segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 4 (conto gay)

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4 – Domingo, 9/6


            Assim que abri os olhos precisei apenas de um segundo para me lembrar da noite anterior… olhei para o despertador em pânico… 7h11… estava atrasadíssimo.

            Saltei da cama e corri para a casa de banho acenando ao meu avô que me olhou como se tivesse visto um fantasma. Ao fim de semana não me costumava levantar tão cedo. Duche a correr, escovar os dentes, passar a escova no cabelo e corri novamente para o quarto. Desta vez deparei também com a minha avó…

            - Vais esperar o Pedro? A tua tia só sai daqui às oito e meia…

            - Quem? – juro que a minha cabeça estava longe dali, por um momento emburreci – oh não, ‘vó! Vou correr. – dei-lhe um beijo e contornei-a, a rir por a ter deixado de boca aberta…

            - Vais onde? – ela seguiu-me para o quarto

            - Vou correr com um amigo do Chico que está aqui a passar o fim de semana e combinámos às sete e meia por isso estou atrasado… queres ver-me nu?

            - Correr! – bufou virando as costas e saindo a barafustar – era só o que faltava agora, tu dares em corredor… ouviste isto, Henrique? O teu neto vai correr…

            Vesti-me a rir e saí de casa… sempre a correr… nada nas mãos a não ser 1.20€ para os cafés.

 

            Ele já lá estava, sentado na esplanada à minha espera. Deslumbrante, mas isso não é novidade. Os mesmos calções, mas uma t-shirt lavada, tal como eu. E adorei a forma como me olhou, adorei mesmo; os seus olhos subiram e desceram por mim enquanto me aproximava pondo-me a cara a ferver. Acenei-lhe timidamente, um bocado desconcertado com a sua expressão atenta a mirar-me.

            - Olá… chegaste há muito tempo?

            - Bom dia, Nuno! – ele sorriu-me também, aquele sorriso que quase me tirava a capacidade de pensar – cheguei há uns minutos… dormiste bem?

            - Muito… já tomaste café? – perguntei não vendo nenhuma chávena

            - Não trouxe dinheiro! – ergueu as mãos e adorei ver a sua face tomar uma expressão provocadora, pareceu um garoto, ainda não tinha visto aquela cara – prometeste que mo pagavas. – acrescentou

            - E cumpro… espera… – levantei-me satisfeito e fui pedir os cafés ao Sr. Roberto

            De regresso novamente o seu olhar de análise, fixado principalmente nas minhas pernas.

            - Não fazes depilação? – comentou – gosto disso.

            - A sério? – olhei para as dele, grossas, másculas e sem um único pelo visível – mas tu fazes.

            - Gosto de pelos nos outros, não em mim. – disse encostando-se na cadeira a observar-me – gosto das tuas pernas…

            Estremeci de prazer e corei outra vez, mas consegui sorrir-lhe tentando disfarçar que estava atrapalhado. Ele estava-se a atirar a mim? Ou aquilo era um comentário inconsequente?

            - Costumas correr todos os dias? – perguntei sem saber bem o que dizer, sentia-me intimidado por ele e pela forma como me olhava… dali a pouco estava a falar do tempo… que nunca mais vinha o calor e não sei quê…

            - Todos os dias! – confirmou fixando os olhos nos meus – geralmente na passadeira, mas quando tenho hipótese gosto de correr ao ar livre… e tu?

            - Eu só corro quando estou com a neura.

            - Não é o caso de hoje, pois não? – fingiu-se desconfiado

            - Não. – ri estendendo as moedas ao homem que pousava os cafés à nossa frente – aqui tem, Sr. Roberto, obrigado!

            - Já vais para a praia, Nuno?

            - Acha? – ri-me – é muito cedo, vamos correr.

            O homem olhou-nos como se fossemos doidos, mas não disse mais nada senão um ‘fazem muito bem’.

            - Não ficou muito impressionado. – comentou o Duarte com um sorriso cúmplice, piscando-me o olho

            - Não! – ri-me outra vez gostando da sua expressão – fez a mesma cara da minha avó quando lhe disse.

            - Tens um sorriso muito bonito, Nuno… ilumina-te o rosto!

            Estremeci desconcentrado e sentindo-me logo a ficar vermelho, não estava à espera daquela mudança brusca de assunto.

            - Oh… obrigado! – balbuciei assarapantado

            - Não reages muito bem a elogios, pois não? – perguntou intrigado

            - Não estou muito habituado. – confessei sentindo a cara a ferver… era verdade

            - Estranho. – pareceu surpreendido – nem o teu ex? Pensei que…

            - Não, nem ele! – abanei a cabeça – ele menos que toda a gente…

            - A sério? – o espanto agora era flagrante – porquê, posso saber? Tu sabes?

            - Não sei bem, não era o estilo dele…

            - Mas nem um carinho, um miminho?

            - Às vezes, mas não muito… ele não é gay… quer dizer, não sei bem, ele diz que não é… e casou… era tudo às escondidas e… pronto, um bocado à pressa.

            Senti-me atrapalhado, não estava à espera daquelas perguntas.

            - Compreendo. – disse pensativo – é estranho…

            - É um bocado… – encolhi os ombros

            - Por um lado é estranho que ele fosse assim contigo, que não te fizesse mimos, não acho natural gostar de alguém e não lhos querer fazer… ainda a mais a ti que… – vi o seu maxilar pulsar na sua cara por uns momentos, estava a cerrar os dentes consecutivamente – mas também acho estranho que tu te tenhas apaixonado por um homem assim!

            - Assim como?

            - Frio!

            O seu olhar estava a sugar-me o cérebro… porra, estava mesmo e eu quase que o sentia… juro que nunca tinha visto uns olhos fazerem aquilo, pelo menos a mim não… ele ainda era pior que a minha avó.

            - Ele não era sempre assim…

            - Claro que não, de certeza que tinha momentos em que compensava, toda a gente os tem, por muito má que seja…

            - Tinha. – sorri, sentindo-me um bocado constrangido por ter a certeza que ele percebia muito bem que me perturbava, que me intimidava, que me estava a deixar doido

            - Mas surpreende-me que, parecendo tão rebelde, tu permitisses uma coisa dessas… – ele sorriu também, mudando de assunto, tentando desanuviar o ambiente

            - Eu não sou rebelde.

            - Não? Tens a certeza?

            Ele estava a brincar com a chávena do café e olhou-me de lado, sem me encarar frontalmente… oh, meu… tinha um sorriso provocador, que era super sensual… fiquei sem saber o que dizer uns segundos, até não aguentar e ter de olhar para a minha própria chávena.

            - Tenho! – disse baixinho tentando parecer mais confiante do que me sentia… aquele tipo perturbava-me e por incrível que parecesse, eu não queria estar em mais lado nenhum

            - Eu ainda não consegui decidir… mas não acredito que suportasses ser maltratado, por isso imagino que ele não te tratasse mal…

            - Não… desde que eu fizesse o que ele queria. – encolhi os ombros

            - Como assim? – vi-o arquear as sobrancelhas surpreendido

            - É um bocado mandão… também não gosta muito que lhe digam que não…

            - Também? – a sua expressão desaparecera, não se via nada, não se percebia o que estava a pensar, só os seus olhos é que brilhavam de uma maneira que pareciam estar a perfurar-me a cabeça

            - Como a minha amiga Elsa ontem… – disfarcei, mas depois enchi-me de coragem e completei o raciocínio – e tu também disseste que não gostavas que te dissessem que não!

            Comprimiu os lábios numa espécie de sorriso.

            - Não gosto muito, é verdade… mas de que amiga estás a falar? Da que andou contigo ao colo, ou da outra?

            - Da Elsa, a outra é uma namorada recente, ainda não a conheço bem!

