terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Aí está, finalmente. Depois de algum tempo negociando e fazendo alterações, a história do Nuno e do Duarte... contada a duas vozes. Vejam o que acham?


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segunda-feira, 4 de maio de 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Tu és meu - 8 (conto gay)

Para ver inicio - cap 1

8


            Quando regressei à mesa estava bem mais calmo do que ele parecia ter ficado. Eu tinha pensado sobre as coisas e tinha tomado uma decisão, sentia-me bem comigo próprio… era o dominador que pressionava o submisso, não o contrário… o que eu estava a fazer não podia ser.

            - Já cá estou. – sorri-lhe – não fugi.

            Ele parecia um bocado ansioso e o seu olhar estava tão penetrante como sempre. Não sorriu com o meu comentário como eu esperara que fizesse, mas achei que se tinha descontraído um pouco.

            - Estás bem?

            - Sim. – respondi acenando com a cabeça bem comportado

            - De certeza? – pareceu desconfiado

            - Sim. – tornei, resistido a dizer ‘sim senhor’

            - Então o que foi aquilo? – os seus olhos devoravam os meus, senti-me a corar, mas aguentei-me

            - Um momento de impaciência… – respondi completamente seguro de mim – não volta a acontecer.

            Ele olhou-me perplexo e pareceu claramente confuso.

            - Um momento de impaciência! – repetiu lentamente, semicerrando os olhos enquanto tentava perceber – o que é que isso significa?

            Fogo que o Pedro era mais fácil de aplacar que este. Mas decidi dizer tudo como deve ser, de forma simples e clara… preto no branco.

            - Significa que eu tive um momento de cavalo selvagem. – expliquei – fui impaciente, tive tempo para raciocinar, pensei um minuto, percebi que estava errado e acalmei-me… desculpa…

            Esteve uns segundos em silêncio, a ponderar as minhas palavras.

            - Um momento de cavalo selvagem… – repetiu pensativo

            Acenei com a cabeça sem dizer nada. Continuava desconfiado.

            - E o momento de impaciência deveu-se a quê? Pode saber-se?

            - Desculpa, não volta a acontecer.

            - Não foi isso que eu perguntei! – o seu tom endureceu outra vez e a sua voz soou tão fria que me arrepiei… como é que ele conseguia fazer aquilo?

            - Eu prefiro que não me respondas e me digas que não me queres responder, como fizeste antes de virmos, do que desvies o assunto… senti-me mal.

            - Preferes?

            Acenei com a cabeça a confirmar, continuando de olhos fixos no copo vazio da caipirinha. Agora estava a sentir-me mesmo mal… isto era tão intenso e tão stressante…

            - E preferes carne ou peixe?

            Olhei-o abismado. O quê? Nem um músculo da sua face se mexeu, nada, parecia uma máscara de carnaval, daquelas sem expressão.

            - Prefiro carne. – disse completamente confundido

            - Bife de vaca?

            - Sim, pode ser.

            Foda-se! Mas que porra?… já tinha vontade de dizer dois palavrões na mesma frase.

            - Outra caipirinha para acompanhar ou queres outra coisa?

            - Caipirinha se faz favor.

            Ele chamou o empregado e ficou a olhar-me em silêncio até ele chegar.

            - Dourada escalada e bife de vaca bem passado… duas caipirinhas para acompanhar e uma garrafa de água de meio litro, fresca e sem gás, com copos para dois. – pediu com a maior das descontrações, realmente dar ordens era uma coisa a que estava habituado e que fazia com a maior das simplicidades

            Tive vontade de rir quando o empregado lhe respondeu com um ‘sim senhor’, mesmo sabendo que não era no sentido que… mas mantive a boca fechada, claro, nem me atrevi a sorrir.

            O silêncio regressou. Senti o seu olhar permanente, senti-o bem… de vez em quando eu olhava-o também, mas não aguentava mais de um segundo.

            - O que se passa, Nuno? – acabou por perguntar

            - Nada. – sorri tentando parecer despreocupado

            - Como nada? – bradou num tom abafado, em claro esforço para se conter – de repente tens uma explosão que ainda agora não estou certo de ter entendido bem, depois vais para a casa de banho e desapareces durante 9 minutos! – calou-se subitamente quando o olhei sobressaltado – que foi?

            - Contaste os minutos?

            - Não estava propriamente ocupado, pois não? – bufou – até te digo mais, tive de fazer um grande esforço para não me levantar e ir ver o que raio te estava a ocupar tanto tempo… mas finalmente voltas, sentas-te e não abres mais a boca a não ser para proferir umas simples palavras soltas… é suposto eu achar que não se passa nada?

            Senti-me a afundar na cadeira… foda-se, mas eu não fazia nada bem? Não conseguia aguentar o seu olhar, ele parecia mesmo irritado.

            - Olha para mim se fazes favor! – ordenou azedo

            Encarei-o… sentia a cara a ferver, devia ser capaz de aquecer todas as casas do país durante um ano.

            - Não se passa nada.

            - Como não? – resmungou impaciente – eu compreendi o que disseste, mas agora és tu que me estás a passar um atestado de estupidez!

            - Eu sei que um submisso não abre a boca sem que lhe seja dirigida a palavra! – defendi-me com a verdade… não estás a ser justo, meu…

            Ele abriu os olhos de espanto e manteve-os assim enquanto tentou entender o que eu acabara de dizer.

            - E tu estás-te a comportar como um submisso…

            Acenei com a cabeça sem saber o que ele iria dizer daquilo. Vi os olhos semicerrarem-se enquanto os cantos da sua boca estremeceram, ouvi o que pareceu um soluço… pensei que o tinha posto mal disposto mas finalmente, para minha suprema frustração, abriu a boca para desatar a rir às gargalhadas.

            Eu nem queria acreditar naquela merda. Ele não se estava só a rir às gargalhadas, estava-se a rir a bandeiras despregadas… todas as pessoas das mesas ao lado estavam a olhar para nós e a sorrir, as gargalhadas dele eram tão genuínas, estava a rir-se com tanta vontade que era contagiante… eu só não me ri porque me estava a sentir frustradíssimo… acho que só a expressão americana é que consegue explicar o que me passou pela cabeça… What The Fuck?!!... foram uns poucos de minutos daquilo, parecia que nunca mais parava. Puta que pariu!

            - Oh Nuno, tu és impagável! – conseguiu finalmente dizer – tu não existes… leste isso no Google, foi?

            - Na Wikipedia. – eu devia estar cor de beterraba – não é verdade?

            - Mais ou menos. – respondeu, inspirando fundo para recuperar o folego

            - Mais ou menos é um bocadinho vago. – lancei abespinhado… mas que porra…

            Ele sorria abertamente.

            - Olha Nuno, mesmo que não tivessem acontecido imensas coisas ontem e hoje que me deram muito prazer, mesmo que não me tivesses feito sentir uma série de emoções de que eu já tinha saudades… só este momento faria com que tivesse valido a pena conhecer-te!

            - Porque fiz de palhaço? – resmunguei contendo-me para não cruzar os braços

            - Não fizeste de palhaço, Nuno, o que tu fizeste foi adorável, foi um momento de uma inocência e de uma ingenuidade que só poderia ter saído de um miúdo doce como tu.

