terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 5 (conto gay)

Para ver início - cap1


5


            Estava sem saber o que fazer, tinha-me recusado a ir almoçar com a família e isso motivara uma discussão com o meu avô… estava a sentir-me mal, detestava que o meu avô se zangasse comigo, mas não queria mesmo ir almoçar com eles. Não os queria ouvir a contar as histórias do Brasil, não queria ouvir como se tinham divertido, como tinha sido maravilhoso. Eu não queria ver o Pedro e não podia explicar porquê, simplesmente não queria estar na mesma sala que ele… assim fariam um almoço de família só deles, filho, pais e avós, sem o primo a estorvar.

            Fui ver a massa do pão, no dia seguinte iria ajudar a minha avó a cozer. Costumava ser ao domingo, mas com a chegada deles, a minha avó tinha decidido adiar, até porque no dia seguinte era feriado, o 10 de Junho, o dia de Portugal, de Camões e doutra cena qualquer que eu não me lembrava o que era… das comunidades, acho que era isso…

            Eu sempre adorei cozer pão, sempre adorei ajudar a minha avó a faze-lo e foi sempre uma birra porque eu queria fazer tudo, desde o amassar, a por a lenha no forno… tudo. O resultado foi que agora tinha sido o melhor do meu curso nessa tarefa; acho que o meu pão cozido estava tão bom como o do formador… a minha colega Helena até me disse que estava melhor, mas ela não era exatamente credível porque gostava de mim e tudo o que eu fazia era melhor do que o dos outros, mesmo as coisas que me saíam uma merda. Tive de sorrir… coitada, eu gostava dela, mas não como ela queria, não era capaz de estar com uma miúda, não me atraiam minimamente… já percebera há muito tempo que gostava de homens, mesmo vendo que os homens não gostavam de mim.

            Repentinamente veio-me à ideia o homem na praia a bater uma a olhar para mim… arrepiei-me… desses dispenso!

            Sacudi a cabeça para afastar a ideia… a massa do pão estava boa e eu estava a precisar desesperadamente de uma coisa que me ocupasse o cérebro e não me deixasse pensar.

            Fui buscar os fones do telemóvel e fui-me deitar na rede a ouvir música… rádio orbital em altos berros era o que eu mais precisava naquele momento, sempre gostara de música e sempre adorara este posto de rádio. E agora estava mesmo numa fase em que a música era o único prazer que eu tinha na vida e aquele posto era definitivamente o meu favorito, a música que lá passava era exatamente o que eu gostava… ‘house music’… música de carros de choque, como o Pedro lhe chamava… parolo.

            Sorri ao ligar o rádio… este ano estava a ter novamente um verão com músicas fantásticas. O verão de 2011 tinha sido extraordinário, já 2012 tivera algumas músicas fixes, mas nada que desse grande pica… este ano estava a ser absolutamente ‘super’ outra vez… ritmo, batidas fantásticas e letras super fixes, estava a ser um bom ano… dava prazer ouvir música.

 

            Sempre gostei de estar ali na rede, só ouvir os pássaros nas árvores, o som do mar ao longe, ou a ouvir música com o sol a morder-me o corpo… mas agora aquilo porque eu ansiava quando me deitava ali não voltaria a acontecer, estava sempre à espera que o Pedro aparecesse e ele agora tinha mulher, deviam estar de mão dada a comer e a explicar como estavam deprimidos por ter de regressar do paraíso…

            Oh não!

            Como se não bastassem os meus pensamentos para me deprimir, a rádio passa a minha música com ele… foda-se… ‘Got 2 luv you’. Já era velha, já tinha saído do circuito, o que é que fez este tipo pô-la a tocar?… aguentei-a muito pouco, assim que chegou ao refrão não aguentei mais… «I… I would do anything I could for you… boy, you’re my only»… foda-se… levantei-me num salto e desliguei o rádio… assim não, assim era demais.

            O problema estava na minha cabeça, ele nem nunca tinha percebido o que eu queria dizer… tinha gostado da ideia, mas não tinha ouvido a letra, não a tinha entendido, não se tinha esforçado para perceber porque é que eu tinha dito que era a nossa música, não tivera nenhum significado para ele… eu fiz tudo o que pude por ele, dei o meu máximo para o satisfazer, fiz tudo o que ele quis, deixei-o fazer comigo tudo o que lhe apeteceu, dei o meu melhor para lhe agradar e no final… não fora suficiente.

            Meti o telefone no bolso e fui até à minha bicicleta. Pedalei furiosamente pelo Meco em direção ao parque de campismo da falésia. Não queria ir lá, não queria tomar café, queria apenas estafar-me, estafar-me até o meu cérebro ficar incapaz de pensar no que quer que fosse.

            Acabei à beira da falésia, do lado esquerdo do parque de campismo, uma zona deserta, de difícil acesso, onde poucos veículos conseguiam ir se não fossem todo o terreno. No final da descida ficava uma pequena praia rodeada de rochas, aí estavam parados bastantes carros… de veraneantes e de pescadores, mas eu não desci muito, saí da estrada e avancei pelo terreno até chegar à ponta do penhasco e ficar a olhar o mar. Estava calor e àquela hora não havia ninguém por ali, os carros com os namorados para… esses apareciam mais tarde. Eu já estivera ali com o Pedro, nus em frente ao mar, de corpos colados a ver o por do sol, cansados depois de… foder… nós nunca fizemos amor, eu sim mas ele não, portanto não era possível, pois não?

            O telefone tocou… mensagem.

            «Eles estão-te a convidar para almoçar» dizia o SMS do Chico

            Ah, sim! Tenho mesmo dinheiro para isso!… bufei

            «Sem cheta. Não dá» respondi logo

            «O Paulo está a convidar. Ele paga»

            Aposto que o namoradinho vai adorar!

            Tive de sorrir. Não sabia bem o que estava a acontecer com o Paulo, nem percebia bem o que ele queria de mim. Que ele gostava de putos, isso era certo, mas porquê eu? Eu não sou bonito como o namorado, não gosto de ser sustentado, não sou culto, não…

            Mas tenho pinta, foda-se… e gosto de agradar, simplesmente não sou do tipo ‘sim amor’, nunca fui nem nunca hei de ser.

            «Estou a andar de bicicleta. Longe, todo transpirado. Obrigado, mas hoje não dá» escrevi e enviei…

            Tive de me rir, o Duarte nem se atrevera a convidar-me depois da cena de ontem, ou então não estava com eles. Sobressaltei-me… se não estava com eles, estaria onde? Franzi o sobrolho… oh que porra, era mesmo o que me faltava agora…

            «O Paulo diz que vai ficar chateado contigo»

            Mas o que é que estes gajos queriam? Irra, meu… nem respondi.

Se fosse o Duarte ainda era capaz de hesitar, mesmo não gostando da ideia dele me pagar o almoço, agora o Paulo? Era giro e tudo isso, mas não era o Duarte… além disso tinha namorado. O Duarte já era de outra categoria, não era giro, era lindo, não tinha bom corpo, era podre de bom… tinha um ar fino e sofisticado, era muito simpático e tinha aquele seu sorriso que fazia um santo perder a cabeça… mas era de um nível muito acima do meu. Dera-me um beijo e tudo, mas aquilo nem fora bem um beijo, porra, fora quase um beijo de irmão ou isso…

Seria possível que não houvesse um homem que me quisesse?