            - A que disse que estavas cada vez mais giro…

            - Sim… conhece-me há muitos anos, viveu com uma outra namorada numa casa que os meus avós alugam e eu gostava de ir ter com elas porque a Elsa tinha muita paciência para mim… e pagava-me gelados…

            - Ah, claro… com ela não tens problema que te pague coisas…

            - Não. – ri-me sem dizer mais nada… ainda pensei mandar a boca que ela nunca me tinha atirado à cara os gelados que me pagava, mas achei melhor não o fazer

            - Compreendo… vou ter de me concentrar para ver se consigo chegar a esse nível… queres ir andando, é?

            Ele vira-me a olhar para o seu relógio. Eram oito horas e dali a pouco os meus tios deviam sair para ir buscar o meu primo ao aeroporto… eu não queria estar ali quando isso acontecesse.

- Sim, vamos.

            Ele levantou-se imediatamente. Apontou para a chávena…

            - Obrigado pelo café, Nuno!

            Sorri-lhe atrapalhado, mas fiquei satisfeito com o que disse… com as suas palavras e com o seu olhar.

 

            Caiu-me tudo quando vi o meu tio em frente de casa a fumar um cigarro. Já? Eu já devia ter imaginado que eles já estavam em polvorosa bem antes das oito e meia… já estava o carro à porta, já estava tudo pronto para irem para o aeroporto. Ele estava à espera que a minha tia se despachasse. Bem o vi olhar-me de boca aberta.

            - Bom dia, tio! – cumprimentei de dentes cerrados quando passámos, consegui olhá-lo mas foi com grande esforço e sentindo a cara a ferver… era aquilo que eu devia ter evitado

            Pus-me logo a imaginar os comentários… deviam ir a viagem toda até Lisboa a debater o sobrinho a correr com um homem desconhecido… mas que porra. E depois se calhar ainda comentavam com o Pedro… mas não, deviam ter outras coisas de que falar para além de mim.

            - Estás bem, Nuno?

            Assustei-me.

            - Sim. – respondi esforçando-me para sorrir normalmente

            - Não pareces nada… que foi? Não querias que o teu tio nos visse?

            - Não. – confessei muito francamente

            - Tiveste vergonha de ser visto comigo? – a sua expressão era de surpresa

            - Não. – respondi percebendo bem que não estava a conseguir ser muito convincente – ele daqui a pouco já nem se lembra… vão buscar o meu primo ao aeroporto…

            - Ah sim, foi de férias?

            - Chega hoje de lua-de-mel.

            - Que bom! – fez-se silêncio um minuto – como o teu ex?

            Senti-me a corar imediatamente, mas a corar mesmo… porra, ele ia perceber, de certeza que ia… cerrei os dentes com mais força e fechei os olhos por um segundo quando ele parou de repente… foda-se!

            Quando parei também e olhei para trás ele estava de sobrancelhas arqueadas em absoluto assombro.

            - O teu primo e o teu ex são a mesma pessoa, ou é coincidência?

            - Não quero falar nisso! – disse sem o conseguir encarar – por favor…

            Fez-se um silêncio que me obrigou a olha-lo outra vez… só nessa altura tornou a falar…

            - Muito bem… respeito isso. – recomeçou a correr e eu segui-o ao mesmo passo – isso quer dizer que vais ter uma manhã ocupada na receção do casal feliz… ou pelo contrário queres desaparecer dali e ir para a praia connosco?

            - Nem sei bem… ainda não tinha pensado nisso. – confessei com o coração a bater rapidamente

            - Não tens problema em vir para a praia connosco ou tens?

            - Não… mais ou menos… eu não gosto do Ricardo.

            - Claro que não, isso percebi logo ontem! – riu-se – ninguém gosta muito do Ricardo!

            - É um bocado parvo!

            - O Paulo gosta dele e é quem tem de gostar… os amigos são forçados a fazer um esforço e tentar tolerá-lo…

            - Pois, mas eu não sou amigo do Paulo… conheço-o por causa do Chico, mais nada…

            - Ah sim? Eu pensei que… como ele fala sempre muito bem de ti e pela maneira como se mete contigo, pensei que fossem mais… próximos!

            Olhei-o percebendo a sua hesitação, mas ele manteve-se concentrado no caminho e não retribuiu o olhar. Estaria a pensar que nós?

            - O Chico é que foi para a cama com ele, eu conheci-o depois disso e agora que… pronto, que estou sozinho, ele tem um namorado e eu não me meto no meio de gente comprometida…

            Foi impossível perceber a sua expressão, mas ele falou naturalmente.

            - Muito bem, concordo com isso… – começou, mas calou-se estancando de boca aberta quando chegámos à beira da falésia e ficámos com a praia e o mar à nossa frente – oh, caramba!

            Eu tinha feito de propósito, controlando a volta para que aquela vista surgisse de repente e de forma inesperada. Teve o impacto que eu queria e ele ficou a olha-la durante uns segundos, siderado… a praia aos nossos pés, a imensidão do mar à nossa frente…

            - Gostas? – sorri deliciado

            - Muito! – respondeu imediatamente

            - É um dos sítios para onde venho pensar… quando corro depois fico sempre aqui um bocado. – expliquei sentando-me na minha rocha

            - Um bom sítio para meditar, realmente. – ele sentou-se ao meu lado a olhar o mar – é o teu sítio secreto?

            Encolhi os ombros a rir.

            - Mais ou menos… eu gosto de vir para aqui para estar sozinho…

            - Mas trouxeste-me cá! – os seus olhos brilhavam de prazer

            - Já que íamos passar aqui perto… quis mostrar-te…

            Ele virou-se para mim, observando-me atentamente. Senti-me a corar outra vez.

            - Sabes, Nuno, tu não és nada daquilo que eu estava à espera…

            - Não? – tentei perceber se era melhor ou pior, mas o seu rosto não me mostrava nada… odiava que ele fizesse aquilo

            - És confuso… às vezes és provocador, rebelde e respondes muito duro, mas outras pareces realmente o doce que o Paulo diz que és…

            Sorri.

            - Sou agridoce, como a sopa do chinês!

            Ele riu-se.

            - Se calhar é isso, mas confundes-me…

            - Eu? – tive vontade de rir também

            - Sim, tu… por um lado ouvi o Paulo e o teu amigo Chico comentarem que eras um doce, muito simpático e agradável… até um bocado submisso para com o teu ex, fazendo tudo o que ele queria… tu próprio confirmaste isso agora… mas por outro lado, quando chegaste ao pé de nós disparaste farpas em todas as direções…

            - Não me estavam a provocar? – defendi-me

            - Estávamos. – mordeu o lábio para não se rir… adorava que ele fizesse isso, ficava super sexy – portanto pensei que eras mesmo um doce com o recheio amargo, rebelde e provocador… mas depois foste aos arames quando aumentei a parada e não te aguentaste… vi muito bem que ficaste chateado e magoado comigo.

            - Não foi justo! – franzi o sobrolho

            - Eu sei que não, mas não estava à espera de fazer tanta mossa…

            - Ah não?

            - Não… estava à espera que te aguentasses…

            - Fogo… atirares-me à cara que me pagaste um café? Eu não sou como o Ricardo, se é isso que estavas a pensar… se não tenho dinheiro não bebo, temos pena, mas não estou à espera que me paguem…

            - Eu percebi isso tarde demais… mas já resolvemos isso, não já? – ele fixou-me com a cabeça de lado, atento, inquiridor

            - Já. – acabei por responder quase sem hesitar… claro que já tínhamos resolvido aquilo, eu estava apanhadinho por ele…

            - Ótimo! – sorriu novamente – eu gosto das coisas assim…

            A minha cabeça só pensava numa coisa… ele estaria mesmo interessado em mim?

