depois retomei o ritmo e continuei normalmente até à falésia… estava vivo e de boa saúde, o cromo não me vira cair, nem ouvira nada por estar com a música nos ouvidos. Pelo menos poupara-me a uma humilhação.

 

            Sentei-me à beira da falésia a ver a praia aos meus pés e a imensidão do mar à minha frente. Adorava estar ali, aquele era um dos meus sítios favoritos.

            No início de Junho já havia mais pessoas a fazerem praia apesar do tempo ainda estar manhoso. Estava sol, mas uma constante aragem fresca. Lembrei-me do meu avô ter dito que era o ano mais frio dos últimos 200 anos, o bom tempo estava atrasado. Ele vira isso na televisão e estava preocupado com as terras e a produção. Se fosse mesmo assim, pelo menos o Chico ia ter mais trabalho… com o tempo mau os jardins deviam precisar de mais cuidados e portanto teria de trabalhar mais. Ele tirara o curso de jardinagem no mesmo centro de formação que eu e até fora ele que me convencera a ir tirar o meu curso; agora cuidava dos jardins das pessoas de Lisboa e não ganhava bem com isso, mas conseguia viver… também por isso conhecia todos os gays que ali tinham casa, era quase o jardineiro oficial da comunidade gay com casa de fim de semana no Meco. Ri-me com a ideia.

            Senti alguém a passar atrás de mim, pelo canto do olho vi um vulto. Era um tipo bem mais velho a passar. Já devia ter mais de 40 anos… eu até gosto de gajos mais velhos, mas não assim… ainda por cima gordo, virei-lhe as costas e fixei o mar.

            Se tens o azar de me dizer alguma coisa, meu… ai se me dizes alguma…

            Felizmente não o fez.

            Eu sabia bem que aquela zona era onde os gajos se engatavam no verão e sabia bem que indo para ali corria o risco de uma cena daquelas acontecer… tipo, meterem-se comigo; sabia isso porque o Pedro de vez em quando passava por lá e tinha-me dito… nunca soube o que ele ia fazer, nem nunca quis saber, mas dá para imaginar, não é? Sempre tivera ciúmes disso, sempre fora um problema esse comportamento dele, a mania que ele tinha de ter namoradas e ainda por cima passar por ali para encontros ocasionais com tipos… ele dizia que ia apenas ver o que lá se passava, mas… por favor… sempre me irritaram as pessoas que tentavam fazer-me de estúpido. E a injustiça também me irritava, exigia que eu não estivesse com mais ninguém, proibia-me de sair com quem quer que fosse… e depois fazia aquilo?

            Sacudi a cabeça para afastar aqueles pensamentos e voltei a olhar para trás, mas o outro já se tinha ido embora. Tinha desaparecido. Menos mal. Devia estar mesmo desesperado para andar ali já àquela hora. Se calhar tinha estado com o bonzão… seria possível? Não, não, isso não era possível…

Pelo canto do olho vi-o reaparecer a alguma distância e quando olhei abri a boca de espanto. Era só o que me faltava, meu… ele estava ao longe a olhar para mim e a bater uma. Era impossível descer mais baixo que isto, porra, ter um gajo daqueles a olhar para mim e a bater uma.

            Eu não acredito!!

            Levantei-me imediatamente e arranquei a correr de volta a casa. Ninguém merecia uma merda destas. Primeiro um gajo giro e podre de bom que me ignora… depois apanho um a… será que ele estava à espera que eu fosse ter com ele? Não era possível.

            Três vezes foda-se!

            Seja como for, ele tinha as mesmas hipóteses comigo que eu tinha com o corredor bonzão… seria gay ou não? Lindo como era, devia estar mais que casado e não ia olhar sequer para um gajo como eu. Era de um nível muito superior ao meu.

 

            Cheguei a casa com a telha à mesma, e cansado, e ainda por cima esfolado. Não valia a pena, quando se está em má onda, está-se em má onda e não há nada a fazer. Vi o telemóvel. Tinha uma mensagem do Chico.

            - Já? – ri para mim próprio – deves ter caído da cama!

            «Estás melhor?»

            «Sim. Não quero falar nisso»

            A minha resposta foi curta e grossa, não queria mesmo… já passara uma semana, tínhamos falado no fim de semana anterior quando eu estava completamente desorientado. Agora continuava doente com a ideia de não ter ninguém e era isso… não achava justo, não achava que merecesse ser largado assim, ser trocado quando sempre tinha feito tudo o que ele queria, quando nunca tinha dito que não a nada; ele usara-me como quisera, fizera o que lhe apetecera, satisfizera tudo o que… coisas que…

            Senti lágrimas nos olhos outra vez, mas tornei a conseguir conte-las, a nova mensagem do Chico distraiu-me.

            «Queres vir tomar café, estou no Vermelho»

            Dasss

            Que pancada que o gajo tinha com aquele café… era o café mais rasca de Alfarim… aliás, aquilo não era um café, era uma taberna, cheia de velhos e saloios a falar de bola… de bola não, do Benfica… aliás, o nome do café diz tudo, não é?

Eu não tenho nada contra o Benfica, nem pensar nisso, é o clube do meu avozinho que é doente por futebol, mas haja pachorra… tomar café a ouvir falar nas novas contratações e no árbitro que tinha roubado um penalti não é bem a minha onda. Eu só costumava lá ir quando saíamos dos treinos de futebol. Aquilo ficava ao pé da associação e era onde acabávamos por ir todos pois era onde encontrávamos os poucos adeptos do nosso clube… era das poucas vezes em que falavam de nós em vez de falarem do Benfica. Seja como for, já deixara de jogar há mais de um ano e deixara de aparecer...

            Mas se ficasse em casa ia acabar por ficar a matutar na merda da minha vida e provavelmente acabaria a chorar outra vez, por isso aceitei. Precisava mesmo de me distrair, já passara uma semana a chorar pelo Pedro… já chegava, mas é que já chegava mesmo. O meu amigo costumava estar bem disposto, dava para me divertir, gostava de o ver com o Álvaro, era agradável ver a sua cumplicidade e a maneira como se picavam um ao outro… tinha um bocado de inveja deles, mas isso logo passaria.

            Com um bocado de sorte estariam a conversar com alguém interessante e podia acontecer que esse alguém estivesse livre. Com um bocado de sorte era alguém que me daria um pouco de atenção e me faria sentir bem… pelo menos durante um bocado.

            Mesmo que não acontecesse nada disso e que passasse uma hora a ouvir falar do Benfica, naquele momento qualquer coisa era melhor do que o que me andava a passar pela cabeça e até as contratações do Benfica eram um assunto mais interessante do que o que me andava a ocupar a mente.

            Peguei na bicicleta e arranquei para lá. Demorei um bocadinho, mas não muito. Eu bem gostava de ter uma mota, mas não sou propriamente rico…

ver parte 2
 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013