 

            Atirei a bicicleta ao chão e fui-me sentar numa rocha na ponta da falésia, amuado. Claro que aquilo não era bem verdade… eu sabia bem que o Pedro tivera prazer comigo, tantos anos a procurar-me provavam-no; o não resistir-me quando era eu a procura-lo também o provava. Depois o Chico gostava de mim e só se envolvera e se apaixonara pelo Álvaro porque eu estava com o Pedro e ele era muito ciumento. O próprio Álvaro, apesar de andar com o meu melhor amigo, só não me saltou para cima porque eu nunca lhe dei espaço para isso. Agora o Paulo parecia estar a… nem sei bem o que ele estava a fazer, mas não era bem normal ter-se um namorado e ser-se tão simpático com outro gajo, pelo menos para mim não era normal; se calhar gostavam de números a três, mas não tinham hipótese nenhuma… nem eu gostava do Ricardo, nem ele gostava de mim, portanto… um número a três com o Álvaro e o Chico já podia ser um caso a pensar…

            O telefone tocou… o número era identificado, mas não o conhecia, nem estava na minha lista. Atendi.

            - Porque não vens almoçar? – o tom de voz era brusco… dasss…

            Era o Paulo… devia ser outro que não estava muito habituado a receber recusas, acredito nisso com facilidade; com aquele namorado que vivia às suas custas, devia estar habituado a ser tratado nas palminhas… fosse como fosse, não estava na lista das pessoas que me podiam falar assim.

            - Quem fala? – perguntei igualmente brusco

            - É o prior de Freixo de Espada à Cinta! – o tom tornou-se sarcástico e eu soltei uma gargalhada, não foi possível resistir

            - Como está, senhor prior? – lembrei-me duma fala qualquer, de um livro qualquer que tivera de ler quando andava na escola normal… ele às vezes era engraçado, era o tipo de homem que me podia dar a volta se não tivesse um namorado

            - Porque não vens almoçar? – repetiu num tom de voz mais doce, senti que estava a sorrir como eu – estou muito dececionado…

            - Eu juro que não percebo qual é a tua… já me dou suficientemente mal com o teu namorado para tu ainda provocares mais, não achas?

            - Coitadinho… isso é injusto… e tu prometeste que ias ser um doce comigo!

            - Eu? Quando é que eu te prometi isso?

            - Hoje de manhã.

            O meu coração deu um pulo e deve ter ficado outra vez entalado na minha garganta porque eu fiquei novamente sem conseguir respirar.

            - Estás aí Nuno? – pareceu-me sentir alguma ansiedade na sua voz, mas não devia ser maior que a minha naquele momento

            - Duarte? – perguntei a medo, sem saber bem o que pensar

            - Mais conhecido por senhor prior. – o tom de voz tornou-se brincalhão, devia estar a rir-se de mim

            Foda-se.

            - Porque é que me ligaste?

            - Porque quero saber porque não vens almoçar… já te perguntei duas vezes e continuas sem responder!

            Porra.

            No seu tom notava-se alguma impaciência. Era outro que também não devia estar muito habituado a ser contrariado.

            - É que eu não estou em casa, estou a andar de bicicleta, estou todo transpirado e… pronto… é isso…

            Calei-me subitamente, corando por aquilo me ter saído tudo em rajada e atabalhoadamente… ele punha-me nervoso.

            Já não sabia se queria, ou não, que ele percebesse o que me passava pela cabeça, aliás, nem devia ser preciso ser-se muito inteligente para perceber… mas o tipo intimidava-me e eu queria tanto que… eu estava a gostar daquilo… não era só lindo e podre de bom, era diferente dos outros, era diferente do Pedro, tinha o mesmo estilo… austero e distante, mas não ao estilo machão parolo como o Pedro, era mais ao estilo educado e confiante; superior e dominante, mas não ao estilo bruto, era mais ao estilo sofisticado e misterioso… não sei explicar bem…

            - Ouviste o que te disse?

            Estremeci.

            - Não. – confessei hesitante

            - Pode saber-se porquê?

            A sua voz tornou-se distante, um bocado fria.

            - Porque estava a pensar noutras coisas. – confessei fechando os olhos com toda a força… por favor, não fiques chateado!

            Fez-se silêncio por alguns segundos.

            - Estás bem?

            - Sim… correu tudo bem, fiz como disseste e depois fui tomar duche e disse que não queria almoçar com eles…

            Calei-me outra vez… mas que porra, porque é que ele me punha tão nervoso?

            - Então vem almoçar connosco…

            - Não, Duarte, obrigado, por favor não insistas…

            - Eu tenho ideia de te ter dito que não gostava de ouvir a palavra ‘não’…

            - Desculpa! – tive de me rir – mas não me apetece comer e estou longe de casa e todo transpirado…

            - E desatento porque não me estavas a ouvir! – o seu tom endureceu outra vez

            - Isso também.

            - Então vou-me repetir… – ele não parecia nada satisfeito – e vou tornar a dizer-te o que vais fazer… vais pegar na bicicleta e vais para casa… vais tomar um novo duche e depois vais tomar café connosco… pode ser? – falou com autoridade enquanto me explicava detalhadamente o que queria, mas o seu tom adoçou-se novamente no final, quando me perguntou se podia ser

            - Sim. – foi a minha resposta depois de engolir sem seco

            - Lindo menino! – a sua voz agora era só mel, doce mesmo – na esplanada da noite de ontem… está bem?

            - Sim. – repeti sentindo-me um perfeito imbecil

            Dasss… porque é que eu ficava assim com ele? Mesmo ao telefone? Isto não era normal.

            - Então até já!

            O tom despreocupado de quem está satisfeito por ter conseguido aquilo que queria. Fiquei a olhar para o mar de boca aberta e com a cabeça vazia…

Puta que pariu isto tudo, meu...

            E o pior disto tudo é que eu queria muito ir, queria ir ter com ele, estar com ele, queria sentir o seu olhar, queria ver o seu sorriso, queria olhar para ele… sabia bem que não me ia dar mais beijos, mas queria mesmo estar com ele, o homem era lindo ao ponto de uma pessoa perder a cabeça.

            Era impossível saber se ele estava interessado em mim ou não… às vezes parecia que sim, outras que não. Porque é que ele havia de me tratar assim se não estivesse interessado? Porque é que me havia de ter dado o beijo? Porque é que me havia de telefonar e… mas porque é que havia de estar interessado em mim? Eu bem via a forma como o Ricardo o olhava, até o Chico… sabia perfeitamente como me sentia ao pé dele, toda a gente se devia sentir como eu e ele devia estar mais que habituado a isso… de certeza que estava.

            Raios partam, porque é que só tenho coisas a lixarem-me a cabeça?

            Mas ia ver o que se passava, ia tirar aquilo a limpo e ia portar-me bem, estava decidido… ignorava as porcarias do Ricardo, as provocações do Paulo e ia resistir ao Duarte…

            Eu sou perfeitamente capaz de o tratar como se fosse uma pessoa normal… disse para mim próprio.

            Levantei-me e voltei a casa absolutamente decidido a acabar com aquilo de forma triunfante.

            Banho rápido mas cuidado, barba rapada ainda com mais cuidado, perfume, as calças de ganga na noite anterior, que eram as melhores e as mais justas que eu tinha, uma t-shirt castanha, a Helena dizia-me que eu ficava super bem com aquela t-shirt, que ficava bem de castanho. Olhei-me no espelho e gostei do que vi… não sou podre de bom, nunca fui, mas tenho o corpo bem definido e não achei que estivesse mal.

            Estava pronto.

 

            Saí a pé, calmamente para não transpirar. De minha casa ao centro do Meco era longe se eu seguisse pelas estradas, mas se fosse pelo meio dos quintais era rápido e não custava nada, além disso havia mais sombra. Senti o cheiro do meu perfume e comecei a stressar… tinha posto demais, parecia aquelas velhas peruas que entram num sítio e empestam o ambiente, nunca mais se consegue cheirar mais nada que o perfume delas… e ainda por cima eles podiam não gostar do meu perfume… e se eles não gostassem? Eram betinhos, sabiam dessas coisas, tinham perfumes caros e de marca.