            - Eu não sou doce! – cerrei os punhos debaixo da mesa

            - És sim, Nuno, és mesmo… podes ter um recheio amargo às vezes, mas és um doce sim, o Paulo está absolutamente certo sobre ti. – pelo menos estava sorrir – porque é que o fizeste? Explica-me…

            - Pensei que gostasses. – disse de sobrolho franzido, não tinha gostado mesmo nada daquilo

            - Querias agradar-me? – sorria deliciado e os seus olhos faiscaram percebendo que, mesmo sem responder, a minha expressão lhe dissera o que queria saber – estás a esforçar-te para me agradar, não estás? Para que eu goste de ti…

            - Estou! – admiti

            - Eu gostei do que fizeste, Nuno. – assentiu – eu gosto do que fizeste, mas gosto em algumas circunstâncias, não sempre, não contigo, não ainda, nunca num momento como estes… entendes?

            - Mau sentido de oportunidade? – encolhi os ombros, aborrecido

            Ele riu-se novamente.

            - Um pouco, sim… eu tenho tido muito prazer com o Nuno conversador, que diz o que pensa, que é rebelde e me surpreende com as suas reações…

            - Bem… surpreendi-te agora, não foi?

            - Isso é indiscutível! – confirmou com um sorriso de orelha a orelha que eu nunca lhe tinha visto – eu não me lembro da última vez que me ri com tanta vontade, decididamente surpreendeste-me… e digo-te mais, de todas a vezes que já me surpreendeste, este momento bateu tudo e vai diretamente para o primeiro lugar, vai ser difícil conseguires superar-te!

            - Eu achei que tinha passado das marcas e quis compensar sendo mais submisso e portando-me bem. – tentei justificar-me

            - E portares-te bem é não falares?

            - Não sei, só sei que é uma das coisas que… pronto… vocês gostam…

            Atrapalhei-me um bocadinho na explicação.

            - Nós? – os seus olhos cintilavam de gozo

            Eu estava completamente confundido, mas ele parecia deliciado e estava com uma cara de quem se estava a divertir imenso. Não conseguia perceber bem aquilo… estava-me a esforçar para lhe agradar e ele tinha dito aquelas coisas… agora estava a desconversar?

            - Os dominadores!

            - Entendo… e portanto achaste que não falando me podias agradar…

            - E enganei-me…

            - Eu adorei o teu raciocínio e a forma como tentaste, mas neste caso específico enganaste-te, sim… e vou-te explicar porquê…

            O empregado chegou com as bebidas, olhando-nos curioso depois da explosão do Duarte que fora notada na esplanada, no restaurante, no bar… até devem ter ouvido no parque de estacionamento. Recebeu um olhar azedo e afastou-se rapidamente. Devia estar a pensar que ele tinha mudanças súbitas de humor e eu estava convencido que não se enganava.

            - Estás certo em muita coisa. – continuou ele depois do outro ter desaparecido – percebeste-me bem, o que eu sou e do que eu gosto, e fico satisfeito com isso, principalmente por continuares aí sentado… uma coisa é ter alguém absolutamente atraído por mim e cheio de vontade de… enfim, estou habituado a isso, mas outra coisa é esse interesse manter-se depois de se saber que tenho um feitio e uns gostos… complicados… é verdade que sou controlador, sou muito possessivo e, sim, gosto de dominar as minhas relações… gosto de ser eu a mandar, gosto de ser obedecido e quando não sou, gosto de aplicar castigos para que quem está comigo perceba que não pode, nem deve, desobedecer-me novamente…

            - As famosas palmadas…

            - Entre outras coisas… – sorriu – além disso gosto de usar um homem, mas não gosto de abusar… gosto de ter o consentimento das pessoas com quem me envolvo para um tipo de relação que é diferente do comum, estou habituado a usar homens adultos, experientes, que estão perfeitamente conscientes daquilo que desejam e que sabem perfeitamente quais são os seus limites, entendes?

            - Eu não tenho limites. – disse-lhe

            O seu sorriso abriu-se mais.

            - Tens sim, Nuno, o que tu não tens é experiência e por isso não sabes quais são os teus limites… cada um tem os seus, são todos diferentes, mas toda a gente os tem… entendes?

            Acenei com a cabeça… estava a adorar que ele estivesse a falar comigo e a explicar-me as coisas como deve ser.

            - Por exemplo… do pouco que eu já percebi sobre ti neste domínio, tu aguentas perfeitamente uma decisão unilateral do teu dominador, do tipo ‘não é da tua competência, não te digo’… ouves, encaixas e aguentas, mas não gostaste que eu desviasse o assunto e te ignorasse… percebi que te sentiste humilhado e não gostaste, tal como te irritas sempre que o Ricardo te provoca mais, tal como te ofendeste comigo quando te atirei à cara que te tinha pago o café… isso é um limite que tens, tu não gostas de ser humilhado!

            - Quem é que gosta?

            - Muita gente! – disse ele para meu espanto – há muita gente cujo fetiche é ser abusado verbalmente, que deliram quando lhes chamam nomes e os colocam em situações degradantes, há gente que adora ser humilhada… é só um exemplo, eu pessoalmente não gosto de humilhar, já to tinha dito.

            - Mas fizeste-o!

            - Sim, para te testar e arrependi-me imediatamente! Fiquei a saber o que queria, mas nunca esperei que tivesse um efeito tão… intenso.

            Fiquei um momento a olhar para ele, só gozando o seu sorriso.

            - Do que é que tu gostas?

            Foi impossível para mim resistir à pergunta.

            - Estás como a mulher do parque de estacionamento outra vez.

            - Achas? – revirei os olhos

            - Vamos com calma, Nuno, vamos com calma nisto… lentamente, ok?

            - Porquê?

            - Porque eu quero! – respondeu-me com os olhos a brilhar – e tu vais-me obedecer…

            Fiquei vidrado nele por um momento… isto ia muito além do que o Pedro fazia ou dizia, senti-me a estremecer… foi o que disse, foi a forma como disse, o tom, o olhar.

            - Sim senhor! – respondi de olhos fixos nos dele…

Tivera uma inspiração súbita e acertei em cheio no centro do alvo, ele reagiu exatamente como eu esperara que reagisse… inspirou profundamente e os seus olhos relampearam. Ele gostara da resposta, era flagrante.

            - Neste momento estava capaz de te comer aqui mesmo, à frente desta gente toda… tu és surpreendente!

            Raios partam que eu gostava disto.

            - O que é que aconteceu ao vamos com calma? – lancei

            - Vamos com calma na dominação… pode haver dominação sem sexo e pode haver sexo sem dominação. – foi a sua resposta tranquila, mas o seu sorriso era intoxicante

            - E pode haver o pack ‘dois em um’?

            O empregado chegou com os pratos.

            - Pode sim, Nuno… – sorriu abertamente – esse é o meu favorito.

            - Acho que vai ser o meu também.