            - Eu não sei mesmo o que hei de pensar sobre ti… por um lado és um doce, mas nem por isso e eu já provei o teu recheio amargo, mas por outro também não és exatamente um rebelde durão como eu pensei inicialmente, porque te magoei quando fui mais duro contigo… e à noite a tua amiga tomou conta de ti e tu parecias um cordeirinho atrás dela…

            - Não conheces a Elsa! – voltei a sorrir – não é do tipo a quem se possa dizer que não…

            - Percebi isso e agora disseste o mesmo do teu ex… que te tratava bem desde que fizesses o que ele queria… isso não é exatamente a postura de um miúdo rebelde e independente, pois não? Se fosses realmente rebelde não te interessavas por um gajo que mal te tocava e que era frio contigo…

            - Não… eu sei… mas também nunca disse que era rebelde, pois não?

            - Não, pelo contrário… mas tens momentos de rebeldia que eu bem os vi, tal como também vi a tua expressão ontem quando a tua amiga estava a falar contigo de dedo espetado na tua cara.

            - Quando ela está assim é melhor fazer o que ela quer. – sorri

            - Portanto és um rapaz de contrastes, não és? Por um lado és forte, rebelde, provocador… por outro és doce, pareces frágil e até tens momentos em que podes ser considerado um bocado submisso.

            - Submisso? – outra vez aquela palavra… eu já a tinha ouvido, mas não sabia bem… – o que é que isso quer dizer?

            Os seus olhos relampearam, eu vi-o bem…

            - Submisso é alguém que se submete à vontade de outra pessoa… faz o que lhe mandam e esforça-se por agradar… enfim, que é um doce…

            Pensando bem no assunto, eu talvez fosse um bocado assim, era verdade…

            - Depende das pessoas, não é? – olhei-o, mas não consegui aguentar, os seus olhos estavam atentos à minha reação e estavam a querer sugar-me os pensamentos – a minha avó sempre foi um bocado assim… depois a Elsa também, mas duma maneira diferente, era brincalhona e sei que gosta muito de mim, mas saltava-lhe logo a tampa se eu me esticasse mais um bocado… e o Pedro também é assim… não gostava que eu fizesse certas coisa e passava-se logo comigo…

            Ele estava a sorrir com a minha atrapalhação… desta vez não achei muita piada.

            - Foste habituado a andar em pezinhos de lã, como se diz, não é?

            Ele sorria simpaticamente e eu acabei por me rir com a sua expressão. Ele conseguia acalmar-me com o seu olhar.

            - É um bocado, sim… eu queria que gostassem de mim e habituei-me a ter cuidado… acontece com toda a gente, não é?

            - Suponho que sim… mas falas sempre dos teus avós… e os teus pais?

            Há muito tempo que isto não me acontecia… e tanto tempo depois continuava a engolir em seco, mesmo não sentindo realmente a sua falta.

            - Já não existem. – respondi baixinho, fixando os olhos no oceano

            - Oh Nuno, desculpa! – consegui encará-lo e percebi bem que ele estava tão constrangido como eu – sinto muito, não fazia ideia…

            Encolhi os ombros tentando parecer indiferente, mas sabia que era impossível, tive perfeita consciência que o meu sorriso saiu amarelo. Era sempre assim.

            - Nunca os conheci, por isso não sinto muito a falta, não é? – olhava o mar e arrepiei-me todo quando senti a sua mão na minha nuca… o meu corpo reagiu imediatamente e a minha cabeça inclinou-se sobre o seu braço em busca da carícia, ou do apoio, não sei bem, mas aconteceu antes de eu ter percebido que o estava a fazer

            - Desculpa ter trazido esse assunto à conversa, não fazia ideia… estás bem?

            - Sim. – olhei-o e ele sorria-me… aquele sorriso que lhe iluminava os olhos de uma forma que os tornava doces

            - Sabes que eu gosto deste Nuno? – fez-me uma carícia no queixo – e até o prefiro ao Nuno de ontem…

            - Não me provoquem! – resmunguei esforçando-me por parecer mais forte do que me sentia… senti que ele percebera bem, mas não disse nada nesse sentido

            - Mas eu gosto de te provocar… eu também gosto de ver o Nuno feroz e gosto de correr o risco de sentir o recheio amargo.

            - Tu é que sabes. – ri-me outra vez dscontraindo um pouco… nunca me tinham dito nada assim… dois Nunos, onde é que já se ouviu isso?

            - Mas agora que somos amigos… se eu te voltar a magoar diz-me e acredita que, se peço desculpa é porque sinto vontade disso, não quero que fiques zangado comigo.

            - Está bem.

            - Agora tinha sido uma boa altura para dizer ‘sim senhor’… gostei quando o disseste ontem de manhã.

            - Sim senhor! – disse-lhe com o meu melhor sorriso

            Ele ficou a olhar-me por um momento e aquela expressão na sua cara era nova, parecia encantado e os seus olhos brilhavam intensamente.

            - Gostei que o dissesses assim, Nuno, obrigado…

            O meu sorriso aumentou… és tão lindo, meu… digo o que quiseres…

            - Gostas mesmo que te digam isso, não gostas? – perguntei curioso – que te digam ‘sim senhor’?

            - É verdade. – admitiu apesar da sua expressão facial não demonstrar o que estava a pensar – achas estranho?

            - Não sei bem…

            - E gostei da maneira como o disseste… quero fazer uma coisa, Nuno, fecha os olhos. – curvou-se na minha direção, apoiando os cotovelos nos joelhos – fecha-os!

            Eu fiz o que ele pediu e o meu coração disparou na expetativa do que iria acontecer… senti-o aproximar-se e senti o seu hálito na minha cara, senti os seus lábios nos meus por um segundo e senti a pressão no meu lábio inferior, puxando-o quando se tornou a afastar… eu fiquei suspenso no momento, sem respirar, até automaticamente passar a língua para sentir melhor o seu sabor.

            Wow, meu…

            Abri os olhos e encontrei os dele. Pareciam o farol do Cabo Espichel.

            - Porque é que fizeste isso? – senti a voz falhar-me

            - Porque me apeteceu muito…

            - Porque é que me pediste para fechar os olhos?

            - Porque não queria que visses, queria só que sentisses… e não queria correr o risco de me recusares…

            - Achas que eu fazia isso?

            - Não sei… fazias?

            Foi impossível aguentar aqueles olhos, mesmo de dia quase que me cegavam…

            - Não. – respondi baixinho

            - Ainda bem que não… sabes que não consigo formar uma opinião sobre ti?

            - Sou misterioso! – gozei

            O seu sorriso tornou-se trocista por um momento.

            - Não nesse sentido, mas a verdade é que penso que sei como vais reagir e tu não fazes nada do que eu estava à espera… surpreendes-me.

            Encolhi os ombros em saber o que dizer… aquilo era bom ou mau?

            - Vamos para cima? – perguntou-me, erguendo-se com um sorriso nos lábios

            Fiquei vidrado por um segundo nas suas pernas, vendo os músculos fletirem-se quando ele se levantou, mas segui-o logo, levantando-me também e correndo lentamente ao seu lado de regresso à civilização. Eu não sabia bem o que pensar daquilo tudo, principalmente do beijo, mas conseguia pensar muito bem numa coisa muito simples, por mim tinha ficado a manhã toda ali no pinhal só com ele, por mim ele podia ter feito bem mais do que dar-me um beijinho mínimo… que soube bem, mas soube a pouco… soube a muito pouco.

 

            Fizemos o caminho de regresso em silêncio. Não sei bem porquê, mas ele devia estar a pensar e eu achei melhor não dizer nada, até porque a minha cabeça começou a vaguear também. Ele beijara-me. Podia não ser nada, mal se podia considerar um beijo, mas era sim, era um beijo carinhoso… nada de extraordinário, nada de muito excitante, não fiquei a ferver, mas fora um beijo e eu adorara que o tivesse feito, que mo tivesse dado. E depois a sua conversa. Tinha dito que gostava mais de mim assim… submisso… tinha de ir ao Google ver o que é que aquilo queria mesmo dizer… um tipo que se submete à vontade do outro? Eu à vontade dele? Porra, onde é que assino? Fizera isso toda a minha vida, com a minha avó, com o Pedro, porque é que não havia de o fazer com um gajo daqueles, deslumbrante e podre de bom?