            Parei com a cabeça a andar à roda. Pensei em voltar para trás e tomar outro duche.

            Porra, Nuno… até o meu cérebro estava a perder a paciência comigo.

            Era a história do anjinho e do diabinho, um de cada lado da minha cabeça, um a dizer-me para ser um bom menino, para ser discreto, para voltar para casa e tomar o duche… o outro a dizer-me para fazer uma entrada triunfante e ignorar as parvoíces, a dizer-me que se gostava do gajo e queria que ele reparasse em mim, então tinha mesmo de dar nas vistas. O diabinho venceu a disputa e eu decidi-me a continuar.

            E se eles não gostam do perfume e começam a fazer caretas de enjoo?

            Parei outra vez. Era um perfume de marca que custara uma fortuna no Natal… podiam não gostar, mas não havia razão nenhuma para eu sentir vergonha por cheirar assim.

            Sacudi a cabeça e tornei a arrancar, decidido a parar apenas quando chegasse à esplanada… para o inferno o diabinho e o anjinho e a puta que os pariu. Ia tirar esta merda toda a limpo e de uma vez por todas.

 

            Cheguei à esplanada cheio de confiança, mas essa confiança sumiu-se imediatamente quando vi o Paulo, o Ricardo, o Chico e o Álvaro… o Duarte não estava... foda-se!

            - Pareces desapontado por nos ver! – lançou o Paulo com o seu olhar inquisidor, tipo… “sei muito bem o que estás a pensar” – sem stress, Nuno, ele está lá dentro…

            Duplo foda-se… já perceberam todos e estão a rir-se de mim!

            E estava mesmo toda a gente a olhar-me e a sorrir. Tinham percebido mesmo o que eu estava a pensar, todos sabiam que eu estava apanhadinho pelo Duarte.

            - Quem?

Achei que estava reagir corajosamente apesar de saber que estava a corar como de costume. O Paulo revirou os olhos, fazendo um ar de… “olha, quem!?”; o Chico sorriu-me, cúmplice, parecendo apoiar-me na minha resistência; o Álvaro olhava-me curioso, parecia surpreendido e tinha razões para o estar, eu não costumava reagir assim com os homens que me apareciam à frente, sempre fora o Pedro e mais ninguém, geralmente não dava atenção nenhuma a quem se metia comigo; o Ricardo estava a ignorar-me, ao menos isso.

            - O prior! – ouvi atrás de mim… o meu coração deu um salto contra as minhas costelas e parou a seguir

            Voltei-me para trás e abri a boca. Não consegui disfarçar minimamente, nem sequer pensei nisso, o meu cérebro parou como de costume, o meu coração já estava parado, por isso… não consegui falar.

            - Olá outra vez, Nuno! – ele sorria-me – ainda bem que vieste…

            A sua voz a abraçar-me docemente, os seus olhos brilhavam, não sei se divertidos como habitualmente, se satisfeitos com a minha reação… se calhar as duas coisas juntas. Por mim não consegui dizer nada e só conseguia ter dois pensamentos… um era que ele estava barbeado, vestido com umas bermudas azuis que lhe assentavam divinamente e um polo vermelho justo, tapando mas ao mesmo tempo exibindo o seu peito forte e largo… fiquei sem fôlego… o outro pensamento foi que era bom ter ficado de costas para o resto do pessoal, assim pelo menos não podiam ver a minha reação de pasmo e de…

            - Atrasaste-te! – acusou ele – já tomámos café…

            - Não sabia que tinha hora marcada! – respondi nem sei bem como

            Os seus olhos cintilaram e a sua boca tremeu um pouco naquilo que quase pareceu um sorriso.

            - Tens razão, não tinhas hora marcada. – o sorriso surgiu finalmente – e queres café? Vou-te buscar um.

            - Não é preciso, obrigado, eu só tomo café de manhã. – consegui dizer depois de engolir em seco

            - Então ficas com esta água… toma, eu vou buscar outra para mim. – ele estendeu-me a garrafa e o copo que tinha na mão e eu agarrei-os sem saber de que outra forma reagir… sorriu-me, nunca desviara os olhos de mim e desta vez eu nunca conseguira desviar os olhos dele, devia ser hipnotizador, ou qualquer coisa do género – senta-te aí! – disse aquilo num tom doce mas autoritário, que não dava espaço para uma recusa da minha parte

            - Lindo menino! – lançou o Ricardo usando a expressão que o Duarte dissera ao telefone…

Franzi o sobrolho, tal como o Paulo fez ao ouvir o comentário do namorado e fiz-lhe cara feia… uma coisa era o Duarte dizer-me aquilo, ele era deslumbrante e eu estava de cabeça à banda com ele… outra coisa muito diferente era esta bosta estar a gozar comigo, devia ser a vingança pelo que eu lhe dissera na noite anterior, mas estava guardado para mim.

            - Foste andar de bicicleta com este calor? – perguntou o Paulo um bocado apressadamente… viu-se bem que queria desviar a minha atenção

            - Fui. – respondi deitando água no copo até este ficar meio e depois bebendo-o de um trago, mas não foi possível disfarçar, a tensão notava-se bem e eu ainda agora chegara e já estava aborrecido… aquele Ricardo era um perfeito anormal… dasss…

            - Que foi? – o Duarte chegou com a sua água e sentiu imediatamente o ar pesado… sentou-se e olhou em volta, acabando por se fixar em mim.

            É claro que me viu de sobrolho franzido a olhar o Ricardo, que agora parecia muito concentrado a sacudir um grão de pó imaginário da perna… claro que percebeu que devia ter havido uma troca de galhardetes entre nós, já o vira antes.

            - Estava a perguntar ao Nuno como é que ele conseguiu ir andar de bicicleta com este calor. – o Paulo fez um esforço para parecer despreocupado, mas vi-o bem a apertar a perna do namorado para o controlar ou não sei… eles estavam sentados nos bancos de pedra, num ‘L’ em torno da mesa e eu estava numa das cadeiras de realizador do outro lado, portanto mais alto e dando-me uma boa visão do que se passava

            - Gostas mesmo de transpirar, não é? Não te chegou a corrida?

            O tom do Duarte era uma deliciosa provocação, ele sabia dar um duplo sentido às frases mais triviais, tornando-as excitantes, mas eu já estava aborrecido e estava quase imune, até a ele. Encolhi os ombros e levei o copo à boca sem lhe responder… os seus olhos faiscaram e tive a certeza absoluta que desta vez não gostou da minha reação.

            Vi o Chico de olhos esbugalhados a olhar para mim e não percebi o que lhe poderia estar a passar pela cabeça… o Álvaro tinha o seu ar de gozo habitual, ao menos esse estava normal, nunca falhava; tranquilo como sempre, estava-lhe tudo a passar completamente ao lado e exibia o ar atento e descontraído de quem está muito contente a assistir a uma novela na televisão ou qualquer coisa do género.

            - Estás bem, Nuno? – o olhar do Duarte era penetrante – aquilo correu mesmo bem?

            - Sim. – relaxei um pouco – correu como previsto…

            - Vês? – piscou-me o olho e eu senti-me melhor

            - Que íntimos, dá gosto ver! – o Ricardo parecia em polvorosa

            Foda-se meu, não és mesmo capaz de manter a boca fechada…

            Ainda estava a pensar no que lhe havia de responder quando o Duarte se virou para ele a deitar chispas pelos olhos… achei que o que não me dissera a mim, ia soltar em cima do tipo… o olhar ‘matador’ e o tom de voz mais frio e duro que eu ouvira.

            - Qual é o teu problema, Ricardo? Tu gostas de provocar, não gostas?