            - E eu acho que mudei de ideias sobre ti. – disse então e não consegui evitar um sobressalto apesar do seu sorriso – acho que afinal não te vou tentar domesticar, não quero faze-lo…

            - Não?

            - Não… vou-te treinar para potenciar as tuas características naturais.

            - Eu tenho características naturais?

            - Eu acho que és naturalmente dócil e gostas de agradar, mas não me pareces que sejas, ou alguma vez consigas ser, verdadeiramente submisso.

            - Isso é bom ou mau? – franzi o sobrolho

            - Depende do ponto de vista… há quem goste dos seus homens completamente submissos, apagados e sem vontade própria, bonecos sem personalidade… e há quem, por outro lado, aprecie algum… fogo…

            - O que é que tu preferes?

            Ele esteve irritantemente a esgravatar no peixe imenso tempo antes de finalmente me olhar com aquele seu sorriso provocador.

            - Eu prefiro que sejas tu próprio e que me deixes descobrir-te.

            Cerrei os dentes para não mandar um berro e saltar para cima da mesa a dançar o samba… que aliás nem sequer sei dançar… descobrir-me? Parecia-me muito bem…

            - E domesticar-me?

            - Sim… um pouco pelo menos, mas basicamente treinar-te, moldar-te.

            - Para te agradar…

            - Para me agradares mais, Nuno… se é que isso é possível. Não percebeste já isso? Eu já vi que estás deslumbrado comigo, tenho experiência suficiente para o saber sem sombra de dúvida, mas tu estás a ser inesperado e estou muito surpreendido contigo… gostava mesmo de ter a oportunidade de te conhecer melhor.

            - Eu agrado-te? – o meu cérebro derrapara logo na primeira frase

            - Nem fazes ideia! – disse antes de franzir o sobrolho… o meu coração parou imediatamente – e agora é altura de cumprir a minha promessa… nós já estamos a jantar e o momento surgiu para te responder à tal pergunta…

            - O tal medo…

            Ele acenou com a cabeça.

            - O meu problema é que tu és muito jovem e não tenho a certeza de teres a tua mente completamente construída, tenho medo de… de alguma maneira… te fazer mal. – explicou hesitante

            - De me fazer mal?

            - Afinal que idade é que tu tens?

            - Faço 18 anos de hoje a 14 dias.

            Percebi que isso seria um problema quando o vi esbugalhar os olhos e ficar com o garfo apontado à boca… o peixe caiu-lhe do garfo e ele continuou de boca aberta a olhar para mim.

            - Tu não tens sequer 18 anos? – exclamou estupefacto

            Fodi-me!... pensei abanando a cabeça.

            - Mas que raio… e quando é que estavas a pensar dizer-me isso?

            - Eu não costumo andar por aí a dizer a minha idade. – defendi-me abespinhado – olá, eu sou o Nuno e ainda não tenho 18 anos…

            Aquilo era para o fazer sorrir, mas não resultou, pelo contrário.

            - Não fales assim comigo, menino! – avisou de sobrolho franzido – não agora, não estou com paciência!

            Senti um murro no estômago. Devo ter empalidecido.

            - Queres que me vá embora? – perguntei baixinho

            - Não! – respondeu categórico – quero que cales a boca uns minutos e me deixes processar a informação… não falar sem que te dirijam a palavra, lembras-te? Isto foi completamente inesperado e está a ser fenomenalmente constrangedor… eu nunca tive tendências pedófilas antes…

            Abri a boca para lhe responder torto, mas fechei-a novamente perante o seu olhar.

            Foda-se!

            Era tão injusto… não podia ser, não podia… eu faço sexo desde os 13 anos, porra… agora que estava quase a fazer 18 é que a puta da idade ia ser um problema? Não era possível, não era. Via-o de sobrolho franzido a tentar comer… estava mesmo melhor que eu porque tinha-me passado a fome… a fome e o pifo que começava a sentir, a vontade de…

            Duplo foda-se!

            Ora fazia o sobrolho, ora erguia as sobrancelhas… estava mesmo a pensar, parecia que estava falar sozinho. Olhou para mim duas vezes apenas, o que me preocupou ainda mais… achei que estava perdido… porque é que tinha de ser assim? Porque é que eu não podia ter sorte um momento na vida? Porque é que eu não tinha direito a ter um tipo que me… de quem gostasse? Este era o homem mais lindo que eu vira, estava finalmente a parecer interessado em mim e agora a puta da idade ia interferir?

            Foda-se, tenho quase 18 anos14 dias? Como é que isso pode interferir? É por 14 dias? Eu não vou mudar nada em 14 dias… dasss…

            Comecei a ferver outra vez, mas que raio de sina a minha, tinha de haver sempre qualquer coisa a lixar-me, meu… parecia impossível… mas que grande praga. Queria sair dali, mas não o queria aborrecer ainda mais, a minha situação já estava complicada…

            - Posso-me levantar da mesa?

            Isto despertou-o… parou de comer e olhou-me.

            - Onde vais? – perguntou

            Por mim registei que não manifestara estranheza, achara perfeitamente natural que eu lhe pedisse permissão para me levantar. Não me iria esquecer disso.

            - Até à beira mar um bocadinho… por favor…

            Não era o momento para meter água, mesmo que achasse que ele não estava a prestar atenção a detalhes.

            - Não acabas de comer?

            - Perdi a fome.

            O seu sobrolho franziu-se mais ainda.

            - Já está escuro.

            - Tens medo que me perca ou que fuja?

            Foi mais forte que eu, mas felizmente a sua expressão suavizou-se um pouco.

            - Eu não tenho medo de ti. – disse usando a frase que lhe tinha dito antes – leva o casaco!

 

            Quando estava a descer para a areia sentia-me um bocadinho melhor. Não sabia o que lhe estava a passar pela cabeça, mas não devia ser assim tão terrível, pelo menos não me dissera flagrantemente que não me queria. Eu sabia que ele me queria, já o tinha mostrado mais que uma vez. Na pior das hipóteses iria esperar até eu fazer 18 anos… eu aguentava 14 dias. Na melhor das hipóteses conseguia dar-lhe a volta e fazia-o descontrolar-se, já o fizera várias vezes com o Pedro e conseguira dera-lhe a volta à cabeça de maneira que ele não queria, mas depois não aguentara… era mais bruto nessa altura, mas isso não me incomodava… habituara-me. Este não sabia como reagiria, mas não tinha ar de ser nenhum monstro… mesmo que me desse umas palmadas… eu podia bem aguentar umas palmadas… até podia se excitante.

            Olhei para trás e encontrei-o a seguir-me com o olhar. Não se movera, mas não me perdia de vista… menos mal. Se estava atento a mim, significava que eu lhe interessava de alguma maneira… e se lhe interessava de alguma maneira… podia resultar. Quando ele estava presente eu também não o perdia de vista, por isso sabia bem o que significava controlar e ser controlado. Sentia-me em stress, mas não estava em pânico como quando ele reagira mal… não gostara de saber a minha idade, mas também não me descartara completamente, mandara-me calar para poder pensar.