            Descontrolei-me e a minha mente concentrou-se na imagem das suas pernas a correr à minha frente, grossas, bronzeadas, rapadas… o Pedro tinha muitos pelos… eu até gosto, mas também gosto assim… e os músculos duros quando ele fez força para se levantar, viram-se todos… porra, adorava ter-lhes tocado… o que eu não dava só para ter passado a mão…

            Sacudi a cabeça… orienta-te, meu… já estás a alucinar.

            - Foda-se! – exclamei sem me conter e sem conseguir pensar no que quer que fosse senão na visão do carro do meu tio a aparecer…

Que pontaria, meu!

            - Que foi? – perguntou logo o Duarte surpreendido, mas depois também reconheceu o carro – ah, já entendi…

            Nós parámos à frente da porta de minha casa quando o carro parou do outro lado da rua. Grande azar, meu… dasss!

            - Tens de ir cumprimentar não é?

            Eu estava de costas e a sentir-me muito mal…

            - Não sei… eu não quero! – sentia-me aflito

            - Oh Nuno, parece mal o teu primo chegar de lua-de-mel e tu não ires dizer olá quando estás do outro lado da rua, não achas?

            - Acho. – respondi desanimado – mas eu não quero vê-lo!

            - Tem de ser, não é? – sorriu-me docemente – não tem mau ar…

            - Eu sei.

            - O que é que sentes por ele?

            Encarei-o surpreendido, aquilo fora inesperado… mas já estava a fazer-me perguntas daquelas? Eu sentia-me bem com ele e até estava consciente que estávamos a ter uma relação fixe, mas…

            - Não sei…acho que nada… ódio, acho eu…

            - Sabes que o ódio e o amor são sentimentos bastante próximos…

            Bufei… não estava com pachorra para aquelas lições.

            - Eu no teu lugar ia lá já… cumprimentava e dizia que tinha de ir tomar duche… é melhor do que teres de ir mais tarde e teres de demorar mais tempo a fazer sala, não achas?

            - Acho. – acenei com a cabeça, agradecido – é uma boa ideia… vou agora!

            Ele estendeu-me a mão a sorrir.

            - Até logo, Nuno… obrigado pela corrida e pelo café… espero ver-te mais tarde.

            Virou-me as costas e afastou-se rapidamente sem olhar uma única vez para trás. Fui eu que fiquei a olhá-lo por um minuto, enquanto ele entrava no café… aquele homem era super sexy.

            Fechei os olhos por um momento, inspirei fundo e atravessei a rua.

            - Venho só dizer olá… fizeram boa viagem?

            Apresentei-me com o meu melhor sorriso…

            - Nuno! – a mulher dele veio ter comigo de braços abertos

            - Estou todo transpirado, Sílvia! – preveni – estive a correr…

            - Só dois beijinhos, então…

            Apertei a mão ao Pedro sem o encarar, mas senti o seu olhar atento.

            - Quem é aquele? – perguntou-me logo

            - É um amigo meu. – respondi sem mais nada – fomos correr…

            - Ah agora corres?

            - Sim…

            - Trouxemos-te um presente do Brasil! – a Sílvia agarrou-me na mão a sorrir – mas era tudo muito caro, é só uma lembrança…

            - Não era preciso…

            - Era sim… tu agora és o meu primo e não tenho mais nenhum, és só tu, foi das melhores prendas, digo-te já…

            - Obrigado! Divertiram-se muito? – sorri-lhe… ela nem era má… se não fosse pelo que aconteceu, eu até era capaz de gostar dela

            - Muito… foi maravilhoso, nunca tinha ido assim para o estrangeiro…

            Os meus avós entretanto apareceram também para cumprimentar o neto e a sua nova mulher. Eu aproveitei para me desculpar com o duche e ir-me embora. O Duarte tinha razão, assim foi muito melhor… muito mais rápido e muito mais eficiente, tinha feito o que tinha de fazer sem parecer que estava chateado ou qualquer coisa do género e já estava livre, agora podia fugir deles sem dar nas vistas.

            É claro que foi perturbador, foi mesmo. Foi perturbador vê-lo bronzeado, bem disposto; foi perturbador ver a maneira como ele olhava a mulher, como lhe pôs o braço pelos ombros descontraidamente, num gesto de intimidade; e foi perturbador ver a sua expressão quando me perguntou quem era o Duarte, a maneira como olhou na direção dele quando estava a desaparecer dentro do café do Sr. Roberto. Perturbou-me sim, perturbou-me tudo e quando entrei no duche sentia-me triste, sentia-me estranho… que olhar tinha sido aquele? De certeza que ele não estava à espera que eu ficasse a chorar pelos cantos o resto da vida, de certeza que tinha pensado que eu ia começar a sair sozinho e que ia acabar por haver outras pessoas a interessarem-se por mim… que fosse para o inferno… ele e a mulherzinha, eu agora tinha outras coisas em que pensar... e pensei mesmo.

            Porque é que o Duarte me tinha beijado? Eu podia compreender que quisesse fazer as pazes comigo depois daquele começo atribulado, também podia compreender que quisesse companhia para correr, era muito mais agradável correr com outras pessoas, mesmo sendo alguém que mal se conhece… mas porquê o beijo? ‘Porque me apeteceu muito’, fora a resposta… apetecera-lhe muito beijar-me? Porquê? Queria companhia para o fim de semana? Queria alguém que o acompanhasse para não estar sozinho com dois casais? Eu estava prontíssimo para isso, principalmente se ele não tinha mesmo ninguém.

            Senti-me a ficar excitado e abri a água fria por um momento, tinha de me controlar… veríamos o que aconteceria…

 
Parte 5
 

Tu és meu - 3 (conto gay)


 Para ver início - cap. 1

3


            O meu avô elogiou o jantar como sempre e consegui que tomasse o meu partido contra a minha avó. Acabei por conseguir sair sem demasiada resistência. Prometi que ia tomar um café e logo via se encontrava alguém para dançar um bocado… de qualquer maneira não tinha muito dinheiro e isso era sempre um limite, eles sabiam-no bem. Raramente chegava a casa depois das duas da manhã e não havia razão nenhuma para nesta noite ser diferente. Até porque eu ia sempre ao mesmo sítio, se houvesse qualquer coisa era fácil de encontrar e toda a gente me conhecia, por isso…

            Arranquei bem disposto. Gostava de ir tomar qualquer coisa à noite, geralmente beber uma cerveja, só tinha dinheiro para isso. O Pedro gostava de lá ir porque era o bar mais antigo e mais fixe do Meco e onde iam a maioria dos gays. Ele devia ter algum problema mal resolvido a propósito disso… de certeza que tinha. Sorria ao aproximar-me, era a primeira vez que eu ali ia sozinho, desta vez não o tinha a ignorar-me, tipo… ‘ele é meu primo e só veio comigo’, mas depois a passar-se quando alguém se metia comigo para dizer qualquer coisa, ou começava a dançar ao pé de mim. Por mim gostava daquele bar porque tinha sempre boa música, do meu estilo.

 

            Encontrei logo a Elsa e a Vanessa, um casal de lésbicas. A Elsa tinha estado na casa dos meus pais, que os meus avós alugavam a quem queria ter uma casa de fim de semana ali no Meco. Era super curtida e conhecia-me há anos, tinha lá estado imenso tempo com a anterior namorada e gostava de mim, tinha-me visto crescer. Ela gostava de crianças e tinha muita paciência para mim, até me convidara para ir jogar Playstation com ela porque eu não tinha nenhuma… passáramos horas e horas os dois aos gritos a jogar futebol e nas corridas de carros.