            - Eu? – o outro abriu os olhos bem abertos

            - Sim, tu! – o Duarte foi agressivo – agora gostava de perceber qual é o teu problema… se estás apaixonado pelo Nuno, se o teu problema é o Paulo gostar de se meter com ele… ou se és simplesmente uma cobra venenosa…

            O outro não respondeu… calou-se parecendo em choque.

            - Eia Duarte…

            - Nem abras a boca, Paulo! – o tom do Duarte era seco e levantou logo a mão para interromper o amigo, parecia irritado – se não tens controlo sobre ele, não tens controlo sobre ele e pronto, ninguém te leva a mal por isso, agora se ficas calado quando ele solta o seu veneno, ficas calado em todas as circunstâncias!

            Fiquei de boca aberta… eu detestava aquelas coisas…

            - Então e a praia estava boa? – perguntei de repente, eu não gostava mesmo nada daquelas cenas

            - Muito boa, divertimo-nos muito! – disse logo o Chico – foi uma pena não teres vindo…

            - Pois foi. – o Duarte virou-se para mim também, ainda se notava a irritação no seu tom, mas conseguiu sorrir – porque é que não foste se aquilo correu bem?

            - Não me apeteceu! – disse consciente que não era a resposta certa, o franzir de sobrolho do Duarte mostrou-me que eu tinha razão nisso – estive a ouvir música e a acabar a massa do pão, amanhã vamos cozer uma fornada para a semana… depois fui andar de bicicleta para extravasar…

            - Cozes pão? – o seu olhar tornou-se curioso, aquilo surpreendera-o

            - Sim! – respondi-lhe – tenho de ajudar lá em casa…

            - Que lindo menino… ajuda os pais…

            Aquilo devia ser mais forte que ele. O tipo devia ter algum tipo de compulsão… por mim tive vontade de me levantar e espetar um murro naquela sua cara de anormal. Aquilo atingira-me em cheio, falarem nos meus pais era das poucas coisas que me desarmavam e o Duarte viu-o bem. Virou-se para o Ricardo furioso…

            - Ele não tem pais, Ricardo, o teu veneno chegou ao ponto de se tornar cruel! – o outro abriu a boca, estremecendo – agora fica a saber uma coisa, se voltares proferir uma palavra à minha frente, levas um par de estalos aqui mesmo… fui claro?

            Ele falou com uma calma que me deixou boquiaberto, com um tom que me gelou. O outro inspirou profundamente e ficou de respiração suspensa.

            - Fui suficientemente claro, Ricardo? – insistiu autoritário… eu senti-me mal…

            - Também não é preciso…

            - É preciso sim, Nuno! – levantou a mão para me calar mim também, o seu tom continuava brusco, apesar de ligeiramente mais suave comigo – e eu bem vi, ele gosta de te provocar, mas agora ultrapassou os limites aceitáveis, ele que engula o seu veneno…

            - É melhor eu ir-me embora…

            O Duarte virou-se diretamente para mim. Os seus olhos eram uma trovoada de relâmpagos ameaçadora. Agora também já estava irritado comigo.

            - Não mexes um dedo sequer! – disse com a mesma calma super intimidante – ficas aí sentado, quieto e calado, se fazes favor, entendeste bem?

            Abri os olhos de espanto e engoli em seco… eia, meu… continuava lindo à mesma, parecia que ainda era mais excitante zangado, mas ele não tinha nada de me falar assim… e não gostei, não gostei mesmo… e além disso estava demasiado enervado com tudo para me deixar pisar mais… a frase a seguir fez-me perder o controlo.

            - Quietinho!

            Estremeci… mas eu sou algum cão ou quê?

            - Senão o quê? Dás-me um par de estalos a mim também?

            Tenho perfeita consciência que fui bruto e que fui desafiador, sei que o fui mesmo, fiz de propósito e mantive o olhar, sabia que também estava de sobrolho franzido… já não estava era a gostar daquela merda. Todos os olhos se fixaram nele e pude ver um conjunto de emoções que ele não conseguiu disfarçar, nem sei se tentou… apanhei-o desprevenido, mas foi um segundo apenas, rapidamente a surpresa desapareceu do seu olhar para ser substituída por um novo lampejo de fúria… os seus olhos faiscaram ferozes e recebi o olhar ‘matador’ antes de os ver brilharem de excitação logo a seguir… foi isso mesmo, pura excitação, sei bem ver isso num homem… mas que porra?

            - Não faço semelhante coisa! – disse calmamente e com um sorriso que mal se viu – agora eu quero-te aqui comigo e portanto, se te fores embora terei de ir atrás de ti…

            - E porque é que havias de fazer uma coisa dessas? – acalmei-me logo, mas continuei de sobrolho franzido…

Eu gosto de ti, meu, mas tu não mandas em mim!

            Os seus olhos pareciam devorar a minha reação…

            - Repito… quero-te aqui comigo e vou atrás de ti… não consigo imaginar qual possa ser o resultado de uma cena dessas numa aldeia deste tamanho…

            Abri a boca pasmado… nunca me tinham falado assim. Ele falou num tom baixo, mas perfeitamente claro; era um tom duro, mas super sensual. O seu olhar era autoritário e tudo aquilo era ao mesmo tempo uma ameaça velada e uma promessa super excitante… juro que nunca me tinham dito nada parecido, nem que tivesse em mim o mesmo efeito…

            - Isso é uma promessa? – ainda tentei combater e parecer petulante, mas já tinha a cabeça completamente a andar à roda

            - É mais que isso, Nuno, é uma garantia… como vives aqui e toda a gente te conhece, eu no teu caso optaria por permanecer sentado…

            Percebi que ele me tinha vencido uma fração de segundo antes dele e ainda vi o brilho de triunfo nos seus olhos, antes de desviar os meus… peguei novamente no copo e bebi mais um golo, olhando o Chico e odiando-o por ele estar a sorrir… amigos de merda!

 

            Fiquei todo lixado com aquilo, fiquei mesmo… com o anormal do Ricardo, com o Paulo, com o Chico por se estar a rir, com o Álvaro por também não ter dito nada… e fiquei mais ainda com ele, por não me ter deixado ir embora, por… senti-me a amuar, não consegui resistir, estava ferver e não era no bom sentido.

Mas que porra!

            Sentia o seu olhar frequente, mas nunca me disse nada, nem sequer tentou envolver-me na conversa. Não o olhei uma única vez, nem abri a boca, mas via bem que ele me mantinha controlado, isso era flagrante, mantinha-me debaixo de olho, mas não me forçou a intervir como me forçara a ficar. Passou-se mais de meia hora. Os outros falavam normalmente sobre a nova subida do gás, mas eu não disse nada e, apesar de já começar a ficar aborrecido, o meu consolo era que o Ricardo parecia tão amuado como eu.

            Sobressaltei-me com uma ideia súbita…

            Foda-se, o Ricardo é que tem obrigação de aguentar estas merdas, ele é que é sustentado pelo namorado e tem que comer e calar… eu não… ele não gosta que lhe digam que não… temos pena!

            O Duarte olhou imediatamente para mim, inquisitivo, estava mesmo atento, vira-me agitar-me e tentava perceber o que se passara. Eu peguei no copo de água e bebi o resto… depois peguei na garrafa e fingi concentrar-me a ler o rótulo. Era isso mesmo… o que é que estava a acontecer comigo? O que é que eu estava ali a fazer? Ele era deslumbrante e podre de bom, mas não era meu namorado, não me sustentava e decididamente não mandava em mim… não que eu me importasse muito se ele quisesse mandar em mim… o que se passava era que ele tinha uma merda de um efeito em mim que me deixava paralisado e incapaz de pensar, isso é que era a verdade, mas não passava disso… nem sequer percebi o que ele queria de mim… queria-me saltar para cima? Fogo, bastava dizer, não era preciso aquela merda… ou estava à espera que eu lhe pedisse? Se calhar era isso, estava à espera que eu fosse atrás a pedir…

Pois podes esperar sentado, cabrão!