            Eu podia aproveitar para pensar também. Desta vez falara comigo e isso era sempre positivo. O que é que eu ficara a saber? Ele era dominador, controlador e possessivo… certo. Compreendera bem que o Pedro não gostasse de me ver a falar com outras pessoas, portanto era como ele e isso podia ser uma arma para mim se fosse bem usada… sorri. Se ele tinha ciúmes eu podia-o picar com isso. Gostava de ser obedecido e ia-me castigar se eu não o fizesse… isso não era problema para mim, nem uma coisa, nem outra… sempre tivera de obedecer à minha avó, que nunca permitiu que eu me esticasse, sempre tivera de obedecer ao Pedro que… pronto… decididamente obedecer não era um problema e levar umas palmadas também não, duvidava que ele me magoasse a sério depois de me tratar como me tratou, com carinho e cheios de atenções… a não ser que fosse doido, afinal ele tinha mudanças de humor, umas vezes estava muito bem e logo a seguir era frio como o gelo… e podia estar com aquilo só para me dar a volta e me apanhar na rede… mas não, não acreditava que me magoasse. Claro que depois teria de ver o que eram as outras coisas, ele dissera palmadas entre outras coisas… o que seriam as outras coisas? Castigos? Ia-me tirar a Playstation que eu não tinha? Tive de me rir.

 

            Sentei-me numa das cadeiras da linha da frente, junto ao mar. Estava-se ali bem com aquele casaco polar super quentinho. Cheirava divinamente ao seu perfume. Ficava-me grande, mas também era natural, ele era bem maior que eu e bem mais másculo… por favor faz com que ele goste de mim e não me largue!... olhei para o céu, não sei bem porquê, mas fi-lo e senti-me bem.

            E que mais é que eu sabia dele? Gostava do ‘sim senhor, não senhor’, mas isso não era surpresa, também não estranhara que eu lhe pedisse permissão para sair da mesa… eu também conseguia fazer isso, era só questão de me concentrar… e que mais? Queria-me moldar para lhe dar mais prazer… ele frisara isso… não para lhe dar prazer, mas para lhe dar mais prazer… isso significava que eu já lhe dava prazer, mesmo sem sexo e mal me tendo tocado… isso era o eu ser mais que um menino bonito e ele dissera que gostava de mim assim, só me queria moldar um pouco, não queria que eu fosse um boneco.

            A verdade é que eu não me importava de ser um boneco para ele, era um homem lindo, adorava como ele falava comigo, como me tratava bem, mesmo quando me repreendia e era mais duro comigo… a verdade era que, naquele momento, eu estava disposto a ser aquilo que ele quisesse, literalmente o que ele quisesse, sentia tanta vontade de lhe agradar como sentira durante anos com o Pedro, talvez ainda mais… estava doido com ele e era capaz de fazer tudo o que ele me pedisse… estava sozinho e não queria, nunca estivera sozinho, sempre tivera o Pedro a dizer-me o que fazer e a… sim, era verdade, eu gosto de fazer sexo e sabia bem que iria sentir falta. Queria alguém assim, que me controlasse, que me desse uso e o Duarte era tão… fantástico… e era lindo… devia ter um corpo maravilhoso e devia saber fazer tudo tão bem ou melhor que o Pedro, era gay e tinha muito mais experiência… porra, não podia pensar mais naquilo, estava a ficar excitado outra vez, seria possível?

 

            Recebi uma mensagem… era ele. Fogo, que sentido de oportunidade.

            «estás bem?»

            Pensei um bocadinho, mas respondi quase imediatamente.

            «sim, estou a pensar»

            A sua resposta foi imediata.

            «em?»

            «ti»

            Eu sei, a resposta foi um bocado foleira, previsível e isso tudo, mas era a verdade. Ele pode ter pensado o mesmo, mas não o demonstrou.

            «bem ou mal?»

            «estou com medo»

            «de mim?»

            «de não me quereres»

            «achas possível?»

            «não sei. Espero que não»

            «sério?»

            «muito»

            «vem para cima. Os teus amigos estão aqui»

            - Porra! – exclamei bem alto

            «e os teus?»

            «também… porta-te bem»

            «vou portar»

            «não sei se acredito»

            «apostamos?»

            «o quê?»

            «não me rejeitas por causa da idade»

            «só isso?»

            «sim»

            «e se não conseguires portar-te bem?»

            «castigas-me… faço o que quiseres»

            «parece-me bem… sais a perder»

            «não acho»

            «não?»

            «se ficar contigo não perco»

            Eu sei… outra vez um bocado foleiro, mas era o que eu sentia, aquele tipo estava-me a dar a volta à cabeça, meu… sentia-me desesperado por estar sozinho e ele estava a dar-me atenção, sentia-me desesperado por sexo e ele tinha todo o ar de… pelo menos tinha de certeza um corpo fantástico e não o conseguia tirar da cabeça… piroso ou não, eu queria-o e faria o que fosse preciso para o conseguir ter.

            «veremos… vem»

            Desta vez não respondi, levantei-me e regressei à esplanada fazendo um esforço para não sorrir demais e não demonstrar muito a felicidade que estava a sentir. Queria tanto que aquilo resultasse…

 

Tu és meu - 7 (conto gay)

 Para ver início - cap1

7


            Ele olhou para o relógio assim que me viu aparecer… sorria enquanto me aproximava, mas o seu sorriso esmoreceu consoante fui avançando para ele. Eu achava que estava bem, mas a sua expressão provou-mo. Os seus olhos percorreram-me de cima abaixo, avidamente e tive de fazer um grande esforço para mão sorrir demais…

            - Nuno! – exclamou – tu estás…

            Calou-se e eu tive vontade de bater palmas.

            - Estou bem? – acho que consegui dar um tom modesto à minha pergunta, pelo menos tentei porque ter um gajo daqueles a olhar para mim com aquela cara pôs-me o ego em órbita

            - Estás, Nuno, estás muito bem.

            - A sério? – escancarei a cara num sorriso de orelha a orelha

            - Porquê o espanto? – ele sorriu também, recuperado – deves saber bem que és muito atraente…

            - Eu?!

            Sobressaltei-me. Aquilo estaria mesmo a acontecer? O tipo mais giro que eu vira na vida, e que me deixava abismado, estava mesmo a dizer que eu era muito atraente?

            - Será possível? – questionou-se com uma expressão de surpresa no rosto

            - O quê? – perguntei sem perceber

            Ele pareceu confuso e hesitou um momento antes de responder.

            - Que não tenhas consciência que, além de seres um miúdo lindo, és também extremamente atraente.

            - Eu?! – repeti tão espantado que nem consegui reagir bem ao elogio… o senhor ‘toda a gente cai aos meus pés’ estava dizer que eu era extremamente atraente? Um de nós devia estar a alucinar… ou ele, ou eu.

            - Não tens mesmo consciência disso, pois não!? – parecia incrédulo

            Nem consegui perceber bem se aquilo era mesmo uma pergunta ou se ele estava a pensar alto. Senti-me repentinamente ansioso, parecia tudo bom demais para ser verdade.

            - Tu achas mesmo isso?

            - Acho! – foi a resposta simples – acho mesmo… vamos jantar?

            Levantou-se.