            - Nuno! – gritou assim que me viu

            Até me assustei, mas a Elsa era assim… às vezes parecia mesmo um homem, baixinha, redondinha, um bocado bruta, vestia-se sempre como se tivesse para sair para a caça, mas eu gostava dela, sempre tinha gostado… o Pedro chamava-lhe ‘o mestre d’obras’, mas isso só me irritava… estúpido. A Elsa era super divertida e era boa pessoa… era um bocado masculina, sim, vestia-se com um estilo masculino e dizia muitos palavrões, mas era fantástica e inteligente, fora das poucas pessoas que se apercebera de mim e do Pedro e nunca abrira a boca para dizer nada a ninguém.

            - Estás cada vez mais giro, cabrão! – berrou dando-me um abraço apertado para acompanhar o cumprimento ‘à Elsa’ – sabes que eu quase que andei com este puto ao colo? – perguntou à namorada num tom que toda a esplanada ficou a saber…

            Eu corei logo. Estava toda a gente a olhar para nós. Eu sentia-o apesar de não conseguir olhar para ninguém. Era sempre assim, aquilo era inevitável, mas era a Elsa… e a Elsa era a Elsa… podia dizer o que quisesse que eu limitava-me a corar e a sorrir, não havia nada a fazer e até era melhor não dizer grande coisa para não correr o risco dela fazer pior.

            - Dizes sempre a mesma coisa. – resmungou a Vanessa – e ainda por cima sempre aos gritos…

            - Eu falo aos gritos, pimpolha, já devias estar habituada! – resmungou ela antes de se virar para mim – esta agora anda com a mania que é discreta, já viste a minha vida? Está quase como e teu... – baixou o tom antes pigarrear com uma careta – primo… como é que está esse?

            - Casado e no avião a regressar da lua-de-mel! – encolhi os ombros tentando não parecer triste… não precisava mesmo que me lembrassem do Pedro.

            - Não acredito! – ela abriu imenso os olhos – livraste-te dele?!

            - Foi ele que se livrou de mim.

            - Que sorte, Nuno! Foda-se, puto, tu mereces bem melhor. Vamos celebrar. Senta-te aí! – disse entusiasmada e com um sorriso enorme, mas depois sobressaltou-se – vieste ter com alguém?

            - Não! Achas? – ri

            - Então vamos apanhar um pifo os dois, ouviste? Estás por minha conta e não me vou esquecer de ti… raios me partam toda se não te arranjo um gajo em condições! Pode não ser hoje, mas nem que tenha de ser eu a engatar um… – piscou-me o olho a sorrir com a minha gargalhada

            - Isso eu gostava de ver… tu a engatares um gajo.

            - Porra, não me lixes, pá, mais vale dizer que não gostas de mim! Vou é buscar umas cervejas para a gente, essa agora é chique, não bebe…

            - Não bebo cerveja! – ripostou logo a Vanessa

            - Mas lá há outra coisa decente para se beber? – encolheu os ombros a abanar a cabeça – vê lá tu… agora deu-lhe para isto…

            - A cerveja engorda!

            - Gorda já eu estou! – bufou a Elsa desaparecendo no interior do bar e deixando a namorada a abanar a cabeça

            - Não tenho razão? – perguntou-me

            - Tens razão no que dizes, Vanessa, agora sabes bem que não vale a pena discutir com ela. – fui diplomático e ela riu-se

            - Porque é uma grande mula…

            Rimos os dois. Eu gostava da Vanessa, mas mesmo assim preferia a ex namorada da Elsa. A outra andava na faculdade e não parecia nada ser lésbica, era feminina, vestia-se bem e era super simpática. Esta também era gira, mas era uma parola, literalmente uma parola. O Pedro antes dizia que eram o mestre d’obras e a princesa, quando viu esta passaram a ser o mestre d’obras e a galdéria… a Vanessa usava sempre umas mini saias que não tinham mais de um palmo e uns saltos tão altos que metiam medo. Agora estava com um daqueles vestidos de malha que tinha de estar sempre a puxar para baixo porque subia logo… fazia-me um bocado de confusão.

            Estava a rir-me quando vi acenar. Ganhara finalmente coragem para olhar à minha volta e ver quem estava por ali. Era o Chico que acenava, mas ao seu lado encontrei imediatamente os olhos do Duarte fixos em mim. Foi ele que vi e foi ele que cativou a minha atenção.

            Foda-se!

O sorriso desapareceu-me logo. Era incrível, mas mal vi o meu amigo, quem vi logo foi o Duarte… giro, podre de bom… vi também um grupo de bichas numa outra mesa olhar para ele e a cochichar, mas ele não reparava, o seu olhar não se desviou de mim… fez um leve aceno com a cabeça, num cumprimento e eu respondi da mesma forma, apesar de depois ter acenado com a mão ao Chico.

            - Conheces? – perguntou-me a Vanessa

            - Conheço! – respondi com o coração aos pulos – se calhar havia de…

            Assim que o pensei, decidi fazê-lo… levantei-me e fui ter com eles. O Duarte nunca desviou os olhos de mim enquanto me aproximei, estava com uma camisa branca que lhe ficava… ficava-lhe como tudo o que vestia, ficava-lhe a matar… por mim também só consegui desviar os olhos dele quando cheguei à mesa. O gajo era mesmo podre de bom, dasss.

            - Nuno… estava a ver que não nos vinhas dizer olá… – foi o Paulo que falou, cruzando os braços e fingindo-se zangado

            - A distância é a mesma de um lado ao outro! – respondi-lhe – olá!

            Claro que o meu olhar acabou por se fixar outra vez no Duarte… o raio do homem tinha um íman qualquer.

            - Olá Nuno! Ainda bem que já não estás muito chateado connosco!

            - Já não estou muito. – confirmei com um sorriso delicado antes de acenar ao Álvaro… eu gostava dele – estás cá hoje?

            - Nuno! – cumprimentou-me a rir – estás cada vez mais giro, cabrão!

            Ri-me também. Eu gostava mesmo dele, era um gozão.

            - Ouviram aqui?

            - Ouviu-se na aldeia toda!

            - Ficaste logo na primeira mesa! – lançou o Paulo – estou com ciúmes…

            - Não sei porquê, o teu namorado não te chega? – lancei, estava um bocado envergonhado e sem paciência para aquilo – oh Ricardo, tens de te aplicar mais, assim ainda ficas com má fama! – ficou toda a gente de boca aberta a olhar para mim… toda a gente não, o Álvaro soltou uma enorme gargalhada

- Então e como estava a praia? – perguntei por achar melhor mudar de assunto

            - Ótima… foi uma pena não teres vindo! – disse logo o Chico – nem imaginas o que perdeste…

            - Até fizemos nudismo! – lançou o Paulo, mas eu percebi que o seu entusiasmo diminuíra

            - Ui… nudismo no Meco…

            Fingi-me chocado, como se o Meco não tivesse a praia nudista mais famosa do país.

            - É inaudito, não é? – o Duarte fixou-me – mas havias de ter vindo ter connosco para nós te vermos bem…

            Eles fez de propósito, só podia… frisou bem o ‘nós’ e o ‘te’… e o seu olhar estava expectante, atento à minha reação, tentando perceber o que eu pensava das suas palavras. Senti logo a cara a arder, mas não me lembrei de nada decente para lhe responder… porra…

            - Não te queres sentar um bocadinho connosco? – convidou o Paulo

            - Não posso, estou com elas... – sorri-lhe, grato por ele ter mudado de assunto

            - Chegaste sozinho que eu vi… ficaste foi logo retido! – ele olhava-me provocador, já tinha recuperado do meu comentário

            - Não lhes podia dizer que não…

            - São especiais, é isso?

            - São!

            - Tenho de ver se me torno especial para ti… para não me dizeres que não.

            - Outra vez? – exclamei surpreendido

            - Queres beber alguma coisa?

            Olhei para o Duarte sem perceber bem o que ele queria dizer… estava-me a oferecer uma bebida? Ele? Devia ter enlouquecido… achei que estava novamente gozar-me O seu rosto estava impassível, não dava para ver o que estava a pensar, provavelmente a tentar gozar-me mais. Senti-me triste, era uma pena ele ser assim…

            Mas agora sabia bem o que responder.