            - Queres mais? – ouvi

            - Não obrigado. – respondi, tentando não parecer demasiado amuado

            - Vou buscar outra e dividimos. – disse simpaticamente, sorrindo de olhos fixos nos meus penetrantemente, estava a adivinhar-me o pensamento? Duvidava muito, se estivesse não me sorria e ainda menos tinha acabado por se levantar para entrar no bar.

            É mesmo isso, porra… ele sorri e eu fico abananado a olhar para ele, deu-me um beijo e eu fiquei caidinho por ele? Há mais homens…

            - Eu vou-me embora! – disse levantando-me assim que ele desapareceu e não tinha hipótese de me ver

            Olhou-me toda a gente com uma expressão perplexa, até o parvalhão do Ricardo… quase tive vontade de rir…

            É isso mesmo, abelhas, eu não sou nenhum sustentado, não tenho de comer e calar… já fiz isso tempo demais, já chega!.

            - Até logo!

            Virei-lhes as costas, desci as escadas rapidamente e afastei-me dali. Primeiro a andar a passo largo até à esquina e depois a correr para desaparecer dali o mais depressa que fosse possível. Eu não conhecia o outro e não sabia como ele ia reagir, mas parecia demasiado mandão para… podia não fazer nada e estar a gozar, afinal parecia que se divertiam a gozar comigo, mas não queria arriscar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 4 (conto gay)

ver início - cap1


4 – Domingo, 9/6


            Assim que abri os olhos precisei apenas de um segundo para me lembrar da noite anterior… olhei para o despertador em pânico… 7h11… estava atrasadíssimo.

            Saltei da cama e corri para a casa de banho acenando ao meu avô que me olhou como se tivesse visto um fantasma. Ao fim de semana não me costumava levantar tão cedo. Duche a correr, escovar os dentes, passar a escova no cabelo e corri novamente para o quarto. Desta vez deparei também com a minha avó…

            - Vais esperar o Pedro? A tua tia só sai daqui às oito e meia…

            - Quem? – juro que a minha cabeça estava longe dali, por um momento emburreci – oh não, ‘vó! Vou correr. – dei-lhe um beijo e contornei-a, a rir por a ter deixado de boca aberta…

            - Vais onde? – ela seguiu-me para o quarto

            - Vou correr com um amigo do Chico que está aqui a passar o fim de semana e combinámos às sete e meia por isso estou atrasado… queres ver-me nu?

            - Correr! – bufou virando as costas e saindo a barafustar – era só o que faltava agora, tu dares em corredor… ouviste isto, Henrique? O teu neto vai correr…

            Vesti-me a rir e saí de casa… sempre a correr… nada nas mãos a não ser 1.20€ para os cafés.

 

            Ele já lá estava, sentado na esplanada à minha espera. Deslumbrante, mas isso não é novidade. Os mesmos calções, mas uma t-shirt lavada, tal como eu. E adorei a forma como me olhou, adorei mesmo; os seus olhos subiram e desceram por mim enquanto me aproximava pondo-me a cara a ferver. Acenei-lhe timidamente, um bocado desconcertado com a sua expressão atenta a mirar-me.

            - Olá… chegaste há muito tempo?

            - Bom dia, Nuno! – ele sorriu-me também, aquele sorriso que quase me tirava a capacidade de pensar – cheguei há uns minutos… dormiste bem?

            - Muito… já tomaste café? – perguntei não vendo nenhuma chávena

            - Não trouxe dinheiro! – ergueu as mãos e adorei ver a sua face tomar uma expressão provocadora, pareceu um garoto, ainda não tinha visto aquela cara – prometeste que mo pagavas. – acrescentou

            - E cumpro… espera… – levantei-me satisfeito e fui pedir os cafés ao Sr. Roberto

            De regresso novamente o seu olhar de análise, fixado principalmente nas minhas pernas.

            - Não fazes depilação? – comentou – gosto disso.

            - A sério? – olhei para as dele, grossas, másculas e sem um único pelo visível – mas tu fazes.

            - Gosto de pelos nos outros, não em mim. – disse encostando-se na cadeira a observar-me – gosto das tuas pernas…

            Estremeci de prazer e corei outra vez, mas consegui sorrir-lhe tentando disfarçar que estava atrapalhado. Ele estava-se a atirar a mim? Ou aquilo era um comentário inconsequente?

            - Costumas correr todos os dias? – perguntei sem saber bem o que dizer, sentia-me intimidado por ele e pela forma como me olhava… dali a pouco estava a falar do tempo… que nunca mais vinha o calor e não sei quê…

            - Todos os dias! – confirmou fixando os olhos nos meus – geralmente na passadeira, mas quando tenho hipótese gosto de correr ao ar livre… e tu?

            - Eu só corro quando estou com a neura.

            - Não é o caso de hoje, pois não? – fingiu-se desconfiado

            - Não. – ri estendendo as moedas ao homem que pousava os cafés à nossa frente – aqui tem, Sr. Roberto, obrigado!

            - Já vais para a praia, Nuno?

            - Acha? – ri-me – é muito cedo, vamos correr.

            O homem olhou-nos como se fossemos doidos, mas não disse mais nada senão um ‘fazem muito bem’.

            - Não ficou muito impressionado. – comentou o Duarte com um sorriso cúmplice, piscando-me o olho

            - Não! – ri-me outra vez gostando da sua expressão – fez a mesma cara da minha avó quando lhe disse.

            - Tens um sorriso muito bonito, Nuno… ilumina-te o rosto!

            Estremeci desconcentrado e sentindo-me logo a ficar vermelho, não estava à espera daquela mudança brusca de assunto.

            - Oh… obrigado! – balbuciei assarapantado

            - Não reages muito bem a elogios, pois não? – perguntou intrigado

            - Não estou muito habituado. – confessei sentindo a cara a ferver… era verdade

            - Estranho. – pareceu surpreendido – nem o teu ex? Pensei que…

            - Não, nem ele! – abanei a cabeça – ele menos que toda a gente…

            - A sério? – o espanto agora era flagrante – porquê, posso saber? Tu sabes?

            - Não sei bem, não era o estilo dele…

            - Mas nem um carinho, um miminho?

            - Às vezes, mas não muito… ele não é gay… quer dizer, não sei bem, ele diz que não é… e casou… era tudo às escondidas e… pronto, um bocado à pressa.

            Senti-me atrapalhado, não estava à espera daquelas perguntas.

            - Compreendo. – disse pensativo – é estranho…

            - É um bocado… – encolhi os ombros

            - Por um lado é estranho que ele fosse assim contigo, que não te fizesse mimos, não acho natural gostar de alguém e não lhos querer fazer… ainda a mais a ti que… – vi o seu maxilar pulsar na sua cara por uns momentos, estava a cerrar os dentes consecutivamente – mas também acho estranho que tu te tenhas apaixonado por um homem assim!

            - Assim como?

            - Frio!

            O seu olhar estava a sugar-me o cérebro… porra, estava mesmo e eu quase que o sentia… juro que nunca tinha visto uns olhos fazerem aquilo, pelo menos a mim não… ele ainda era pior que a minha avó.

            - Ele não era sempre assim…

            - Claro que não, de certeza que tinha momentos em que compensava, toda a gente os tem, por muito má que seja…

            - Tinha. – sorri, sentindo-me um bocado constrangido por ter a certeza que ele percebia muito bem que me perturbava, que me intimidava, que me estava a deixar doido

            - Mas surpreende-me que, parecendo tão rebelde, tu permitisses uma coisa dessas… – ele sorriu também, mudando de assunto, tentando desanuviar o ambiente

            - Eu não sou rebelde.