            - Eu não tenho dinheiro. – tornei a avisar

            - Outra vez? – exclamou com os olhos a dançar de riso – tens algum restaurante favorito?

            - Não! – respondi estremecendo ao vê-lo aproximar-se de mim

            - Então posso eu escolher. – senti o seu hálito doce na minha cara – eu prefiro assim… vamos? – apontou para o carro, fazendo sinal para eu avançar à sua frente

            - Eu achei que preferisses. – sorri fazendo o que ele mandara… és o Sr. ‘Mandão, sou eu que decido e controlo todos os momentos do teu dia’, já te estou a tirar a pinta…

            Dei apenas alguns passos até perceber que ele não me seguira. Olhei para trás, espantado e percebi o seu olhar fixo nas minhas calças. Agora virara-me e ele já não o podia ver, mas percebi que o seu olhar estivera fixado no rasgão da perna ao pé do traseiro… senti imediatamente o coração aos pulos. Bingo!

            - Que foi? – perguntei

            - Nada! – sacudiu a cabeça avançando para me alcançar – és muito perturbador, só isso…

            - Eu? – estremeci de excitação

            - Sim, Nuno, tu… só preciso descobrir se tens plena consciência disso e estás a fazer teatro, ou se é uma coisa natural em ti…

            Ele entrou no carro e sentou-se com imenso estilo e uma confiança de quem estava habituado. Por mim fiquei com a mão na porta, sem a abrir, olhando-o por cima dos vidros fechados.

            - Vais entrar no carro ou estás à espera que eu te vá abrir a porta? – perguntou de sobrolho franzido – eu costumo fazer isso a algumas senhoras, mas confesso que nunca o fiz com homens…

            - Porque é que achas que eu estou a fazer teatro? – aquilo estava-me a martelar no cérebro – o que é que isso quer dizer?

            - Entra no carro, Nuno! – ordenou impaciente – se me fizeres sair, garanto-te que não vais gostar…

            Habitualmente aquilo tinha-me feito decidir a entrar, principalmente depois de tudo o que tinha lido, mas não sei o que me passou pela cabeça, em vez do fazer, larguei a porta e cruzei os braços, desafiador.

            - Eu já não estou a gostar agora… o que queres dizer com eu estar a fazer teatro? – perguntei de sobrolho franzido – achas que te estou a enganar?

            - Porque é que tens de ser tão difícil? – olhou-me frustrado

            - Eu não sou difícil! – resmunguei na defensiva – agora também não sou assim tão fácil… diz-me porque é que achas que eu te estou a enganar?

            Ele suspirou, derrotado.

            - Eu não disse que me estavas a enganar, Nuno. – explicou tornando a encarar-me – o que eu disse foi que tu és extremamente atraente, que és extremamente perturbador e que eu não percebo se estás a fazer de propósito ou se o estás a fazer inconscientemente… seja o que for está a resultar!

            - Oh! – foi a única coisa que consegui pronunciar… acho que nem percebi inteiramente o que me disse, mas soou-me tudo muito bem

            - Portanto não estou a desconfiar de ti, não estou a achar que me estás a enganar, estou simplesmente surpreendido com o efeito que estás a ter em mim… agora entra no raio do carro, ou juro por Deus que não sei o que te faço!

            Agora abri a boca e desta vez nem o ‘oh’ consegui pronunciar. Aquilo estava muito para lá do que eu estava habituado… muuuiiito para lá.

            Abri a porta do carro e sentei-me ao seu lado, apertando o cinto.

            - Eu não estou a fazer teatro. – disse baixinho

            - Também me parece que não. – o seu tom de voz tornou-se doce uma vez mais – o que ainda é mais desconcertante.

            Disse mais qualquer coisa ao ligar o carro, mas muito baixinho também, o rugido do motor abafou completamente. Eu não tive coragem de perguntar o que ele dissera, principalmente porque me pareceu um palavrão.

 

            Levou-me para a praia. Deu uma volta infernal, pelo centro do Meco, via-se logo que só conhecia aquele caminho, mas eu nem comentei nada. Tinha a cabeça a andar à roda, aquilo era tudo muito mais excitante do que eu pudera imaginar… eu devia ser doido, mas a verdade é que gostava quando o Pedro exercia aquele tipo de autoridade sobre mim… habituara-me a isso e, decididamente, ao pé deste tipo o Pedro era um saloio horroroso como homem e um amador como… intimidador-possessivo. Este era fogo a sério e a questão agora era se eu ia acabar por me queimar? Era quase certo…

            - Dois cêntimos pelos teus pensamentos. – ouvi

            A maior parte do caminho fora feita em silêncio, ele entregue aos seus pensamentos, eu entregue aos meus… pelos vistos ele despachara-se primeiro que eu.

            - Tanto? – foi a minha primeira reação antes de conseguir pensar

            Ele riu-se.

            - Abusador… – acusou a sorrir – quanto queres?

            - Quero que me respondas a uma pergunta.

            - Ah, é pago com informação?

            Olhei-o sério e o seu sorriso desapareceu, vi-o franzir o sobrolho.

            - Pergunta!

            - Há bocado estavas a dizer “a minha dúvida…”

            - Não me lembro. – disse pensativo – eu tenho uma série de dúvidas, não estou a ver qual possa ser…

            - Antes de receberes a mensagem deles para jantar… eu perguntei-te se também eras controlador e possessivo e tu disseste que eu nem fazia ideia, mas que a tua dúvida era…

            Ele hesitou por um momento.

            - Já sei, mas não te vou responder a isso agora… respondo-te durante o jantar, pode ser?

            Qual é o teu problema, meu?... mas decidi não me fazer difícil outra vez.

            - Pode. – acabei por dizer – mas não me vou esquecer…

            - Acredito que não… prometo que te explico essa minha dúvida.

            Demos uma volta na rotunda da praia, mas não havia lugar para o carro, tivemos de o deixar no parque.

            Ele parou para pagar e a mulher que estava na cabina a receber o dinheiro abriu os olhos de espanto quando o viu… até recuou quando bateu os olhos nele e precisou de um segundo para recuperar e a sua boca se abrir num enorme sorriso. Tive vontade de rir… sabia muito bem o que ela tinha sentido, muito bem mesmo.

            - Que foi? – perguntou desconfiado quando arrancou novamente depois de pagar – estás a rir de quê?

            - Nada… a mulher ia tendo um colapso quando bateu com os olhos em ti.

            Ele encolheu os ombros, começando a sorrir também.

            - Costumo ter esse efeito em algumas pessoas. – disse com uma expressão matreira de falsa modéstia que me fez rir mais – mas sabes que o embrulho nem sempre corresponde à qualidade do produto… é também por isso que eu te quero conhecer melhor… quero saber se és mais que um menino bonito…

            Fiquei a olhá-lo sem saber o que dizer enquanto ele premia um botão. Ouviu-se um estalo e a mala do carro começou a abrir-se para deixar a capota sair e cobrir-nos.

            - Achas-me bonito?

            - Muito! – admitiu – e muito francamente choca-me pensar que tu não tens verdadeira consciência do quão bonito e perturbador és…

            Fiquei perplexo por um momento… como é que ele dizia estas coisas assim tão descontraidamente?