            - Se isso é por causa do café… agora tenho dinheiro comigo… queres beber um? Eu ofereço… ou preferes o dinheiro?

            - Quieto! – ele foi ríspido e o seu olhar soltava faíscas assim que me viu levar a mão no bolso das calças – o que é que eu te disse sobre isso?

            Aquela sua reação surpreendeu-me. O gajo foi bruto, mas depois de uns segundos em que ficámos a olhar um para o outro em silêncio, eu acabei por desviar os olhos dele. Sentia a cabeça a andar à roda. O raio do homem… a sua surpresa fora óbvia, mas o seu tom adoçou um pouco depois de me ter vencido no olhar.

            Merda!... cerrei os dentes… um ponto para ele.

            - Caramba, Nuno… ficaste a pensar nisso?

            - Fiquei! – respondi decidido, enchendo-me de coragem e enfrentando o seu olhar novamente – foi a primeira vez que me ofereceram alguma coisa e depois me atiraram isso à cara…

            Os seus olhos faiscaram outra vez… demorou uns segundos para se acalmar, pelo menos foi o que pareceu.

            - Eu já te expliquei isso, Nuno. – disse baixinho… o seu tom era de admoestação

            - Eu sei que sim. – respondi docemente, mas não disse mais nada

            - Mas não o convenceste! – lançou logo o Paulo, provocador

            - Parece que não. – concordou ele – e parece-me que o Paulo é capaz de estar enganado quanto a ti, tu não me pareces nada doce… ou então tens bem mais recheio amargo do que devias…

            Tive de sorrir.

            - O teu amigo é que se convenceu que eu era doce.

            - Pelos visto é como o ‘sim senhor’… é só para alguns. – lançou o Paulo

            - Nem mais! – ri – é só para quem merece… o ‘sim senhor’, o sentar-me na mesa, o não dizer que não… tudo isso!

            - E depois desta manhã eu não mereço, é isso?

            Engoli em seco… fogo, meu… o seu olhar era profundo, incisivo, inquisidor… o sorriso desapareceu-me imediatamente, eu não sabia o que lhe responder e ainda bem, tive a certeza que iria gaguejar… ficamos a olhar-nos uns segundos novamente até eu conseguir finalmente pensar outra vez.

            - Estás à espera que eu te diga que não? Pensei que não gostasses que te dissessem que não…

            O Paulo soltou uma gargalhada.

            - Foste apanhado pelo teu próprio raciocínio, Duarte!

            Ele semicerrou os olhos e vi que estava mesmo espantado. Logo depois, para meu enorme prazer, mordeu o lábio para não se rir e os seus olhos brilharam.

            - Touché, Nuno! – ficou a acenar com a cabeça – apanhaste-me… tenho pena que não te sentes connosco.

            Encolhi os ombros novamente a sorrir, feliz da vida. Como é que aquilo podia estar a acontecer? Como é que aquele tipo me conseguia deixar assim?

            - Não posso… de qualquer maneira daqui a pouco vou dançar… até já!

            - Chama-me! – disse o Chico enquanto me afastava

Voltei ao meu lugar com um sorriso nos lábios e sentindo-me outra vez um vencedor… ele podia dar-me a volta à cabeça, mas eu estava a ganhar outra vez 2-1… bem feito… podia ganhar-me nos olhares porque tinha aqueles olhos e eu não os aguentava, mas na conversa era eu que o deixava de boca aberta.

 

            - A cerveja breve está mole! – disse a Elsa assim que cheguei ao pé delas – quem são aqueles?

            - Conheces o Chico…

            - Sim, e os outros?

            - São amigos dele… o Álvaro é o namorado, os outros são amigos…

            - Aquele de frente para cá estava-te a arrastar a asa, não estava?

            - Não… acho que não…

            - Não? – ela não pareceu muito convencida – a mim pareceu-me que sim e eu bem vi a tua cara… olha que ele tem boa pinta…

            - Eu sei. – admiti a sorrir e arrependi-me imediatamente quando vi a sua cara

            - Ah tu gostas dele…

            - Não… quer dizer… qualquer pessoa gosta dele…

            - Gostas dele, sim! – insistiu a rir-se – bem, pelo menos evoluíste, é bem melhor que o…

            Eu percebi logo que acabara de cometer um erro crasso, a Elsa começou a olhar para o Duarte ostensivamente, observando-o, analisando-o e eu senti vontade de me enfiar num buraco… bebi a cerveja toda quase de seguida e nem deve ser preciso comentar o calor que sentia na cara ou especular sobre a cor que teria, eu esquecera-me que a Elsa não tinha o mínimo sentido de discrição.

            - Ele também não tira os olhos daqui. – disse ela – ele gosta de ti?

            - Não! – exclamei… a ideia era absurda, ele limitara-se a gozar comigo, ou brincar ou lá o que tinha sido – mas também contigo a olhar assim para lá… não faças isso, Elsa, deve pensar que estamos a falar dele …

            - E não estamos? Assim percebe que tu também estás interessado nele… mas eu tenho de te ensinar tudo?

            Eu olhei também e vi logo que ela tinha razão, estava a observar-nos. Mesmo ao longe senti a intensidade da sua expressão, os seus olhos perfuraram-me o cérebro e nem os aguentei dois segundos. Porra, eu também não queria aquilo assim.

            - Preciso de outra cerveja! – disse preparando-me para me levantar, mas a Elsa não deixou

            - Eu vou lá… deixa-te estar aqui quietinho! – disse ela – troca de lugar comigo, não queres? Ficas mesmo de frente para ele.

            - Não! – respondi chocado – eu acho que vou é dançar.

            - Não vais nada, senta-te aí…

            - Vais sim… e eu vou contigo. – interveio a Vanessa, levantando-se

            - Ah é uma rebelião? – a Elsa pôs as mãos nas ancas – estão os dois contra mim… mas é que assim perdemos a mesa…

            - Há mesas lá dentro, Elsa… traz as coisas e depois pede-me uma caipirinha!

            Tive vontade de rir com a cara que a minha amiga fez, mas acabou por pegar nas coisas, como a Vanessa pedira. Aquilo não era nada natural nela, a minha amiga era do tipo de ser ela a mandar, era o galo da capoeira e gostava de ser ela a decidir as coisas, mas também sabia que quando estava apaixonada era um cordeirinho…

            - Pronto está bem. – cedeu contrariada

            Era divertido vê-la quando estava apaixonada porque continuava a ser bruta com toda a gente, como sempre, o papel masculino de quem controla a relação, de quem é o homem da casa, mas que perdia a cabeça com a mulher de quem gostava e era um doce com a sua paixão… ela é que era mesmo um doce.

 

            Eu sentia bem a cerveja a subir-me, não a devia ter bebido toda assim de seguida. Na segunda já fui com mais calma… mesmo assim estava já suficientemente desinibido para dançar só com a Vanessa, mesmo não estando mais ninguém a dançar.

A Elsa de vez em quando levantava-se e dançava um pouco connosco, mas era apenas uma música ou duas, depois voltava logo a sentar-se outra vez. Aproveitou para nos tirar fotos, principalmente quando a Vanessa se agarrava a mim e começávamos a dançar mais sensualmente… estava muita gente a olhar para nós, principalmente homens a pensar o que é que uma gaja como aquela estava a fazer com um puto.

Depois foi a vez da Elsa querer umas fotos comigo… a beber, com o braço por cima de mim… eu ia morrendo de vergonha quando ela me levantou a t-shirt para me destapar a barriga e pôs lá a mão como se tivesse a ter muito gozo… tentei rir, mas foi difícil e quando vi o Duarte ao Balcão a olhar para mim fixamente, tornou-se absolutamente impossível… porra. O meu sorriso, que já devia ser de constrangimento, sumiu-se num segundo. Para ajudar ele começou a conversar com o Paulo animadamente, estavam os dois a olhar para mim e achei que devia ser eu o assunto. Não sei se gostei se não, confesso isso com toda a sinceridade… não sei mesmo.