            - Não? Tens a certeza?

            Ele estava a brincar com a chávena do café e olhou-me de lado, sem me encarar frontalmente… oh, meu… tinha um sorriso provocador, que era super sensual… fiquei sem saber o que dizer uns segundos, até não aguentar e ter de olhar para a minha própria chávena.

            - Tenho! – disse baixinho tentando parecer mais confiante do que me sentia… aquele tipo perturbava-me e por incrível que parecesse, eu não queria estar em mais lado nenhum

            - Eu ainda não consegui decidir… mas não acredito que suportasses ser maltratado, por isso imagino que ele não te tratasse mal…

            - Não… desde que eu fizesse o que ele queria. – encolhi os ombros

            - Como assim? – vi-o arquear as sobrancelhas surpreendido

            - É um bocado mandão… também não gosta muito que lhe digam que não…

            - Também? – a sua expressão desaparecera, não se via nada, não se percebia o que estava a pensar, só os seus olhos é que brilhavam de uma maneira que pareciam estar a perfurar-me a cabeça

            - Como a minha amiga Elsa ontem… – disfarcei, mas depois enchi-me de coragem e completei o raciocínio – e tu também disseste que não gostavas que te dissessem que não!

            Comprimiu os lábios numa espécie de sorriso.

            - Não gosto muito, é verdade… mas de que amiga estás a falar? Da que andou contigo ao colo, ou da outra?

            - Da Elsa, a outra é uma namorada recente, ainda não a conheço bem!

            - A que disse que estavas cada vez mais giro…

            - Sim… conhece-me há muitos anos, viveu com uma outra namorada numa casa que os meus avós alugam e eu gostava de ir ter com elas porque a Elsa tinha muita paciência para mim… e pagava-me gelados…

            - Ah, claro… com ela não tens problema que te pague coisas…

            - Não. – ri-me sem dizer mais nada… ainda pensei mandar a boca que ela nunca me tinha atirado à cara os gelados que me pagava, mas achei melhor não o fazer

            - Compreendo… vou ter de me concentrar para ver se consigo chegar a esse nível… queres ir andando, é?

            Ele vira-me a olhar para o seu relógio. Eram oito horas e dali a pouco os meus tios deviam sair para ir buscar o meu primo ao aeroporto… eu não queria estar ali quando isso acontecesse.

- Sim, vamos.

            Ele levantou-se imediatamente. Apontou para a chávena…

            - Obrigado pelo café, Nuno!

            Sorri-lhe atrapalhado, mas fiquei satisfeito com o que disse… com as suas palavras e com o seu olhar.

 

            Caiu-me tudo quando vi o meu tio em frente de casa a fumar um cigarro. Já? Eu já devia ter imaginado que eles já estavam em polvorosa bem antes das oito e meia… já estava o carro à porta, já estava tudo pronto para irem para o aeroporto. Ele estava à espera que a minha tia se despachasse. Bem o vi olhar-me de boca aberta.

            - Bom dia, tio! – cumprimentei de dentes cerrados quando passámos, consegui olhá-lo mas foi com grande esforço e sentindo a cara a ferver… era aquilo que eu devia ter evitado

            Pus-me logo a imaginar os comentários… deviam ir a viagem toda até Lisboa a debater o sobrinho a correr com um homem desconhecido… mas que porra. E depois se calhar ainda comentavam com o Pedro… mas não, deviam ter outras coisas de que falar para além de mim.

            - Estás bem, Nuno?

            Assustei-me.

            - Sim. – respondi esforçando-me para sorrir normalmente

            - Não pareces nada… que foi? Não querias que o teu tio nos visse?

            - Não. – confessei muito francamente

            - Tiveste vergonha de ser visto comigo? – a sua expressão era de surpresa

            - Não. – respondi percebendo bem que não estava a conseguir ser muito convincente – ele daqui a pouco já nem se lembra… vão buscar o meu primo ao aeroporto…

            - Ah sim, foi de férias?

            - Chega hoje de lua-de-mel.

            - Que bom! – fez-se silêncio um minuto – como o teu ex?

            Senti-me a corar imediatamente, mas a corar mesmo… porra, ele ia perceber, de certeza que ia… cerrei os dentes com mais força e fechei os olhos por um segundo quando ele parou de repente… foda-se!

            Quando parei também e olhei para trás ele estava de sobrancelhas arqueadas em absoluto assombro.

            - O teu primo e o teu ex são a mesma pessoa, ou é coincidência?

            - Não quero falar nisso! – disse sem o conseguir encarar – por favor…

            Fez-se um silêncio que me obrigou a olha-lo outra vez… só nessa altura tornou a falar…

            - Muito bem… respeito isso. – recomeçou a correr e eu segui-o ao mesmo passo – isso quer dizer que vais ter uma manhã ocupada na receção do casal feliz… ou pelo contrário queres desaparecer dali e ir para a praia connosco?

            - Nem sei bem… ainda não tinha pensado nisso. – confessei com o coração a bater rapidamente

            - Não tens problema em vir para a praia connosco ou tens?

            - Não… mais ou menos… eu não gosto do Ricardo.

            - Claro que não, isso percebi logo ontem! – riu-se – ninguém gosta muito do Ricardo!

            - É um bocado parvo!

            - O Paulo gosta dele e é quem tem de gostar… os amigos são forçados a fazer um esforço e tentar tolerá-lo…

            - Pois, mas eu não sou amigo do Paulo… conheço-o por causa do Chico, mais nada…

            - Ah sim? Eu pensei que… como ele fala sempre muito bem de ti e pela maneira como se mete contigo, pensei que fossem mais… próximos!

            Olhei-o percebendo a sua hesitação, mas ele manteve-se concentrado no caminho e não retribuiu o olhar. Estaria a pensar que nós?

            - O Chico é que foi para a cama com ele, eu conheci-o depois disso e agora que… pronto, que estou sozinho, ele tem um namorado e eu não me meto no meio de gente comprometida…

            Foi impossível perceber a sua expressão, mas ele falou naturalmente.

            - Muito bem, concordo com isso… – começou, mas calou-se estancando de boca aberta quando chegámos à beira da falésia e ficámos com a praia e o mar à nossa frente – oh, caramba!

            Eu tinha feito de propósito, controlando a volta para que aquela vista surgisse de repente e de forma inesperada. Teve o impacto que eu queria e ele ficou a olha-la durante uns segundos, siderado… a praia aos nossos pés, a imensidão do mar à nossa frente…

            - Gostas? – sorri deliciado

            - Muito! – respondeu imediatamente

            - É um dos sítios para onde venho pensar… quando corro depois fico sempre aqui um bocado. – expliquei sentando-me na minha rocha

            - Um bom sítio para meditar, realmente. – ele sentou-se ao meu lado a olhar o mar – é o teu sítio secreto?

            Encolhi os ombros a rir.

            - Mais ou menos… eu gosto de vir para aqui para estar sozinho…

            - Mas trouxeste-me cá! – os seus olhos brilhavam de prazer

            - Já que íamos passar aqui perto… quis mostrar-te…

            Ele virou-se para mim, observando-me atentamente. Senti-me a corar outra vez.

            - Sabes, Nuno, tu não és nada daquilo que eu estava à espera…

            - Não? – tentei perceber se era melhor ou pior, mas o seu rosto não me mostrava nada… odiava que ele fizesse aquilo

            - És confuso… às vezes és provocador, rebelde e respondes muito duro, mas outras pareces realmente o doce que o Paulo diz que és…

            Sorri.

            - Sou agridoce, como a sopa do chinês!

            Ele riu-se.