            - Comparado contigo? – lancei quando consegui recuperar

            - Por exemplo… – mordeu o lábio para não rir – eu tenho perfeitamente consciência que sou atraente para a maior parte das pessoas… fisicamente, pelo menos, a personalidade depois limita um pouco… estou demasiado habituado a reações como a daquela mulher para saber que o primeiro impacto é sempre positivo, mas também estou preparado para que fujam de mim como fizeste hoje… embora, como te disse, nunca tenha acontecido até hoje.

            - Eu não fugi de ti!

            - Ah não? – encolheu os ombros – talvez não…

            - E porque havia de fugir de ti, por seres controlador e possessivo?

            - Sim!

            - E mandão? – acrescentei a sorrir

            - Também! – ele olhou-me, mas não sorriu – pensei que te pudesse ter assustado…

            - Devia ter-me assustado? – franzi o sobrolho também

            - Não. – foi a sua resposta curta, ele começara a falar por monossílabos e surgira-lhe uma sombra no rosto… ficara algo por dizer, mas ele esforçou-se e tornou a sorrir – vamos?

            Ele estava com medo que me assustasse? Parecia…

 

            Eu não estava à espera que ele quisesse àquele restaurante. Podia ser dos melhores restaurantes do Meco, mas era também dos mais caros. Não era para a bolsa de todos. Eu parei, quando percebi para onde ele queria ir.

            - Que foi?

            - Queres jantar aí?

            - Não presta?

            - Não sei, nunca comi aí… é caro!

            Os seus olhos brilharam.

            - Mas afinal és tu que vais pagar o jantar? – perguntou mordendo o lábio, esforçando-se por não se rir

            - Achas? – exclamei – nem sei se tenho dinheiro para uma caipirinha aí!

            - Então se sou eu que pago, sou eu que decido… parece-te justo?

            - Sim, mas…

            - Há outra coisa que tens de perceber sobre mim, Nuno… – aproximou-se de mim – eu não sei como era o teu ex, para além de ser controlador e possessivo… e mandão. – acabou por sorrir – mas eu já te disse que não gosto muito de ser contrariado… não disse?

            - Já vi que não! – respondi com um suspiro

            - Ou estás com medo que te atire à cara que te paguei o jantar?

            - Tu prometeste que nunca mais fazias isso…

            - Então vou perguntar uma última vez… tens alguma coisa contra o restaurante?

            - Para além de ser caro?

            - Sim, para além disso…

            - Não!

            - Então acabou a conversa! – desviou-se e apontou para a porta – à minha frente, se faz favor!

            Comecei a andar e passei por ele sentindo-me a corar.

            - És sempre assim? – perguntei sem olhar para trás

            - Não… – ouvi sentindo que ele estava a sorrir – algumas vezes sou um bocadinho pior…

            - Acredito! – respondi sem parar

            - Não te assusta saber isso?

            - Não sei bem…

            Continuei sem o olhar… abri a porta e entrei na zona do bar. Quando ele parou ao meu lado, foi quando finalmente o fixei… os seus olhos brilhavam como de costume, tentando adivinhar o que eu estava a pensar.

            - Lá fora? – perguntou sem qualquer comentário à minha resposta – e vemos o por do sol?

            - Pode ser…

            Estava algum vento, mas ele tirara dois casacos polares da mala do carro e dera-me um… ainda não era altura para os vestir, mas de certeza que iria acabar por ser necessário.

 

            Ficou a olhar-me uns minutos em silêncio quando nos sentámos.

            - Que foi? – acabei por perguntar sem aguentar mais

            - És surpreendente! – acabou por dizer – acho que és realmente mais que um menino bonito…

            - Eu sou normalíssimo! – argumentei sem perceber o porquê daquilo vindo do senhor ‘eu tenho milhares de gajos atrás de mim’

            - Não, não és Nuno! – afirmou categórico – isso eu te garanto que não és…

            - Não? Então sou anormal?

            - Anormal também não… – mordeu o lábio para não rir abertamente e eu fiquei vidrado na sua expressão – és extra ordinário!

            Fez a separação das palavras com cuidado.

            - Extra ordinário?

            - Sim… queres que te explique…

            Calou-se quando apareceu o empregado para saber o que nós queríamos.

            - Caipirinha? – perguntou-me e como eu assenti, virou-se novamente para o empregado – duas caipirinhas e depois podemos jantar aqui, ou temos de mudar lá para dentro?

            Eu fiquei simplesmente a olha-lo enquanto ele falava com o empregado, explicando o que queria, quando queria e como queria… lá autoritário era ele, mas era tão lindo e tinha tanta pinta… e aquele polo ficava-lhe a matar… e eu gostava de homens assim como ele era, estava visto… ele ser deslumbrante fisicamente era um bónus.

            - Estás com o mesmo olhar da mulher do parque. – sorriu provocador

            Corei imediatamente.

            - Surpreende-te?

            - Não! – respondeu com um sorriso – estou habituado e sei que atraio muitas pessoas… vi o teu olhar quando me cruzei contigo no pinhal e vi o teu olhar quando te beijei!

            - A sério?

            - Porque é que achas que te pisquei o olho?

            - Não sei… porquê?

            - Foi um ‘obrigado… tu também és muito giro’. E porque é que achas que te quis beijar?

            - Porquê?

            - Foi um ‘obrigado’ por me teres levado ao teu sítio secreto.

            Gostei… gostei mesmo, mas senti-me um bocado embaraçado. Não estava mesmo nada habituado a que me dissessem aquelas coisas.

            - Tu estavas para me explicar porque é que eu era extra ordinário. – disse sentindo-me a ferver de satisfação

            - Mas vou-te explicar porque te quero conhecer melhor…

            - Também serve. – respondi fazendo o seu sorriso abrir-se mais

            - Para além de seres um miúdo muito giro?

            - Achas-me giro?

            - Acho… acho mesmo… mas isso não é tão importante como possas pensar… o Ricardo também é giro e não me atrai minimamente… aliás, até acho que é por isso que ele te está a provocar, às vezes parece-me que ele gostava de estar no teu lugar…

            - Qual lugar?

            - Gostava de ter despertado o meu interesse como tu fizeste… de me atrair…

            Por um momento quis-lhe perguntar porque é que dizia aquilo do Ricardo, se ele percebera alguma coisa mais… mas a minha cabeça estava limitada e havia uma pergunta mais urgente…

            - Eu atraio-te? – fiquei sem respirar à espera da sua resposta

            - Pensei que já o tivesses percebido… atrais e muito… as minhas duas facetas…

            - As duas?

            - O meu lado bom e o meu lado mais… perverso…

            Disse aquilo com um ar perfeitamente sério, de olhos fixos nos meus para tentar ver a minha reação, foi a vez de ele ficar suspenso à espera do que eu iria dizer ou fazer.

            - Sim… acho que já vi um bocadinho das duas. – disse calmamente

            Ele agitou-se na cadeira, parecendo momentaneamente desconfortável naquela posição.