            Senti-me apertado pela Elsa, que me puxou para encostar a boca no meu ouvido.

            - Vai lá fora, Nuno, vai até lá um bocado, sozinho… experimenta o gajo!

            Olhei-a espantado.

            - Oh Elsa…

            - Mau! – abriu-me os olhos ameaçadora, como fazia quando eu era garoto – eu estou ali há mais de uma hora a topar-vos… tu não tiras os olhos dele, ele não tira os olhos de ti… estão os dois armados em enconados e eu já me estou a passar convosco… estão interessados um no outro que eu vejo muito bem…

            - Ele não está…

            Espetou-me o dedo à frente da cara.

            - Está sim que eu não sou parva! – disse no seu tom brusco de quando era contrariada – os homens são diferentes, mas não são tanto assim…

            - Estás a fazer filmes!

            - Então prova-me… vai lá fora cinco minutos… pega na garrafa e vai apanhar ar… livra-te de saíres de lá sem eu te ir buscar, ouviste bem?

            Com o dedo espetado em frente ao nariz, não era seguro contraria-la.

            - Oh Elsa…

            - Ou isso, ou eu vou ter com ele e pergunto-lhe… o que é que preferes?

            - Oh Elsa! – repeti, agora em choque, senti os olhos a querem saltar-me da cara – não te atrevas…

            - Vês? Então faz o que te digo… vais ver se o gajo não vai atrás de ti…

            - Não vai nada…

            - Se não for é um burro e tu estás a perder tempo com ele… é simples… e eu fico a pensar que tu és um daqueles anormais que só se interessam por gajos parvos que são lixo!

            - Fogo, Elsa…

            Ela agarrou na minha cerveja e pôs-ma na mão.

            - Mexe esse cu!

            E foi o que eu fiz, com a cara a ferver, a sentir os olhos do Duarte em mim, apesar de não conseguir olhar para ele, a sentir-me envergonhadíssimo… a Elsa era um amor, mas era perigosa e eu sabia bem que era mulher para fazer aquilo com que me tinha ameaçado… senti-me um garoto outra vez.

 

            Já não havia lugares livres na esplanada e eu não queria ir sentar-me com os outros… com o Ricardo. Desci as escadas e atravessei a rua para me sentar na soleira da porta da frente. Não havia nada a fazer, a Elsa era assim mesmo, bruta como um raio, mas um amor de mulher, sempre preocupada e super protetora com as pessoas de quem gostava. Sentia-me um bocado amuado com aquilo.

            Foi o Álvaro o primeiro a ver-me e veio ter comigo…

            - Então… já te cansaste?

            - Estou a fazer uma pausa. – sorri-lhe, tentando parecer bem disposto

            - Bem, meu, deste um nó na cabeça do Ricardo…

            - Eu? Porquê?

            - Com a tua conversa de há bocado… teres dito que o Paulo se estava a atirar a ti por ele não dar conta do recado… ele ficou passado contigo e deu discussão com o Paulo, sabias?

            - Pouco me importa… não gosto dele!

            - Nem tu nem ninguém!

            Soltei uma gargalhada, mas não foi pelo que o Álvaro disse, foi pela cena a que acabara de assistir. Vira a Elsa aparecer à porta do bar a olhar-nos, vira-a por as mãos nas ancas zangada quando o viu comigo, como fazia quando se passava dos carretos. Desaparecera logo a seguir. Agora tinha reaparecido a arrastar o pobre Chico por um braço… apontou para nós e parecia furiosa… eu nem queria imaginar o chorrilho de palavrões que o pobre Chico devia estar a ouvir. O que é certo, é que o meu amigo chamou o namorado e o seu tom era de urgência.

            - Que foi? – o Álvaro não percebera nada – o que é que ele quer?

            - Deve-te querer apresentar umas amigas nossas. – disse-lhe eu a tentar conter o riso

            Aquela Elsa era uma bomba nuclear, sempre pronta a explodir se um dos seus bons planos tivesse entraves. E o impacto desta bomba humana era apenas ligeiramente menor do que o de uma bomba a sério.

            Aquela cena fora hilariante, mas sorriso que tinha desapareceu-me quando vi o Duarte a aproximar-se. Trazia uma caipirinha na mão e uma cerveja na outra… foda-se!

            - Eu acho que não mereço tanto, Nuno! – o seu tom parecia triste

            Olhei-o espantando.

            - Tanto quê? – contive-me para não ser bruto, mas a pergunta saiu-me bastante seca… sentia o coração a bater violentamente

            - Tanto castigo. – parou à minha frente e eu tive de me esforçar a sério para aguentar o seu olhar – já é suficientemente mau estar a apreciar o teu sorriso e vê-lo desaparecer sempre que olhas para mim…

            - Oh, achas?

            - Eu não acho, eu tenho a certeza! – respondeu decidido – mas pior que isso é ver-te tremer agora quando me viste aproximar… tens medo de mim?

            - Não! – disse imediatamente, apesar de não ter bem a certeza de ser verdade

            Senti o sangue todo a caminho da cara… porra… pensei dizer que era do frio, mas não fazia sentido nenhum.

            - É que parece… ou simplesmente não gostas de mim?

            Olhei-o achando que ele era doido e a minha expressão deve ter sido bastante clara porque sorriu um pouco.

            - Nós não começámos da melhor maneira… – acabei por conseguir dizer depois de um minuto de silêncio

            - Na verdade até acho que começámos, mas pelo caminho eu meti água e magoei-te, não foi? Ofendi-te pelo menos… posso sentar-me contigo uns minutos?

            - Claro! – respondi engolindo em seco… o que é que iria sair dali?

            Pensei que ele quisesse sentar-se no degrau comigo, mas não se sentou sequer, encostou-se ao muro, ao meu lado. Esteve mais de um minuto a observar-me em silêncio, mas eu mal olhei para ele, sentindo-me nervoso.

            - Eu estive a pensar e quis propor-te começarmos do início outra vez, que dizes? – sorriu ligeiramente perante a minha surpresa e pousou a garrafa de cerveja no chão, estendeu-me a mão a seguir – olá, eu sou o Duarte!

            Tive de me rir, aquilo era a última coisa que eu estava à espera.

            - Nuno. – respondi

            - Assim sim! – agora também ele sorria abertamente – é muito melhor assim… sabes que a minha motivação é um bocado egoísta… eu gosto muito do teu sorriso e não gostei de deixar de o ter. – abri a boca espantado, mas ele acenou a cabeça a confirmar – e sou um bocado invejoso, sabes? Toda a gente ter direito a um sorriso menos eu deixou-me triste.

            - Bem feito! – aquilo saiu-me sem eu conseguir controlar

            Ele arquejou de surpresa, mas depois a sua boca contorceu-se e vi um brilho de divertimento nos seus olhos.

            - Tens razão… foi bem feito para eu aprender que nem toda a gente reage da mesma maneira às minhas brincadeiras e para eu perceber que aquela foi de muito mau gosto… desculpas-me?

            - Já disse que sim!

            Fui seco, mas não aguentei o seu olhar.

            - E já terminaste a tua cerveja? – perguntou insinuante

            Eu olhei imediatamente para a que ele trouxera…

            - Não estás à espera que eu aceite uma cerveja paga por ti, pois não?

            Ele comprimiu os lábios fazendo a sua boca tornar-se uma linha fina, não gostara na minha reação, era visível.

            - Na verdade estou, sim… e peço-te que aceites com a promessa de que nunca mais se vai repetir o que aconteceu esta manhã.

            - E como é que eu posso ter a certeza disso? – olhei-o desafiador… ele não devia estar bom da cabeça

            - Terás de confiar em mim… pareço-te assim tão mau?

            Decididamente não parecia nada, muito pelo contrário, tudo o que eu via parecia-me bom… muito bom.