            - Se calhar é isso, mas confundes-me…

            - Eu? – tive vontade de rir também

            - Sim, tu… por um lado ouvi o Paulo e o teu amigo Chico comentarem que eras um doce, muito simpático e agradável… até um bocado submisso para com o teu ex, fazendo tudo o que ele queria… tu próprio confirmaste isso agora… mas por outro lado, quando chegaste ao pé de nós disparaste farpas em todas as direções…

            - Não me estavam a provocar? – defendi-me

            - Estávamos. – mordeu o lábio para não se rir… adorava que ele fizesse isso, ficava super sexy – portanto pensei que eras mesmo um doce com o recheio amargo, rebelde e provocador… mas depois foste aos arames quando aumentei a parada e não te aguentaste… vi muito bem que ficaste chateado e magoado comigo.

            - Não foi justo! – franzi o sobrolho

            - Eu sei que não, mas não estava à espera de fazer tanta mossa…

            - Ah não?

            - Não… estava à espera que te aguentasses…

            - Fogo… atirares-me à cara que me pagaste um café? Eu não sou como o Ricardo, se é isso que estavas a pensar… se não tenho dinheiro não bebo, temos pena, mas não estou à espera que me paguem…

            - Eu percebi isso tarde demais… mas já resolvemos isso, não já? – ele fixou-me com a cabeça de lado, atento, inquiridor

            - Já. – acabei por responder quase sem hesitar… claro que já tínhamos resolvido aquilo, eu estava apanhadinho por ele…

            - Ótimo! – sorriu novamente – eu gosto das coisas assim…

            A minha cabeça só pensava numa coisa… ele estaria mesmo interessado em mim?

            - Eu não sei mesmo o que hei de pensar sobre ti… por um lado és um doce, mas nem por isso e eu já provei o teu recheio amargo, mas por outro também não és exatamente um rebelde durão como eu pensei inicialmente, porque te magoei quando fui mais duro contigo… e à noite a tua amiga tomou conta de ti e tu parecias um cordeirinho atrás dela…

            - Não conheces a Elsa! – voltei a sorrir – não é do tipo a quem se possa dizer que não…

            - Percebi isso e agora disseste o mesmo do teu ex… que te tratava bem desde que fizesses o que ele queria… isso não é exatamente a postura de um miúdo rebelde e independente, pois não? Se fosses realmente rebelde não te interessavas por um gajo que mal te tocava e que era frio contigo…

            - Não… eu sei… mas também nunca disse que era rebelde, pois não?

            - Não, pelo contrário… mas tens momentos de rebeldia que eu bem os vi, tal como também vi a tua expressão ontem quando a tua amiga estava a falar contigo de dedo espetado na tua cara.

            - Quando ela está assim é melhor fazer o que ela quer. – sorri

            - Portanto és um rapaz de contrastes, não és? Por um lado és forte, rebelde, provocador… por outro és doce, pareces frágil e até tens momentos em que podes ser considerado um bocado submisso.

            - Submisso? – outra vez aquela palavra… eu já a tinha ouvido, mas não sabia bem… – o que é que isso quer dizer?

            Os seus olhos relampearam, eu vi-o bem…

            - Submisso é alguém que se submete à vontade de outra pessoa… faz o que lhe mandam e esforça-se por agradar… enfim, que é um doce…

            Pensando bem no assunto, eu talvez fosse um bocado assim, era verdade…

            - Depende das pessoas, não é? – olhei-o, mas não consegui aguentar, os seus olhos estavam atentos à minha reação e estavam a querer sugar-me os pensamentos – a minha avó sempre foi um bocado assim… depois a Elsa também, mas duma maneira diferente, era brincalhona e sei que gosta muito de mim, mas saltava-lhe logo a tampa se eu me esticasse mais um bocado… e o Pedro também é assim… não gostava que eu fizesse certas coisa e passava-se logo comigo…

            Ele estava a sorrir com a minha atrapalhação… desta vez não achei muita piada.

            - Foste habituado a andar em pezinhos de lã, como se diz, não é?

            Ele sorria simpaticamente e eu acabei por me rir com a sua expressão. Ele conseguia acalmar-me com o seu olhar.

            - É um bocado, sim… eu queria que gostassem de mim e habituei-me a ter cuidado… acontece com toda a gente, não é?

            - Suponho que sim… mas falas sempre dos teus avós… e os teus pais?

            Há muito tempo que isto não me acontecia… e tanto tempo depois continuava a engolir em seco, mesmo não sentindo realmente a sua falta.

            - Já não existem. – respondi baixinho, fixando os olhos no oceano

            - Oh Nuno, desculpa! – consegui encará-lo e percebi bem que ele estava tão constrangido como eu – sinto muito, não fazia ideia…

            Encolhi os ombros tentando parecer indiferente, mas sabia que era impossível, tive perfeita consciência que o meu sorriso saiu amarelo. Era sempre assim.

            - Nunca os conheci, por isso não sinto muito a falta, não é? – olhava o mar e arrepiei-me todo quando senti a sua mão na minha nuca… o meu corpo reagiu imediatamente e a minha cabeça inclinou-se sobre o seu braço em busca da carícia, ou do apoio, não sei bem, mas aconteceu antes de eu ter percebido que o estava a fazer

            - Desculpa ter trazido esse assunto à conversa, não fazia ideia… estás bem?

            - Sim. – olhei-o e ele sorria-me… aquele sorriso que lhe iluminava os olhos de uma forma que os tornava doces

            - Sabes que eu gosto deste Nuno? – fez-me uma carícia no queixo – e até o prefiro ao Nuno de ontem…

            - Não me provoquem! – resmunguei esforçando-me por parecer mais forte do que me sentia… senti que ele percebera bem, mas não disse nada nesse sentido

            - Mas eu gosto de te provocar… eu também gosto de ver o Nuno feroz e gosto de correr o risco de sentir o recheio amargo.

            - Tu é que sabes. – ri-me outra vez dscontraindo um pouco… nunca me tinham dito nada assim… dois Nunos, onde é que já se ouviu isso?

            - Mas agora que somos amigos… se eu te voltar a magoar diz-me e acredita que, se peço desculpa é porque sinto vontade disso, não quero que fiques zangado comigo.

            - Está bem.

            - Agora tinha sido uma boa altura para dizer ‘sim senhor’… gostei quando o disseste ontem de manhã.

            - Sim senhor! – disse-lhe com o meu melhor sorriso

            Ele ficou a olhar-me por um momento e aquela expressão na sua cara era nova, parecia encantado e os seus olhos brilhavam intensamente.

            - Gostei que o dissesses assim, Nuno, obrigado…

            O meu sorriso aumentou… és tão lindo, meu… digo o que quiseres…

            - Gostas mesmo que te digam isso, não gostas? – perguntei curioso – que te digam ‘sim senhor’?

            - É verdade. – admitiu apesar da sua expressão facial não demonstrar o que estava a pensar – achas estranho?

            - Não sei bem…

            - E gostei da maneira como o disseste… quero fazer uma coisa, Nuno, fecha os olhos. – curvou-se na minha direção, apoiando os cotovelos nos joelhos – fecha-os!

            Eu fiz o que ele pediu e o meu coração disparou na expetativa do que iria acontecer… senti-o aproximar-se e senti o seu hálito na minha cara, senti os seus lábios nos meus por um segundo e senti a pressão no meu lábio inferior, puxando-o quando se tornou a afastar… eu fiquei suspenso no momento, sem respirar, até automaticamente passar a língua para sentir melhor o seu sabor.

            Wow, meu…

            Abri os olhos e encontrei os dele. Pareciam o farol do Cabo Espichel.

            - Porque é que fizeste isso? – senti a voz falhar-me

            - Porque me apeteceu muito…

            - Porque é que me pediste para fechar os olhos?