            - Já. – confirmou

            - E eu atraio as duas? – sei que fiz um enorme sorriso, nem queria acreditar no que estava a ouvir

            Pareceu descontrair-se um pouco… aquela pergunta devia estar entre as reações positivas.

            - Atrais, muito… gosto do teu estilo, da tua forma de estar…

            - Do meu estilo? – disse eu pensativo – isso é um bocadinho vago…

            Ele sorriu outra vez… eu tinha o seu sorriso lindo outra vez. Nem queria acreditar que ele estivera a stressar por minha causa, nunca ninguém tinha stressado por minha causa.

            - Queres que eu seja mais específico? – o seu sorriso tornou-se mais provocador quando eu acenei com a cabeça – deixa-me ver se consigo… eu gosto muito que sejas um doce, como o Paulo diz… e como geralmente és, simpático, delicado, cheio de humor, mas que tem um lado selvagem que responde quando provocado… um cavalo bravo, que é dócil quando é bem tratado, mas que se empina e dá luta quando o provocam…

            Dasss… um cavalo?... eu juro que estava a adorar cada uma das suas palavras até à parte do cavalo.

            - Já me chamaram muita coisa… cavalo foi a primeira vez! – lancei um bocado abespinhado

            Ele soltou uma enorme gargalhada.

            - É uma metáfora, Nuno! Não me passou pela cabeça ofender-te, que nem penses nisso, sequer… eu não gosto de humilhação! Já te disse isso.

            - Um cavalo bravo, hã?

            Eu não conseguia ofender-me com ele, a sua gargalhada era fantástica e adorava aquela sua expressão de riso mal contido… acabei a sorrir também, acho até que gostei da metáfora.

            - Selvagem! – continuou a sorrir

            - Achas que sou selvagem?

            - Acho que sim… às vezes pareces… é isso que quero descobrir, se és mesmo um doce com um lado selvagem. – ele mordia o lábio para não rir abertamente

            O empregado chegou com as caipirinhas e eu tive tempo de pensar numa resposta à altura… eu também sabia provocar quando me concentrava, o problema era ser muito difícil concentrar-me com ele à minha frente, a olhar-me assim.

            Quando o empregado se afastou ainda brinquei um pouco com as palhinhas, mas depois debrucei-me sobre a mesa para o fixar nos olhos.

            - Isso quer dizer que me queres domesticar?

            Os seus olhos abriram-se mais e as suas sobrancelhas ergueram-se numa surpresa flagrante. O meu comentário fora inesperado e apanhara-o desprevenido. Os seus olhos brilharam por um segundo antes do seu sorriso se tornar a abrir, desta vez enigmático.

            - Sou capaz de gostar de tentar, sim… – foi a sua resposta

            - E achas que consegues?

            Tinha o coração a querer saltar-me do peito.

            - Acho! – foi a resposta dele acompanhando o brilho divertido dos seus olhos – principalmente se gostares mesmo de levar umas palmadas…

            O sorriso desapareceu-me imediatamente dos lábios e a minha boca abriu-se.

            Wow!… aquele comentário não estava previsto.

            Subitamente senti a garganta seca e o único consolo que tive foi que o sorriso dele lhe desapareceu também. A história do ‘spanking’ que lera na net.

            - Agora assustei-te mesmo… – comentou com uma expressão estranha

            Ficámos mais de um minuto a olhar-nos mutuamente em silêncio. Eu não sabia bem o que dizer. Não eram as palmadas, era o que poderia vir a seguir. Havia o levar umas palmadas e o levar umas palmadas… mas não queria perguntar-lhe mais. Por outro lado o seu olhar intenso sobre mim estava a deixar-me outra vez com a cabeça a andar à roda e a tristeza nos seus olhos estava a deixar-me… triste também.

            - É uma pena. – acabou por dizer

            - O quê?

            - Que te tenhas assustado.

            Não me assustaste!... pensei logo… acho eu…

            Eu olhei-o mais um momento, mas voltei a fixar o horizonte. O sol estava a pôr-se e eu fiquei à espera que desaparecesse. O DJ, acho que em homenagem ao por do sol, colocou um das minhas músicas favoritas… ‘If I loose myself’, dos ‘One Republic’… reconheci-a aos primeiros acordes.

            - Ouve esta música! – disse-lhe

            Não olhei para ele, mas mantive-me atento e percebi que estava a ouvir com cuidado, vi-o endireitar-se no refrão… ‘If I loose myself tonight, it will be by your side’.

As pessoas na praia estavam todas a dançar aos pulos, acenando ao sol, despedindo-se, o final da música a tocar alto, a batida era fantástica, o sol a desaparecer… o ambiente tornou-se eletrizante, contagiante… toda a gente a vibrar com o momento, só nós dois estávamos sentados quietos, ambos com as cadeiras de lado a olhar para o mar, sem dizer uma palavra, sem mover um dedo, em absoluto silêncio. Eu tive tempo para pensar e tive tempo para decidir o que fazer. Posso não ser inteligente, não ser culto, mas tenho alguma experiência e sabia o que fazer para lutar por um homem, fazia-o todos os dias há anos com o Pedro… tinha perdido, mas sabia marcar posição. Sentia o olhar do Duarte sobre mim, quis tanto que ele percebesse a mensagem.

            Quando a música acabou olhei-o nos olhos… achei que ele tinha percebido a canção, os seus olhos brilhavam. Parecia ansioso, curioso, estava expectante. A caipirinha bem abaixo da metade ajudou-me a tomar uma decisão… eu sabia que o queria, desejava-o desde que lhe pusera a vista em cima e ele já o sabia perfeitamente, estava habituado a isso… já percebera o efeito que tinha em mim, estava farto de o perceber, por isso o que é que eu tinha a perder? Que se fodesse isto tudo… até agora não me fizera nada, nem me prometera nada que eu não conhecesse já… seria mais do mesmo, mas eu pelo menos saberia com o que contar, eu até gostava, estava mais que habituado… o resto aprenderia como aprendera até agora.

            - Eu não tenho medo de ti… – disse-lhe com toda a calma – e não me assusto facilmente.

            Ele recuou na cadeira, inspirando profundamente… quase pareceu que estava a sorver as minhas palavras. Tive impacto nele, percebi perfeitamente que tive, os seus olhos faiscaram e pareceram devorar-me durante segundos, estavam em chamas.

            - Decididamente não tens nada de normal, Nuno! – disse num tom que parecia que estava a falar mais para si próprio que para mim

            - Sou extra ordinário! – sorri-lhe

            - És surpreendente!

            Senti-me super bem. Tive vontade de bater palmas com a expressão que lhe via no rosto.

            - Surpreendi-te?

            - O que te parece?

            - Continuas interessado em conhecer-me?

            - Mais do que nunca… o dia de hoje foi o mais surpreendente e inesperado que eu tive nos últimos meses!

            - Por minha causa? – ri deliciado

            - Sim, por tua causa… e posso dizer-te outra coisa, não sei o que se passou com o teu ex, mas neste momento estou perfeitamente convencido que ele cometeu um erro enorme e que foi ele que saiu a perder com o fim da vossa relação.