            - Talvez não…

            - Não estás muito convencido, mas eu compreendo, agora pensa no seguinte, magoaste-me quando me privaste do teu sorriso e agora vais-me magoar uma segunda vez… eu só te magoei uma…

            Considerei aquilo por um segundo, mas não estava assim tão bebido.

            - Só ficas em desvantagem se eu não aceitar a cerveja… se eu a aceitar e voltares a fazer o mesmo, ficas tu numa grande vantagem… e se formos a pontuar, a tua vantagem valeria dois pontos…

            - Porquê? – perguntou cauteloso, o seu tom era de curiosidade

            - Porque à primeira vez toda a gente pode cair, à segunda só cai quem quer… aceitar o café uma vez é legítimo porque não te conhecia, agora deixar-me humilhar uma segunda vez vale mais pontos…

            - Eu não te humilhei, Nuno, eu…

            - Humilhaste sim! – acusei – eu não te pedi café nenhum, ofereceste-mo porque quiseste!

            Ele franziu o sobrolho, mas não insistiu.

            - Talvez sim… é verdade… mas não foi minha intenção…

            - Talvez não, mas foi o que aconteceu!

            - Duvidas? Eu não gosto de humilhar as pessoas! De entre tudo o que me faz diferente, essa não é uma característica da minha personalidade! E já te disse que não voltaria a acontecer…

            Encolhi os ombros sem comentar.

            - Pareço-te o tipo de pessoa que não cumpre a sua palavra? – fez a pergunta com a maior das calmas, mas os seus olhos foram mais expressivos, recebi o olhar ‘matador’… e era um olhar potente, ou então fui eu que me deixei atingir mais do que…

            - Não. – respondi baixando os olhos… dasss… os dele queimavam

            - Então aceitas a minha oferta de paz?

            Pegara na garrafa e estendera-ma. Olhei-o por um momento, mas não aguentei outra vez… acabei por pegar na garrafa e dei um golo…

            - Obrigado.

            - Obrigado eu, Nuno! – ouvi e senti o seu tom doce novamente – e caramba, tu és mesmo um miúdo difícil!

            - Não sou nada! – olhei-o e desta vez fiquei vidrado, o seu sorriso era envolvente, quase hipnótico

            - Ah não?

            - Nem te obriguei a deixar que te pagasse o café amanhã!

            - Não me obrigaste? – calou-se por um momento, pasmado, e segundos depois soltou uma gargalhada… que gargalhada fantástica que ele tinha – e tu pensaste mesmo nisso?

            - Pensei! – disse a rir também, o seu riso era contagiante

            - Mas olha, Nuno… num gesto de boa vontade, e uma vez sem exemplo, amanhã pagas-me o café se quiseres…

            - A sério?

            - Claro, se te dá prazer e ficas mais satisfeito por o fazer…

            - Então está combinado! – sorri-lhe satisfeito antes de ver a Elsa a espreitar à porta e fazer-me sinal para irmos embora – entretanto tenho de ir, a minha boleia…

            - Eu posso levar-te a casa…

            - Achas? – exclamei, fingindo-me horrorizado – já corri o risco de aceitar a cerveja… se não cumprires a tua palavra ainda tinhas mais essa para…

            Calei-me, não queria falar demais, mas ele riu-se.

            - É justo. – sorria abertamente – amanhã vais correr outra vez?

            - Vou! – respondi imediatamente perante a ideia do que se podia seguir

            - Importas-te que eu vá contigo?

            - Claro que não! – o meu sorriso aumentou e o dele também, provavelmente contagiado pela minha reação

            - É sempre melhor ter companhia… à mesma hora, sete e meia?

            - Sim, pode ser…

            - Há um cafezinho no início do caminho que eu fiz hoje…

            - Sim, é mesmo ao pé da minha casa.

            - Ótimo, então encontramo-nos lá?

            - Pode ser… até amanhã… Duarte…

            Estendi-lhe a mão e ele apertou-a sempre a sorrir.

            - Tu confundes-me, Nuno? – lançou de repente, deixando-me de boca aberta

            - Porquê?

            - Não consigo decidir se és um doce ou não? Deixaste-me curioso em relação a ti.

            - Porquê?

            Encolheu os ombros.

            - Estas coisas não se explicam. – respondeu calmamente

            - Tenho de ir… aquela é outra que não gosta que lhe digam que não…

            - Até amanhã.

            O sorriso dele quando disse aquilo era estranho, era um sorriso enigmático, de quem estava a pensar qualquer coisa… não sei explicar… tive a sensação que estava a pensar algo que nunca me diria… o tipo era misterioso e… porra, era um ‘pão’.

 

            Tive vontade de abraçar a Elsa quando cheguei ao pé dela, só me apetecia dar pulinhos.

            - Então? – ela sorria com a minha expressão – conta-me tudo!

            - Foi ótimo!

            Sentia-me mesmo entusiasmado e dei-lhe mesmo um abraço.

            - Então começa pelo princípio… tinhas razão, Elsa…

            Ri-me.

            - Tinhas razão, Elsa! – repeti as suas palavras – ele veio ter comigo…

            Contei-lhes a história da manhã e o que tinha acontecido e depois descrevi a cena e a conversa de agora.

            - Que brincadeira mais parva! – bufou ela – deve ser parvo… mas agora compensou?

            - Então não? Ele é tão bonito, Elsa… não achas Vanessa?

            - Acho.

            - Cala-te e tem juízo, tu percebes tanto de homens como eu!

            - Oh Elsa, não sejas assim… admite lá, vá…

            - Tem pinta tem, pronto… mas podes dizer-lhe que vou ficar com ele debaixo de olho, ouviste? – espetou-me o dedo à frente do nariz outra vez – e se ele te faz outra dessas… dou-lhe um cabeçadão e parto-lhe a boca toda, podes mesmo dizer-lhe… assim fica já a saber o que pode contar…

            - Que exagero! – ri

            - O que interessa é que ele foi ter contigo… e mais, agora vieste-te embora e deixaste o gajo na mão, vais ver como amanhã está mansinho.

            - Oh Elsa! – ri-me

            - Não acreditas?

            - Acredito, Elsinha… és uma querida. – pus-lhe o braço nos ombros e dei-lhe um beijo na cara!

            - Elsa… – a Vanessa estava chocada – eu nunca vi um homem assim contigo…

            - Achas? – ela bufou logo – é só este… nem os meus sobrinhos se atrevem a fazer-me isto…

            Fomos o caminho todo a conversar sobre o Duarte. Ele devia ter as orelhas a ferver, mas pouco me importava… e entrei em casa a pensar nele. Era lindo, estava deslumbrante hoje. Ele fazia-me sentir coisas… mesmo quando era duro comigo. Podia ter ficado com as orelhas a ferver, mas também tinha feito por isso… se tinha… mas agora compensara e não fora só na maneira como falara comigo, muito menos no facto de me ter oferecido a cerveja, fora a maneira como me olhara e a maneira como me tinha feito sentir… era divertido e conseguira fazer-me sorrir mesmo estando eu chateado com ele. Aquele homem era absolutamente fantástico.

            Passara a noite sem pensar uma única vez no Pedro e quando finalmente me ocorreu que ele chegaria na manhã seguinte, tratei de o esquecer novamente e concentrei-me no sorriso lindo do Duarte.

            O que é que lhe estaria a passar pela cabeça agora? Estaria a pensar em mim também? O que é que o teria levado a ir ter comigo para fazermos as pazes? A Elsa teria razão? Ele estaria mesmo interessado em mim? Eu queria tanto que isso fosse verdade, estava tão excitado com aquilo tudo… mas claro que havia muitas outras possibilidades, podia ser só uma questão de ser delicado e querer mesmo fazer as pazes comigo, ou podia ser outra coisa qualquer… nem sei… despeito por eu o ter começado a tratar de outra maneira e não ter gostado disso. O que é certo é que ele fora mesmo ter comigo, interessado ou não, fora ter comigo e pedira desculpas e levara-me uma cerveja para eu beber.

            Adormeci sem dar por isso. Feliz.