            - Porque não queria que visses, queria só que sentisses… e não queria correr o risco de me recusares…

            - Achas que eu fazia isso?

            - Não sei… fazias?

            Foi impossível aguentar aqueles olhos, mesmo de dia quase que me cegavam…

            - Não. – respondi baixinho

            - Ainda bem que não… sabes que não consigo formar uma opinião sobre ti?

            - Sou misterioso! – gozei

            O seu sorriso tornou-se trocista por um momento.

            - Não nesse sentido, mas a verdade é que penso que sei como vais reagir e tu não fazes nada do que eu estava à espera… surpreendes-me.

            Encolhi os ombros em saber o que dizer… aquilo era bom ou mau?

            - Vamos para cima? – perguntou-me, erguendo-se com um sorriso nos lábios

            Fiquei vidrado por um segundo nas suas pernas, vendo os músculos fletirem-se quando ele se levantou, mas segui-o logo, levantando-me também e correndo lentamente ao seu lado de regresso à civilização. Eu não sabia bem o que pensar daquilo tudo, principalmente do beijo, mas conseguia pensar muito bem numa coisa muito simples, por mim tinha ficado a manhã toda ali no pinhal só com ele, por mim ele podia ter feito bem mais do que dar-me um beijinho mínimo… que soube bem, mas soube a pouco… soube a muito pouco.

 

            Fizemos o caminho de regresso em silêncio. Não sei bem porquê, mas ele devia estar a pensar e eu achei melhor não dizer nada, até porque a minha cabeça começou a vaguear também. Ele beijara-me. Podia não ser nada, mal se podia considerar um beijo, mas era sim, era um beijo carinhoso… nada de extraordinário, nada de muito excitante, não fiquei a ferver, mas fora um beijo e eu adorara que o tivesse feito, que mo tivesse dado. E depois a sua conversa. Tinha dito que gostava mais de mim assim… submisso… tinha de ir ao Google ver o que é que aquilo queria mesmo dizer… um tipo que se submete à vontade do outro? Eu à vontade dele? Porra, onde é que assino? Fizera isso toda a minha vida, com a minha avó, com o Pedro, porque é que não havia de o fazer com um gajo daqueles, deslumbrante e podre de bom?

            Descontrolei-me e a minha mente concentrou-se na imagem das suas pernas a correr à minha frente, grossas, bronzeadas, rapadas… o Pedro tinha muitos pelos… eu até gosto, mas também gosto assim… e os músculos duros quando ele fez força para se levantar, viram-se todos… porra, adorava ter-lhes tocado… o que eu não dava só para ter passado a mão…

            Sacudi a cabeça… orienta-te, meu… já estás a alucinar.

            - Foda-se! – exclamei sem me conter e sem conseguir pensar no que quer que fosse senão na visão do carro do meu tio a aparecer…

Que pontaria, meu!

            - Que foi? – perguntou logo o Duarte surpreendido, mas depois também reconheceu o carro – ah, já entendi…

            Nós parámos à frente da porta de minha casa quando o carro parou do outro lado da rua. Grande azar, meu… dasss!

            - Tens de ir cumprimentar não é?

            Eu estava de costas e a sentir-me muito mal…

            - Não sei… eu não quero! – sentia-me aflito

            - Oh Nuno, parece mal o teu primo chegar de lua-de-mel e tu não ires dizer olá quando estás do outro lado da rua, não achas?

            - Acho. – respondi desanimado – mas eu não quero vê-lo!

            - Tem de ser, não é? – sorriu-me docemente – não tem mau ar…

            - Eu sei.

            - O que é que sentes por ele?

            Encarei-o surpreendido, aquilo fora inesperado… mas já estava a fazer-me perguntas daquelas? Eu sentia-me bem com ele e até estava consciente que estávamos a ter uma relação fixe, mas…

            - Não sei…acho que nada… ódio, acho eu…

            - Sabes que o ódio e o amor são sentimentos bastante próximos…

            Bufei… não estava com pachorra para aquelas lições.

            - Eu no teu lugar ia lá já… cumprimentava e dizia que tinha de ir tomar duche… é melhor do que teres de ir mais tarde e teres de demorar mais tempo a fazer sala, não achas?

            - Acho. – acenei com a cabeça, agradecido – é uma boa ideia… vou agora!

            Ele estendeu-me a mão a sorrir.

            - Até logo, Nuno… obrigado pela corrida e pelo café… espero ver-te mais tarde.

            Virou-me as costas e afastou-se rapidamente sem olhar uma única vez para trás. Fui eu que fiquei a olhá-lo por um minuto, enquanto ele entrava no café… aquele homem era super sexy.

            Fechei os olhos por um momento, inspirei fundo e atravessei a rua.

            - Venho só dizer olá… fizeram boa viagem?

            Apresentei-me com o meu melhor sorriso…

            - Nuno! – a mulher dele veio ter comigo de braços abertos

            - Estou todo transpirado, Sílvia! – preveni – estive a correr…

            - Só dois beijinhos, então…

            Apertei a mão ao Pedro sem o encarar, mas senti o seu olhar atento.

            - Quem é aquele? – perguntou-me logo

            - É um amigo meu. – respondi sem mais nada – fomos correr…

            - Ah agora corres?

            - Sim…

            - Trouxemos-te um presente do Brasil! – a Sílvia agarrou-me na mão a sorrir – mas era tudo muito caro, é só uma lembrança…

            - Não era preciso…

            - Era sim… tu agora és o meu primo e não tenho mais nenhum, és só tu, foi das melhores prendas, digo-te já…

            - Obrigado! Divertiram-se muito? – sorri-lhe… ela nem era má… se não fosse pelo que aconteceu, eu até era capaz de gostar dela

            - Muito… foi maravilhoso, nunca tinha ido assim para o estrangeiro…

            Os meus avós entretanto apareceram também para cumprimentar o neto e a sua nova mulher. Eu aproveitei para me desculpar com o duche e ir-me embora. O Duarte tinha razão, assim foi muito melhor… muito mais rápido e muito mais eficiente, tinha feito o que tinha de fazer sem parecer que estava chateado ou qualquer coisa do género e já estava livre, agora podia fugir deles sem dar nas vistas.

            É claro que foi perturbador, foi mesmo. Foi perturbador vê-lo bronzeado, bem disposto; foi perturbador ver a maneira como ele olhava a mulher, como lhe pôs o braço pelos ombros descontraidamente, num gesto de intimidade; e foi perturbador ver a sua expressão quando me perguntou quem era o Duarte, a maneira como olhou na direção dele quando estava a desaparecer dentro do café do Sr. Roberto. Perturbou-me sim, perturbou-me tudo e quando entrei no duche sentia-me triste, sentia-me estranho… que olhar tinha sido aquele? De certeza que ele não estava à espera que eu ficasse a chorar pelos cantos o resto da vida, de certeza que tinha pensado que eu ia começar a sair sozinho e que ia acabar por haver outras pessoas a interessarem-se por mim… que fosse para o inferno… ele e a mulherzinha, eu agora tinha outras coisas em que pensar... e pensei mesmo.

            Porque é que o Duarte me tinha beijado? Eu podia compreender que quisesse fazer as pazes comigo depois daquele começo atribulado, também podia compreender que quisesse companhia para correr, era muito mais agradável correr com outras pessoas, mesmo sendo alguém que mal se conhece… mas porquê o beijo? ‘Porque me apeteceu muito’, fora a resposta… apetecera-lhe muito beijar-me? Porquê? Queria companhia para o fim de semana? Queria alguém que o acompanhasse para não estar sozinho com dois casais? Eu estava prontíssimo para isso, principalmente se ele não tinha mesmo ninguém.

            Senti-me a ficar excitado e abri a água fria por um momento, tinha de me controlar… veríamos o que aconteceria…

 
Parte 5