            Foi a minha vez de inspirar as suas palavras… caramba, ele dizia cada coisa, e dizia-as de uma maneira…

            - Porque é que achas isso?

            - Porque estou mesmo convencido que és um miúdo muito especial e acho muito estranho que ele te tenha trocado por quem quer que seja! – foi categórico nas suas palavras

            - Ele não gosta de homens… quer dizer, gosta de estar com homens, mas não era o que ele queria mesmo a sério, isto tudo já estava condenado à partida, acho eu… custou-me muito, mas eu já sabia que isto ia acabar por acontecer.

            - Sempre soubeste?

            - Acho que sim, só não queria acreditar…

            - Estás apaixonado por ele? – o seu olhar gelou por um momento

            - Não sei. – respondi sinceramente – não sei mesmo, nem sei se alguma vez estive. – encolhi os ombros – simplesmente foi o único homem que tive, ele nunca me deixou… quer dizer, a única outra experiência que tive foi com o Chico e quando ele descobriu foi o inferno…

            - Bom, nisso consigo compreende-lo perfeitamente, o sentimento de posse é uma coisa que eu conheço bem.

            - Já percebi. – sorri acabando a caipirinha – controlador, possessivo, mandão… sei muito bem o que isso é, não é nada novo, nem estranho, nem surpreendente… nem mete medo…

            - Eu percebi isso nalgumas reações tuas…

            - A sério?

            - Reações automáticas que tens, apesar de dar para ver que não tiveste treino formal…

            Vi perfeitamente que ele se arrependera imediatamente do que dissera.

            - Treino formal?

            - Tens fome? – perguntou voltando-se para trás à procura do empregado para lhe acenar – vamos jantar!

            Fiquei a olhá-lo em silêncio. Ele estava a fugir ao assunto, estava a disfarçar, estava a mudar de tema. Não sei se foi do álcool, se do que foi, mas aquilo magoou-me… eu não estou habituado a beber muito e nunca fui muito de aguentar a bebida, mas fiquei triste, fiquei mesmo… era a segunda vez que ele não me respondia e desviava o assunto, porque é que ele não dizia as coisas frontalmente quando era este assunto?

            - Não precisas fazer isso.

            - O quê? – retraiu-se

            - Se não me queres responder, não respondas, mas não desvies o assunto porque não me consegues enganar, nem distrair, diz-me simplesmente que não queres falar nisso… eu estive demasiado tempo com um homem assim para aguentar bem sem explicações… a isso estou habituado…

            - Certo. – respondeu pensativo

            - Eu sei o que é ser controlado! – continuei – sei bem o que é ser considerado uma espécie de propriedade, não poder sair com ninguém ou falar com ninguém… sei também calar-me e aguentar a frustração de não saber das coisas… sei muito bem o que é comer e calar! – foi a primeira vez que o vi perder a confiança e engolir em seco

            - Entendo. – os seus olhos brilhavam – mas tu não paras de me surpreender?

            - Não sei… agora sei bem o que tu és, Duarte, podes não querer dizer porque… não sei porquê, mas sei usar o Google… eu sei bem o que é treino formal e sei ainda melhor o que é ser dominado! – calei-me finalmente, dissera a palavra como deve ser e no contexto certo, a sério… vira a sua reação e não sabia o que dizer mais… pelo menos tinha cuspido tudo, agora só sabia que tinha de sair dali e rapidamente, levantei-me – vou lavar as mãos para o jantar.

            Ele estava de cara à banda, estava mesmo.

            - Nuno…

            - Não senhor, não vou fugir! – interrompi-o usando a expressão que vira na net e de que ele gostava – vou só lavar as mãos…

            Afastei-me deixando-o literalmente de boca aberta.

 

            Eu não conseguia perceber porque é que estava triste, devia ser por não estar habituado a ser tratado como uma criança, era mais ou menos isso. Nisso o Pedro podia ter muitos defeitos, e eu podia enumera-los a todos, mas sempre fora perfeitamente franco comigo, com ele sempre fora tudo ‘preto no branco’, nunca desviara assuntos, nunca deixara nada por dizer a não ser que me respondesse ‘não tens nada com isso, acabou o assunto’. Eu podia espernear, suplicar, mas nunca me tratara como uma criança que não aguenta, ou um ‘atrasadinho’ que não conseguia compreender nada… nunca desviara o assunto, nunca disfarçara e nunca me passara um atestado de estupidez… acho que foi isso que me magoou.

            Tive de sorrir ao lembrar-me do Duarte de olhos esbugalhados a olhar para mim quando eu dissera ‘não senhor’. Sabia que ele gostava, o Pedro não era bem assim, era simplesmente bruto e abusador, não passava disso, acho que nem sabia que aquela forma de tratamento existia. O Duarte sabia, tinha-mo dito ontem, tinha-mo pedido hoje, era assim que ele era e surpreendera-o ao dizer-lhe aquilo… não o facto de o ouvir, mas eu tê-lo dito assim, sem problemas; não tinha duvida nenhuma que fora isso.

            O que eu não percebia era porque é que ele não me queria dizer as coisas como deve ser, o porquê daquilo tudo, de tanta renitência, eu estava careca de perceber… as ordens, o ser possessivo, o ser controlador, a história das palmadas e agora a história do treino… eu tinha acabado de ler sobre isso… e ele tinha-o dito, porra. Se calhar pensava que eu não sabia as verdadeiras implicações disso, ou então tinha realmente medo que eu me assustasse.

            Mas também… a ideia ocorreu-me de repente… conhecêramo-nos há pouco mais de 24 horas… seria isso? Estaria a querer levar as coisas com calma? Se calhar achava que eu era algum inocente que… tive de me rir, eu já não era inocente há tanto tempo. Se calhar a paranoia dele com o assustar-me… ele podia estar com medo de estar a andar depressa demais. Ele tinha dito que estava interessado em mim, que eu o atraía, que me queria conhecer melhor, que me queria só para ele… tinha dito isso tudo… e até me tinha beijado… era isso, era eu que estava a andar depressa demais, a ser impaciente… mas foda-se, eu queria-o tanto… oh, merda!

            Eu era capaz de ter calma, de ser paciente e de ser submisso… o dominador era ele, portanto ele mandava e eu obedecia, aprenderia as coisas ao ritmo que ele determinasse.

            A ideia dele estar com medo de ir depressa demais e me assustar tranquilizou-me… achei que era isso… senti-me mais calmo e menos stressado porque percebi que o problema não estava a ser ele, estava a ser eu… eu é que estava a ser impaciente e a pressiona-lo… a net dissera que não podia haver pressões neste tipo de relação. Eu já lhe dera todas as indicações que ele precisava ter, já lhe dissera que estava habituado a um controlador possessivo, estava habituado a ser dominado, a… tudo… agora iria mostrar-lhe que também sabia manter a boca calada e só falar quando me dirigissem a palavra como lera… era verdade que já o enfrentara mais que uma vez, mas isso eu sempre fizera com o Pedro e iria fazer com todos… ele dissera que gostava desse meu lado selvagem, agora iria mostrar que era capaz de ser mesmo obediente e dócil… e queria mesmo sê-lo com ele.

            Está decidido!

Parte 8